Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
Reflexividade versus inconsciente?
Há aqui um divisor fundamental entre as ideias: de um lado tem-se a defesa de um sujeito que faz escolhas e que com isso é “consciente” de seus atos; de outro, tem-se um sujeito para sempre incerto de seus atos, sendo influenciado por um inconsciente que é a lei como forma – enfim, um sujeito desde sempre culpado por seus atos. O resultado, diz Zizek, é que embora ambos defendam que o sujeito, a cada vez que aplica um julgamento ético, está (re)inventando a regra universal em uma única situação concreta, isso envolveria, no primeiro caso, um sujeito posto numa situação de escolha sem suporte em nenhuma lei transcendental; enquanto, para Kant, a ausência de normas positivas universais resulta na insuportável pressão da lei moral como pura injunção vazia do dever.
Isso, para a Psicanálise, equivale a dizer que, quando as regras (o conjunto de normas positivas) desaparecem, o sujeito se depara com a lei, ou seja, não se trata mais de violar qualquer prescrição simbólica (tradição, costumes), mas de deparar-se com o “deserto do real” (a injunção incondicional da lei kantiana).
A consequência é que se tem um sujeito “culpado” na Psicanálise, na medida em que ele não pode ter certeza das motivações de seus atos – porque isso lhe é inacessível. No modelo do sujeito narcísico pós-moderno, sustentado pela incondicional injunção do superego do gozo, tem-se um outro sujeito culpado: culpado porque ele “falha na busca do prazer” (ZIZEK, 2000a, p. 367). A ideia de que não se precisa ter uma “culpa vazia”, ou seja, de que se pode estruturar o próprio projeto ético, esbarra de início em um problema básico: se o sujeito não tem como sustentar suas decisões na tradição, costumes etc. (o grande Outro), ele é obrigado a suportar sozinho o peso de seus atos, sem poder dividi-los com a sociedade; em outras palavras, ele tem de suportar a angústia de suas escolhas, sem qualquer aparato que lhe garanta que está “fazendo a coisa certa”. Outro problema, como já foi dito, faz par com a ideia lacaniana do inexistente “Outro do Outro”: conforme a lei simbólica vai perdendo a eficácia, pode-se contar com a intrusão do Real no simbólico. Este “Outro do Outro”, que dá corpo ao grande Outro por intermédio de algo (estado, instituições etc.) ou alguém (chefes políticos, religiosos etc.), acaba sendo visto como detentor do poder absoluto sobre aquilo que acontece em diversos planos da realidade.
No cinema, o que atormenta o sono de Neo em Matrix (1999), dos diretores Andy Wachowski & Larry Wachowski, simula esta situação: ao buscar encontrar as senhas de entrada no programa, o personagem resume a tentativa de personificar o grande Outro em algo que sustente a realidade contra o caos. Nesse sentido, o filme satisfaz a demanda de Neo: “sim, existe alguém que organiza a realidade por nós”. Em Clube da luta (1999), dirigido por David Fincher, os membros do “Projeto Caos” buscam encontrar em meio à realidade os ícones do capitalismo, para, ao final, descobrir (nem todos) que suas “certezas” estavam atravessadas por uma outra realidade – a psíquica.
Neste aparente beco sem saída será possível pensar em algum ato, democracia ou outras formas menores de fratrias que permitam resolver esse impasse? Talvez uma forma de responder a esta questão seja estudar sua materialização na política e na sexualidade, conforme a põe em cena o cinema.