Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
Identificação reflexiva no pós-moderno
Quando Lacan diz que a angústia não se trata da ausência de objeto, mas o contrário, da proximidade do objeto causa do desejo, ele faz referência precisa ao complexo de Édipo, no sentido que é lá onde se pode entender que objeto causa de angústia se trata. Assim, explica ele, o que o pai em sua função simbólica faz de fato não é “impedir” o contato da criança com o objeto de gozo, isto é, a Coisa materna: ao contrário, o que ele faz é sustentar a ilusão de que esta intervenção impediu o impossível livre acesso ao objeto incestuoso.
Em Totem e Tabu, Freud diz que o assassinato do pai teria promovido a volta do pai-morto como Nome, ou seja, como suporte da lei. Neste sentido, a função paterna protege o sujeito na medida em que sustenta a ilusão de que alguém, no caso o pai, foi quem “impediu” o gozo total do sujeito. O que se vê hoje, com o declínio da função paterna, é o retorno das figuras que funcionam de acordo com o “pai primordial” de Totem e Tabu, o pai totalitário que tudo pode, ou seja, diz Zizek (2000a, p. 315):
Quando a ‘pacificadora’ autoridade simbólica é suspensa, o
único modo de evitar o debilitante beco-sem-saída do desejo,
esta inerente possibilidade, é localizar a causa desta
inacessibilidade (ao gozo) em uma figura despótica que
sustenta o primordial jouisseur: nós não podemos gozar porque
ele se apropriou de todo o gozo…
Identificação reflexiva no pós-moderno
Pensar nestes termos implicaria um confronto com as ideias expressas na teoria da “Sociedade de Risco” formulada por Giddens e Beck. Para eles a vida não é, ou pelo menos não deveria ser, vivida em submissão à natureza ou à tradição, qual seja, não existiria um código ou ordem simbólica (o grande Outro) que servisse de orientação, de modo que nossos impulsos ou orientação sexual deveriam ser resultado de escolhas, uma “reflexivização” como um autoconhecimento capaz de um “refazer” constante do sujeito.