Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
“A relação sexual não existe”, ou porque a internet não é transgressiva
[…] mostrar a função do pai lida como ridículo, é o mesmo que
dizer que não se pode partir do pai real. […] pensar a função do
pai é afastar a figura das realidades para aproximá-la das
funções e das ausências. […] Não é necessário que o pai falte
para que falte – diz Lacan; do mesmo modo, não é preciso que
não esteja presente para que falte. Há então uma função eficaz
da falta. Falando de desejo, dizíamos que o desejo resguarda a
falta. O pai deve poder não “sufocar” o sujeito nos momentos de
sua constituição. Em um sentido, é uma sorte que, no limite, o
lugar do pai seja insuportável.
Como funcionaria, então, no ciberespaço (em Matrix, por exemplo) esta inserção do sujeito numa estrutura formal pura de proibição/mediação sem este “pedaço do Real”, sem esta incorporação da lei que lhe permita sustentar seu desejo?
“A relação sexual não existe”, ou porque a
internet não é transgressiva
Os tempos da internet como veículo potencialmente libertário, que se prefiguraram no início dos anos 90, parecem estar chegando ao fim. A rede, como está estabelecida nesta passagem de século, encontra-se em processo rápido de concentração, por meio de fusões com grandes conglomerados da comunicação, e faz antever um futuro não muito diferente do que tiveram outros meios de comunicação.
Um exemplo paradigmático é o do rádio. Saudado nos primeiros tempos como a democratização da comunicação, chegou a ser defendido por Bertolt Brecht como “instrumento revolucionário”, já que possibilitava a livre comunicação entre os “povos oprimidos do capitalismo”; similarmente, o ciberespaço foi considerado a princípio um espaço livre, um campo de emancipação, principalmente política. Os sistemas de controle, entretanto, vêm se estruturando progressivamente, mediante, por exemplo, os sistemas de rastreamento de mensagem ou de identificação (o que se faz formalmente por meio de contratos e informalmente por meio dos cookies) e, com isso, restringem o conteúdo e o anonimato do usuário.
A prova de que o ciberespaço é cada vez menos um espaço emancipador é o rápido aumento de conteúdo sexual nos sites. Aqui, novamente, ronda-se o núcleo mais duro da teoria psicanalítica, especialmente a afirmação lacaniana de que “a relação sexual não existe”, a não ser como cobertura da falta. A afirmação é de que a diferença sexual é Real no sentido de não poder ser simbolizada (escrita), ou seja, de não poder ser configurada em rígidas normas que fixem uma “identidade sexual” do sujeito.
Lacan, em …Ou pire, afirma que a “relação sexual” oculta o Real de que a diferença sexual se define pelo domínio biológico e pelas formações sociossimbólicas. Diz ele que esta relação, não podendo ser inscrita, só funciona com a entrada de um terceiro termo – o falo –, o qual não remete a todo homem, mas a algum homem, isto é, à cadeia significante que parte do pai-mítico de Totem e Tabu, daquele capaz de satisfazer o gozo de todas as mulheres. É no inverso desta lógica que a mulher preenche seu lugar na relação como não toda: na medida em que não existe um equivalente feminino do pai original (que escapa à castração), todas têm acesso ilimitado à função fálica, o que aponta uma dissimetria entre os dois sexos.
Dito ainda de outra maneira, não se trata de o ato sexual (a cópula) ser impossível: o Real/impossível é a fórmula simbólica da relação sexual. No caso do ciberespaço, esse Real parece referir-se a duas vertentes: a da diferença sexual e a da desigualdade social.
Neste sentido, o aumento do conteúdo sexual seria o indício de que algo da ordem do Real está sendo escamoteado. Isso equivaleria a dizer, ainda, que o suporte da realidade (a fantasia) estaria sendo disposto de outra maneira. Na acepção da lei simbólica e de suas relações com a “forma universal” e a “positividade”, o Real é precisamente aquilo que “borra”, suturando a separação entre a “forma vazia” kantiana e os conteúdos positivos; enfim, o resto de algum conteúdo patológico que liga a universal neutralidade da forma vazia com os conteúdos positivos da realidade. Nesta lógica, é precisamente o conteúdo patológico que, longe de afastar, sustenta os conteúdos positivos da realidade.
Será coincidência que justamente o cinema americano, ao adentrar um estádio de autorreflexão, esteja produzindo filmes que expõem a discussão sobre a violência e os sintomas da globalização de forma mais crua? Como estes conflitos estariam representados no espaço-tempo proporcionado pela internet, e de que forma o cinema discute este ciberespaço e as questões do corpo e do sujeito hoje?
Em Matrix, Neo é um hacker que trabalha nas horas vagas longe do seu emprego formal – no que está de acordo com o pós-moderno –, fazendo aquilo que lhe interessa de fato: encontrar um acesso ao Real, representado no filme por um ciberespaço marginal ao sistema oficial. Neo explicita o que talvez seja hoje a última resistência à classificação da internet como mais uma forma de intervenção autorizada nos meios de comunicação de massa: o hacker representaria hoje (ou ao menos já representou) o ato de tomar um canal de televisão e substituir sua programação dominical (normalmente repleta de conteúdos sexuais) por propaganda revolucionária, por exemplo.
Neo inicia sua busca pela reafirmação do grande Outro tentando descobrir a senha que lhe dará acesso a esse Outro – à entidade que manipula sua vida. Em sua procura pela “verdade” que existe para além da simulação da Matrix, Neo é progressivamente levado por Morpheus, que se coloca na posição de mestre, a abandonar sua Weltanschauung. Parodiando os mestres orientais, Morpheus o faz perceber que sua verdadeira transformação nunca se efetivaria por meio da razão, nem pelos conhecimentos em informática ou pelas artes marciais, mas somente por meio da mudança de seu modo de “ver o mundo”.
Somente quando Neo é destituído das identificações sustentadas pela fantasia é que ele “vê” o mundo como um programa criptografado (uma estrutura) e adquire o poder de alterar sua estrutura (voando, deslocando-se através do espaço etc.). No entanto, resta ao final do filme uma outra parábola, que poderia ser considerada sob a perspectiva da castração e da lei simbólica: embora Neo tenha se libertado da Matrix, é somente lá que suas capacidades funcionam. Da perspectiva política, pode-se pensar aqui na dialética entre identidade e contexto que Ernesto Laclau (1996, p. 55), em Emancipación y diferencia, aponta: “toda vitória contra o sistema desestabiliza também a identidade da força vitoriosa”.
A liberação do corpo físico sustenta os múltiplos poderes do personagem. Este sabe como atravessar a fantasia proposta pelo ciberespaço, mas tem o corpo preso a outro lugar. Esta é, aliás, outra das discussões do filme e aponta para a possibilidade, cada vez mais estudada, de que se possa viajar fazendo uso apenas do próprio cérebro (por meio da instalação de um chip, por exemplo). Assim, caracteriza-se no filme a ideia lacaniana de que a imagem do corpo permanece como uma construção imaginária alienada do corpo físico, para apresentar-se como potência numa Gestalt que lhe dá forma “ao mesmo tempo que prefigura sua destinação alienante” (LACAN, 1998, p. 98). Neo, deste modo, resume o risco inevitável de toda experiência no ciberespaço: o fato de que, mesmo que se possa intensificar nossa experiência sensorial, corremos o risco de que alguém, ao dominar as máquinas, possa mediatizar ainda mais nosso desejo e, talvez, prescindir do nosso corpo.