Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

Três versões para o Édipo

O advento da chamada “realidade virtual”, oferecida a partir do crescimento da rede mundial de computadores, propõe questões insuspeitadas à comunicação e suas teorias, obrigando o indivíduo a pensar de outro modo antigas questões, como a identidade, a realidade, a fantasia etc. A história, ao que parece, apresenta mais uma vez uma criação que foge a suas funções iniciais para ganhar vida própria, passando a ameaçar seus criadores, nos moldes do monstro de Frankenstein, de Mary Shelley. As atitudes das pessoas para com a rede vão da adesão eufórica à rejeição paranoica, o que se manifesta também nos estudos acadêmicos, que com frequência se alinham com certa perspectiva e encaram os demais como um oposto persecutório: os entusiastas veem seus detratores como catastrofistas, enquanto esses veem aqueles como alienados históricos.

Um dos nós teóricos fundamentais quando se avalia o papel da realidade virtual na comunicação é a questão do sujeito. Pode-se considerar a rede como apenas mais um meio usado pelas pessoas “reais” para conversar entre si? Ou deve-se admitir que a própria noção de ciberespaço afeta o que se entende por sujeito? Mais interessante do que a substituição das relações “reais” por outras “virtuais” é talvez a questão de determinar quando, afinal, essas relações foram “reais”. Nesta acepção, como a questão do pai, do Édipo e da transgressão – enfim, a questão da identificação – pode ser considerada no ciberespaço, levando-se em consideração as concepções teóricas atuais?

 

Três versões para o Édipo

A questão do sujeito no ciberespaço, discutida por Zizek em “The fantasy in Cyberespace” (The Zizek Reader), suscita perspectivas por vezes antagônicas. Diz ele que, se for adotado o ponto de vista da questão do Édipo (ou do fim do Édipo), serão identificadas três correntes principais. A primeira se encontra principalmente em Jean Baudrillard e Paul Virilio e aponta para uma forma de retorno ao pré-simbólico, para certa imersão psicótica no universo da simulação – universo em que o imaginário recobre o Real ao custo do Simbólico –, e identifica no computador a coisa materna que impede ao sujeito o contato com a realidade.

Zizek considera problemática, nesse caso, a conceituação da diferença entre aparência e simulacro. A tentativa pós-moderna de distinguir “realidade” e “simulação” parece subentender que houve de fato uma experiência autêntica com o real, e que esta estaria se perdendo em função do simulacro. Tal nostalgia, segundo Zizek, é detectável em Paul Virilio e é similar à afirmação pós-moderna de um Novo Mundo, em que o simulacro universalizado libertaria os sujeitos da obsessão com o autêntico ser (afirmação que ele identifica em Gianni Vattimo, La sociedad transparente). Diz Zizek (1999a, p. 112):

Nisso reside o problema com o ciberespaço e a realidade

virtual: o que a realidade virtual ameaça não é a “realidade”,

que seria dissolvida na multiplicidade do simulacro, mas, ao

contrário, a aparência mesmo. Para colocar em termos

lacanianos: simulacro é imaginário (ilusão), enquanto aparência

é simbólico (ficção); quando a dimensão específica da

aparência simbólica começa a se desintegrar, o imaginário e o

Real tornam-se mais e mais indistintos.

A segunda corrente pós-edípica é representada por aqueles que enfatizam o potencial libertador do ciberespaço: ao oferecer a possibilidade de uma multiplicidade sexual e uma identidade, o ciberespaço libertaria potencialmente os indivíduos do domínio da lei patriarcal – ou seja, possibilitaria na prática diária a experiência da desconstrução metafísica binária (“eu real” versus “máscara artificial”). Dito de outro modo, esta visão do ciberespaço (que para Zizek se encontra em Sandy Stone (1995) e Sherry Turkle (1994)) anunciaria o fim do cogito cartesiano como uma única “substância pensante”. É o campo da desconstrução pós-moderna, contra a fixidez das identidades sexuais calcadas na ordem patriarcal – fixidez que determina que os papéis masculinos e femininos seriam os únicos aceitos na ordem simbólica – ordem essa que veria o homossexualismo e as perversões como uma falha do sujeito no caminho da sexualidade “normal” ou “madura”.