Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
O mito do salvador em Matrix
Em Matrix, Thomas Anderson/Neo (Keanu Reeaves) é um funcionário comum de uma empresa de software que nas horas vagas costuma invadir os sistemas de informação de empresas. Sua vida de hacker oculta, no entanto, algo que se manifesta em sua insônia e em seu desinteresse pelo mundo, uma espécie de dúvida que falseia suas sensações e que o leva a encontrar um grupo de rebeldes que conhecem a razão desta descrença. É por meio deste grupo, chefiado por Morpheus (Laurence Fishburne), que Anderson descobre que o mundo, como ele o conhece, é apenas uma realidade artificial, uma versão do ano de 1999 criada por computadores e sustentada pela energia obtida a partir de corpos humanos hibernados que funcionam como biobaterias. Nesse mundo, os sobreviventes aguardam a vinda de um libertador, que, como Anderson vem a saber, trata-se dele próprio.
Na impossibilidade de enfocar todo o filme no âmbito deste texto, serão abordados os aspectos que mais parecem interessar à discussão colocada, ou seja, aqueles vinculados à perspectiva do lugar do pai, ou do Nome-do-Pai, e a forma como estão relacionados à violência encenada. O mais importante deles – e que, de certo modo, remete às ideias de Lacan – é a afirmação de que o mundo é uma construção da linguagem, que no filme é construído a partir de um programa de computador.
O resultado é que os personagens que conhecem a linguagem (no caso, a dos computadores) têm poderes quase ilimitados no simulacro de mundo. Do lado do “mundo real”, que permanece uma dimensão paralela, é apresentado ao espectador o líder da “resistência” ao simulacro: Morpheus. Ele é uma espécie de pai simbólico que aguarda a chegada de um enviado mais sábio que ele próprio e capaz de salvar o “mundo real”.
Segundo Morpheus, o que Neo tem na cabeça que tanto o atormenta é uma “farpa” que não lhe permite viver no simulacro de mundo. A Psicanálise chama essa farpa de objeto “pequeno a”: o objeto-causa do desejo que resiste a ser simbolizado e que impede que o circuito do prazer se complete, forçando o sujeito a olhar para a realidade.
A “realidade” no filme é um simulacro criado pelo megacomputador Matrix, que, para Slavoj Zizek, em The Matrix: The truth of the exaggerations, é aquilo que Lacan chamou de grande Outro, “a ordem simbólica virtual, a rede que estrutura a realidade por nós” (ZIZEK, 2000d, p. 1). Nas palavras dos personagens:
Morpheus: “Matrix está em todos lugares, esta ao redor de nós,
aqui até mesmo neste quarto […]. É o mundo que foi puxado
para cima de seus olhos, afim de lhe encobrir da verdade.”
Neo: “Que verdade?”
Morpheus: “Que você é um escravo, Neo. Que você, como
todo o outro mundo, nasceu em escravidão… mantido dentro
de uma prisão que não lhe permite sentir cheiro, gosto ou
toque. Uma prisão de sua mente.”
Nessa prisão, os corpos funcionam como biobaterias para Matrix construir a realidade virtual da qual Morpheus pretende libertar os humanos. Uma das cenas fundamentais do filme acontece quando Morpheus leva Neo a uma vidente para que ela confirme ser Neo o enviado que vai liderar a resistência do “mundo real”.
A mulher, no entanto, diz a Neo que ele não é o One, o Um. Sugere que ele está esperando por algo, mas que antes deve conhecer-se e que Morpheus não entende as coisas, pois não há enviado a ser esperado – enfim – que Morpheus, apesar de toda sua inteligência, está autoenganado. Mas o que ela realmente quer dizer com isso só se sabe no final do filme, quando Neo, colocado em uma situação de vida ou morte, “vê”, como numa iluminação mística, o mundo como um conjunto de linhas de linguagem. Então o espectador entende, junto com Morpheus, que não há alguém que encarne Deus, mas apenas pais simbólicos, representantes da lei da linguagem, um artifício procriador situado nela.
Com esse enunciado, o filme reforça que ser pai é uma função que nomeia, mas que antes é nomeada, pois não existe a priori. Slavoj Zizek diz a esse respeito que esse pai primordial não é o pai da força bruta, como se tornou comum na leitura antropológica de Freud em Totem e Tabu, mas o pai que sabe.
Assim, no instante em que ascende ao conhecimento de que o mundo é uma construção da linguagem, Neo passa a se deslocar fisicamente, a aparecer e desaparecer, ter força descomunal, porque domina a linguagem a ponto de atravessá-la. Por outro lado, Matrix funciona, de certo modo, como a eterna repetição da fábula do redentor, filho de Deus, com poder de livrar o ser humano de toda a violência do mundo. Como resume Raimar Zons (2000, p. 3), em A ética em Matrix:
Após o fim do tempo histórico, é o programador Anderson, o
outro filho, que, como neófito e sob o nome de Neo, o hacker,
obtém do deus do sono, Morpheus, a confirmação de que sua
vida consciente não é vida, mas, sim, um programa, enquanto
seu corpo imobilizado serve de biobateria e fonte de energia às
novas máquinas pensadoras. Esse despertar não só levará à
anamnese anagramática do hacker Neo, em que se descobre
como “The One”, o messias esperado, mas também ao literal
segundo nascimento do neófito a partir do muco de sua
biomassa. O espírito autoconfiante, no entanto, só entra no
corpo estéril para armá-lo e transformá-lo espiritualmente.
Assim, o lutador da resistência volta ao interior da Matrix como
“não-homem” e como salvador, desdenhando
maravilhosamente suas leis físicas.
Do ponto de vista da relação violência/Nome-do-Pai, Matrix parece reafirmar o lugar do pai simbólico como intermediário e portador da lei, o que assegura, de certo modo, a repetição do Nome-do-Pai, mas também emula o enredo comum às religiões. Estruturalmente, o lugar do pai, o lugar da lei, aparece similarmente na história da maioria das religiões, em que um mundo de desordem, violência, mentiras etc. vai ser combatido por alguém superior, que conduzirá os explorados, humilhados etc. ao “verdadeiro” mundo, na terra ou em qualquer outro lugar, onde as relações serão “reais”.