Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
A diferença sexual nas fratrias
A questão é que, para virarem irmãos, eles devem selar o pacto
fraterno de renúncia igualitária ao gozo público, e aqui se
coloca o problema de que os privilegiados de plantão demoram
para abrir mão de suas posses infundadas. Mas esse problema,
a modernidade mostrou, logo que veio à luz, que é
simplesmente político e não de ordem do sagrado ou do divã,
por mais social que ele seja.
Insinua-se aqui a questão: se o sujeito pós-moderno busca abandonar a tradição para sentir-se mais dono do seu gozo, que tipo de situação faria com que ele renegasse esta “liberdade” em proveito dos irmãos da fratria? A resposta mais difundida é de que a organização da fratria passaria pela reunião em torno de uma “ideia redentora”, e não de um líder. Passa-se, então, aos problemas que a execução deste modelo implicaria, levando em consideração os modelos de família e sociedade que se têm até hoje.
A diferença sexual nas fratrias
Em Tudo sobre minha mãe (1999), do diretor Pedro Almodóvar, Manuela (Cecília Roth) é uma ex-prostituta que se tornou enfermeira e vive com o filho Esteban. Este, por sua vez, está escrevendo um livro sobre a vida da mãe. O fascínio do jovem pelo teatro, o cinema e a literatura acaba por levá-lo à morte: ele é atropelado ao tentar conseguir um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes).
A tragédia faz com que Manuela busque um retorno ao passado, inclusive procurando o pai que Esteban não conheceu. Nessa busca, ela encontrará Agrado (Antonia San Juan), um travesti capaz de transformar sua amarga vida com lições de otimismo. Os caminhos de Manuela acabam se cruzando com os de Huma (de quem se torna secretária) e de Irmã Rosa (Penélope Cruz), grávida do travesti Lola (Toni Cantó) – que se revelará o pai nesta história.
Manuela, que trabalha num serviço de doação de órgãos, vive uma relação de extrema proximidade com o filho Esteban, até que este morre no dia em que completava 18 anos. Já de início, revela-se simbolicamente a dificuldade que Manuela tem de desvincular-se do filho. É interessante notar que, antes do atropelamento fatal, há uma cena em que um outro carro quase atinge Esteban, simplesmente porque este atravessava a rua sem olhar – o que insinua que sua morte pode ter sido mais que acidental. Momentos antes do acidente, ele revela à mãe o presente que pretendia ganhar: “algum dia terá que me contar tudo sobre meu pai”.
A morte de Esteban leva Manuela a fazer exatamente aquilo que ela recomendava em vídeos educativos: doar os órgãos do próprio filho. Esta forma simbólica de sacrifício será o marco inicial de uma espécie de fratria feminina que se formará mais adiante. Uma série de elementos se conjuga e leva Manuela a empreender uma busca ao passado, na tentativa de reconstituir sua história pessoal. Entre esses elementos estão os escritos do filho, em que estes se referem à falta que lhe fazia o pai.
A busca de Manuela pelo passado resume-se em uma de suas falas, quando ela diz que 17 anos antes deixara Barcelona por Madri, fugindo do pai de Esteban, e que agora, então, tinha de fazer o caminho contrário. Durante a viagem, o trem atravessa um túnel simulando um útero às avessas, o que simboliza o retorno de Manuela a seu antigo mundo.
Tudo sobre minha mãe pode fazer algum semblante sobre o papel do homem na estrutura familiar contemporânea. A figura paterna permanece ausente durante a narrativa e se apresenta apenas em dois momentos. No primeiro, ela é encarnada pelo pai da freira Rosa. Cego, e guiado por um cão, ele resume o pai decadente do patriarcado (a exemplo do militar Frank, de Beleza americana), que, autoritário e esclerosado, não reconhece nem a própria filha. No segundo momento, a figura paterna é o travesti Lola-Esteban, pai do garoto Esteban e do filho de Rosa; a representação do pai nesse caso é tragicômica, já que se faz por meio de um travesti portador do HIV. Destes personagens, só continuarão vivos Manuela, Agrado, Huma e o bebê de Rosa, que também se chamará Esteban.
Ao final, Tudo sobre minha mãe, em sua estrutura de folhetim, acaba apontando para uma segunda chance, uma repetição da história em que os erros passados se corrigiriam e os personagens reestruturariam suas vidas dentro de um universo moral mais aceito (Agrado passa da prostituição ao teatro; Huma termina seu conflitante caso homossexual; Manuela dá palestras sobre HIV). Este progresso, entretanto, é feito sem a presença de homem algum ou, melhor dizendo, a despeito da presença dos poucos personagens masculinos, sempre narcisicamente egocêntricos. As personagens femininas, por sua vez, ajudam-se o tempo todo e mostram-se ao final como uma fratria possível, que prescinde do gênero masculino. Sobre isso, diz Birman (2000, p. 205-206):
O que deve catalisar hoje as novas formas de laços fraternais
seria a feminilidade como modalidade de construção do sujeito,
dado que a feminilidade seria a forma de ordenação erótica
pela qual existiria uma positividade conferida ao desamparo e à
precariedade. Valorizar a não-falicidade, como fio de prumo da
constituição do sujeito, seria enfatizar justo o oposto do que
sempre foi sublinhado pela auto-suficiência na modernidade. O
falo, como máximo valor e como instrumento de disputa
rivalitária, fundaria o eu na sua exigência de auto-suficiência. A
feminilidade, no reconhecimento do que existe de precário e de
frágil na constituição do sujeito, seria a forma de conferir ao
desamparo a sua fulgurância e a sua potencialidade de
inventividade intersubjetiva. A feminilidade seria o
reconhecimento cabal pelo sujeito de que não se basta e de
que é feito da matéria-prima da insuficiência, fadado que seria
aquele a buscar no outro não apenas o que não é, mas também
o que não poderia jamais ter. Por isso mesmo, a feminilidade é