Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

14 O Ciberespaço e o Real

 

NÃO SERIA POSSÍVEL considerar os games (cada vez mais direcionados aos adultos) e sua multiplicidade de exigências (destruir inimigos, resgatar “vidas”, cumprir objetivos etc.) como “entidades virtuais” que impõem infinitas demandas – as quais nunca poderiam ser cumpridas totalmente? Neste sentido, não se poderia pensar, ainda, que o ciberespaço, com suas solicitações cada vez mais constantes (como o caso de profissionais que reivindicam o direito de não responder a mensagens durante as férias) e seu poder crescente (como se viu na histeria sobre o bug do milênio) pode em breve funcionar como uma forma de Deus Materialista impondo suas eternas demandas?

De modo mais simplificado, talvez baste observar a crescente quantidade de janelas que se abrem automaticamente quando se acessa um site e que obrigam a tomar todo o cuidado para não clicar sobre uma área errada. Não raro estas janelas conduzem a novas páginas com novos assuntos e ainda outras janelas, e assim sucessivamente, até que nos perguntemos: o que é que queríamos mesmo?

Em The Art of the Ridiculus Sublime, Zizek (2000c, p. 43) diz que o universo do ciberespaço pode ir ainda mais longe, chegando a “tocar o Real”:

O Real de que falamos aqui não é o Real “puro” e pré-simbólico

do “natural em si mesmo”, mas o núcleo espectral duro da

“realidade psíquica”. Quando Lacan iguala o Real ao que Freud

chamou de “realidade psíquica”, esta “realidade psíquica” não é

simplesmente a vida psíquica interna dos nossos sonhos,

desejos etc., como oposta à realidade externa percebida, mas o

núcleo duro da primordial “fixação apaixonada”, que é Real no

preciso sentido de resistência ao movimento de simbolização

e/ou mediação dialética […] O Real que o ciberespaço adentra