Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

A ausência de um modelo de “pai suporte” para a lei simbólica

A ausência de um modelo de “pai suporte” para

a lei simbólica

É possível que certo modelo paterno como suporte à lei simbólica se tenha esgotado? Sabe-se que a história não se faz em todo lugar ao mesmo tempo. Os descompassos são, quase sempre, suprimidos quando se escreve sobre os fatos de uma época, normalmente enviesados pelos interesses e ideologias hegemônicos nas sociedades.

Pode-se formular a questão de outra maneira: é possível sustentar que o modelo de suporte à lei simbólica advindo do modelo patriarcal permanecerá por muito tempo ainda e na maioria das sociedades?

Como é sabido, a história não tem caminho de volta. A posição da mulher, especialmente nas sociedades ocidentais, sua inserção no mercado de trabalho e sua ascensão intelectual; a multiplicidade de gêneros sexuais; a procriação genética possibilitando no real o pater incertus est – estes fatos, entre outros, parecem atestar, no mínimo, uma mudança que deve avançar nas instituições básicas das sociedades, como casamento e família, e, no futuro, talvez mesmo a filiação.

As consequências, para o bem ou para o mal, parecem difíceis de prever. É possível, no entanto, dizer que existe um nível de debate sobre essas questões que está não apenas nos discursos autorizados e nas defesas ideológicas, mas também em outra cena, a inconsciente.

O impasse contemporâneo relativo a um modelo de suporte à lei simbólica coloca, entre outras, da perspectiva da Psicanálise e da comunicação, o problema da transgressão e da violência. Transgressão pensada aqui não em sua forma mais comum, como violação das leis sociais, mas no sentido mais positivo do termo, como ato capaz de criar uma situação nova, um ato insustentável para o sistema.

Como já foi dito, a violência, enquanto ato social que externaliza a agressividade do sujeito, pode ser vista em sua forma menos perigosa – na imagem –, o que aponta para a lição freudiana de que, em vez de nos confrontar com o Real, a imagem violenta serve precisamente como proteção contra esse encontro.

Nesse sentido, a despeito do ligeiro happy end, Central do Brasil coloca a imagem de Dora funcionando como anteparo fantasístico ao Real das pessoas que a procuram, ou seja, a personagem que joga as cartas no lixo oferece a fantasia protetora de que “alguém”, em algum lugar, receberá as cartas, dando com isso existência àquelas pessoas que, ao saírem do seu lugar de origem, perderam suas referências sociais.

Em Beleza americana o tema da transgressão confronta os sujeitos com a dificuldade cada vez maior de transgredir, ou seja, de colocar o sistema em conflito. A capacidade de absorção e fetichização do capitalismo suplantou as teses marxistas (ao menos por enquanto) de que o final do capitalismo seria dado pela inanição de recursos.

O cinema, no contexto dos produtos culturais da atualidade, parece ser ainda um produto primordial para a reflexão desta discussão, talvez dada a sua possibilidade de ter sido o objeto cultural privilegiado na transição da palavra escrita (literatura) ao primado da imagem. Dele é possível contemplar parte dos conflitos abertos e velados dessa atualidade, bem como as configurações imaginárias que sustentam as ansiedades das sociedades.