Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

Introdução

 

A VIOLÊNCIA E a transgressão são assuntos que ocupam uma parte considerável do conteúdo veiculado nos meios de comunicação hoje, embora quase sempre sejam vistas sob uma perspectiva superficial ou tenham seus sentidos limitados àqueles tipificados nos códigos penais. As manifestações atuais da violência parecem ter se transformado do sentido mais comum da violência física para a inclusão da manipulação de comportamentos e novas formas de discriminação social que ganham legitimidade simbólica nas mídias. Neste sentido, é possível que a discussão a respeito da violência exibida na mídia, bem como de seus eventuais efeitos no comportamento das pessoas, tenha implicações, entre outras coisas, para a liberdade de criação e para a exibição das obras.

O cinema, assim como outros produtos culturais, pode fornecer pistas quanto às origens dessa violência que circula entre os sujeitos produtores e receptores de culturas, cada dia mais influenciadas mutuamente. A Psicanálise, desde sua origem, volta-se a esses sintomas e pretende também, como outras áreas do saber, dar sua contribuição ao debate. Neste trabalho, focalizo aquilo que considero um dos signos cinematográficos desta questão: a forma como a figura do pai é apresentada no cinema e as possíveis relações desta figura com a violência posta em cena em produções recentes. A razão deste recorte é que, na teoria psicanalítica, a figura paterna é aquela que sustenta a lei simbólica na cultura, o que equivale a dizer que a agressividade que se expressa no âmbito social como violência ou tentativa de superar ou transgredir o status quo passa pela lei simbólica e, por consequência, pela figura paterna. No cinema, entendo que se encontra um dos lugares privilegiados de encenação dos conflitos sociais deste momento histórico, a exemplo do que fizera a literatura no século 19.

Em sua época, Freud afirmava que os poetas atingiriam – melhor que os psicanalistas – o entendimento da alma humana, antecipando os caminhos do desejo. Assim como a literatura colocou em cena os aspectos implícitos e explícitos dos processos sociais, quando reinou como lugar destacado das produções do inconsciente, seria possível dizer que o cinema foi o dispositivo privilegiado no século 20 na função de revelar os impasses dos sintomas do particular para o universal, ou seja, do microcosmo subjetivo do sentido dado ao sintoma, ao macrocosmo dos sintomas sociais de cada época, em que se podem ver encenadas as indeterminações do sujeito em relação ao seu desejo.

A intenção deste livro é provocar a leitura dos fatos de nossa época, pensando as formas com que estes acontecimentos se conectam à clínica contemporânea, relembrando o ensinamento freudiano de que o que encontramos nas clínicas e instituições é uma forma de resto do mal-estar das sociedades. Estas provocações são evocadas a partir da análise desses “restos”, desde sua forma como violência social até as formas subjetivas, das marcas da agressividade inscritas no corpo.

Embora os textos contidos neste livro tenham ligação entre si, a ideia é de que – dependendo da familiaridade do leitor com a Psicanálise – eles possam ser textos de compreensão independente.

Estes embates são feitos a partir do cinema, especialmente aquele que muitas vezes realiza essa discussão quando menos parece disposto a fazê-lo, ou seja, quando ao “brincar” com a realidade deixa entrever os impasses daqueles que realizam a obra; mas também de outros espaços privilegiados na encenação das fantasias, como a televisão e o conjunto de mídias que constituem o ciberespaço. Embora as temáticas privilegiadas possam ser encontradas em outras formas de cinema (o chamado cinema de autoria, por exemplo), as discussões são feitas em sua maioria a partir dos filmes blockbusters, filmes com grande distribuição e largamente vistos. A escolha desse cinema está ancorada na ampla distribuição desses filmes, que apresentam temáticas comuns a milhões de pessoas, possibilitando maior reconhecimento pelos leitores, mas também no objetivo principal deste livro, que é evocar a discussão dos sintomas sociais de nossa época.

Na primeira parte deste livro – A construção do social – Antropologia e psicanálise – são apresentadas as ligações culturais com base nos estudos destes campos do conhecimento sobre as origens do pai, isto é, a construção social da ideia de pai e as relações deste como representante da lei, assim como as implicações para além deste lugar simbólico. Aqui busco elucidar as raízes das leis simbólicas, aquelas que dão coesão às sociedades e que podem estar explícitas ou não nas relações entre os indivíduos: O que sustenta a coesão social? Por que quando essa coesão desaparece a angústia se torna um sintoma social? Como a ausência desta lei simbólica implica nas relações privadas e públicas dos sujeitos?

Na segunda parte – O sacrifício virtual – encontram-se as implicações da lei simbólica para o cotidiano da vida: a violência, a política, a sexualidade etc. Aqui os textos focam as relações dos sujeitos com os lugares historicamente preestabelecidos no mundo por meio das identificações fundamentadas na tradição, no legado transmitido socialmente versus as novas configurações sociais, advindas da alardeada globalização, e as marcas visíveis deste embate nos conflitos sociais e subjetivos, inclusive as marcas deixadas nos corpos.

Aqui também são apresentadas as novas formas de socialização para além das formas tradicionais e os ganhos e impasses possíveis destas tentativas: Como a exposição de fatos violentos pode atuar não como forma de “conscientização”, mas de despolitização? Por que a busca de um “euautônomo” pode implicar novas patologias? Por que a globalização não trouxe a “aldeia global”, mas novas formas de racismo? Haveria outras formas de construção social que superariam esses impasses?

Na terceira e última parte – A expansão do social no mundo virtual – trato do espaço virtual, cada vez mais presente na vida, que passa mais e mais a competir com a realidade. A própria ideia de realidade como objeto dado e conhecido é discutida nestes textos, que avançam sobre o virtual como novo lugar de encenação das subjetividades. Estas novas possibilidades são aqui apresentadas em relação às antigas formas de subjetivação, procurando identificar para onde essas formas apontam saídas e onde podem reencenar antigos dilemas.

A essas novas formas de expansão social, se é que podem ser assim consideradas, questões como realidade e simulacro se juntam a outras como: Quais as relações entre realidade e ciberespaço? Seria possível pensar em novas formas de subjetividades no ciberespaço? O ciberespaço é lugar de encenação dos impasses sociais ou não?

Convido o leitor a seguir estas reflexões, com uma leitura que pode ser feita linearmente ou aos saltos, seguindo os caminhos da necessidade e do desejo.