Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
Liberdade e angústia
Assim, a ideia fundamental quanto à identificação encontrada na teoria da Sociedade de Risco diz respeito à possibilidade de o sujeito realizar suas escolhas a partir de parâmetros próprios. A regulação desta autogênese, para Giddens (1993, p. 103), em A transformação da intimidade, estaria fundada numa espécie de “fala interna”:
O desenvolvimento da atenção reflexiva implica, como ponto de
partida básico, o reconhecimento da escolha. […] A conversa
consigo mesmo é uma reprogramação, uma maneira de se
considerar até que ponto as rotinas estabelecidas podem ser
modificadas ou, se possível, descartadas.
O “risco intrínseco” reconhecido pelos autores neste processo de escolha inclui a possibilidade, por exemplo, de não se ter certeza absoluta dos efeitos dos alimentos genéticos sobre o corpo humano ou sobre as consequências da pesquisa genética. A sugestão, no entanto, é que não se tenha nem uma atitude intransigente, tampouco atitudes condescendentes, pois se trata do “saber da ciência”.
O democratismo é inegavelmente sedutor, afinal, quem não quer “ser” o que gostaria? Por que aceitar a “escolha forçada” da entrada no simbólico, aquele lugar desde sempre pronto à espera do indivíduo, se pode ele escolher um outro lugar no mundo?
Liberdade e angústia A Psicanálise, ciência do erro e mensageira histórica das más notícias, está sempre atenta à outra reflexividade, a inconsciente, e às consequências da desintegração das estruturas tradicionais. Diz Zizek (2000a, p. 338):
Eu sustento responsabilidades por decisões das quais eu fui
forçado a fazer sem conhecimento próprio da situação. A
liberdade de decisão desfrutada pelo sujeito na ‘sociedade de
risco’ não é a liberdade de alguém que pode escolher
livremente seu destino, mas uma liberdade ‘provocadora de
ansiedade’ de alguém que é constantemente compelido a tomar
decisões sem estar consciente das conseqüências.
A implicação desta reflexividade, ou dito de outro modo, esta ausência de um saber fundado em qualquer tradição ou natureza, coloca, para o sujeito, que cada vez mais e mais as escolhas são suas, mas da perspectiva de uma outra reflexividade.
O pensamento globalmente massificante do “politicamente correto” talvez diga algo sobre a “ampla possibilidade de escolha” do sujeito pós-moderno. A angústia resultante da diferença entre as pulsões humanas e o “politicamente correto” se evidencia, por exemplo, na pressão para o gozo no consumo e na impossibilidade de se gozar tudo que aparentemente o mundo oferta, ou, ainda, na sensação de não ser “perfeito” ao gozar. Os resultados podem ser vistos nos novos diagnósticos – especialmente da psiquiatria com base nas neurociências – que convocam o sujeito a explicar porque ele falha no gozo.
Reduzida aos seus efeitos bioquímicos a angústia perde, entre outras coisas, a possibilidade positiva de motor primário das mudanças sociais. Afinal, se você pode ser o que quiser (pois todas as possibilidades estão dadas) e não consegue, o problema só pode ser seu…
Se até mesmo para os geneticistas o trauma escapa às certezas da genética é porque – mais do que representar o encontro do homem com a imprevisibilidade do meio ambiente – ele aponta para a proposição de que a identidade humana resulta da interação entre a herança genética e a influência do meio ambiente. A ruptura traumática na vida do homem, contrariamente aos outros animais, não é um evento isolado. Ela diz respeito a um encontro universal, cuja “intrusão inicia o processo de tornar-se humano” (ZIZEK, 2001, p. 6) e cuja simbolização não está escrita no genoma humano. Da perspectiva da ciência, a decifração do código genético é a nova chance de tentar eliminar a angústia causada pelo seu unheimlich paranoico, a subjetividade.
A angústia de um ser biologicamente gregário, nascido prematuro e dependente, inserido contraditoriamente num mundo que cobra a individualidade das suas escolhas e a obrigação de gozar a mais que seu semelhante, talvez possa dizer algo sobre uma violência, que por vezes escapa do sintoma no corpo para perder-se caoticamente no social.