Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
A passagem ao ato verdadeiro
Correlata à busca da individualização e da transgressão no pós-moderno é a questão acerca da natureza do ato nessa passagem de século. Como definir a veracidade de um ato levando em conta a atual demanda pela plasticidade do sujeito e a fatal absorção e redução mercantil de tudo o que seja novo ou raro? Reduzidos a uma marginalidade ínfima e por vezes cômica, aqueles que hoje se apresentam como outsiders limitam-se com frequência a fazer o jogo da referência que consolida ainda mais a estrutura do poder. Assim, longe de representarem uma saída real para o impasse da ordem social, econômica e política – enfim, longe de aceitarem o peso do que até algum tempo atrás se chamou de revolução –, julgam-se “excluídos do sistema”, e se negam a assumir a responsabilidade pelo poder e pelas consequências de seus atos.
Em Matrix, o personagem Neo protagoniza esta busca e este erro; erro porque ele demora a entender que suas pequenas sabotagens como hacker não o levarão a um mundo diferente. Somente ao assumir a responsabilidade política pelo poder e tornar-se o líder dos rebeldes, ele passa de fato a atravessar os simulacros dos computadores que no filme ordenam a realidade.
Do ponto de vista da Psicanálise, a passagem ao ato implica, contraditoriamente, a assunção radical da fantasia fundamental do sujeito, isto é, a chamada travessia do fantasma. Atravessar a fantasia, neste sentido, não significa afastar as ilusões que impedem o sujeito de “ver a realidade como ela é”, mas exatamente o contrário: trata-se de ir além do suporte fantasmático, daquilo que, como dizia Lacan, acontece em mim mais do que eu mesmo. É nesse sentido que Neo encena o problema em questão. Enquanto buscou desesperadamente um acesso ao mundo fora do simulacro criado por Matrix, ele permaneceu preso à ficção. Somente quando ele passou a agir na ficção – ou seja, quando ele assumiu o caráter radical e estruturante da função do imaginário na realidade – é que lhe foi possível atravessar o simulacro e ter acesso à “realidade” – ao mundo fora e dentro da Matrix.
O insuperável conflito da busca por uma identidade sem suporte no simbólico (ou seja, a busca do “Seja você mesmo”) acaba gerando uma angústia que envolve, hoje, atividades compulsivas frequentemente associadas ao consumo, fonte rica do que Marx chamou de mais-valia. O personagem Jack/Tyler em Clube da luta também serve como exemplo disso, com seu apartamento cheio de objetos com designs famosos ou, como ele mesmo diz, com “uma cozinha cheia de utensílios e temperos, mas sem nenhuma comida”.
Em Inteligência Artificial (2001), dirigido por Steven Spielberg, o personagem central é David, um garoto-robô projetado para ser um perfeito filho eletrônico. Todavia, em função de sua programação que emula o humano, David deseja saber quem realmente é e parte em busca de respostas. Ele descobre, então, sua origem, ao deparar-se com centenas de cópias suas e isso o leva a tentar o que Lacan chamou de único “ato radical”: o suicídio. Como resultado dessa tentativa, ele é transportado por meio do tempo e vai parar num futuro dominado exclusivamente por robôs. A paródia final é que nesse mundo totalmente artificial ele consegue ser o que desejava: um “verdadeiro” humano.
Vê-se algo similar no filme Tudo sobre minha mãe (1999), dirigido por Pedro Almodóvar, quando a personagem Agrado (o travesti capaz de rir de sua situação trágica) improvisa no palco um monólogo sobre sua vida e fala dos litros de silicone que usava e de quanto gastava com eles. Em vez de encarar estas modificações no corpo como artificiais, Agrado diz que “somos tanto mais autênticos quanto mais formos o que sonhamos para nós mesmos”.