Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

8 A angústia no sujeito pós-moderno

 

A ANGÚSTIA TALVEZ seja um dos pontos cegos nas discussões acerca da psicopatologia e mesmo dos comportamentos ditos sociais em nosso tempo. A razão desta obliteração está obviamente longe de ser resultado de uma ausência de teoria, pois essas discussões abundam desde os estudos mais sérios e aprofundados na clínica até os manuais de autoajuda. De outro lado, parece ser ela, também, o substrato metamorfoseado de uma parte significativa (se não a maior) dos diagnósticos atuais, bem como dos “novos sintomas” encontrados diariamente.

Camuflada sob novos diagnósticos, aos poucos, parece perder o estatuto constitutivo encontrado na Psicanálise para transformar-se em objeto (no sentido mais comum da palavra), manipulável e manufaturável. Esta mudança, ao que parece, dá conta de uma guinada fundamental de percepção do fenômeno, na medida em que é deslocada da relação sujeito/ mundo para outra cujo impasse só pode ser resolvido via bioquímica, que apresenta ciclicamente novos métodos infalíveis de controle sempre passíveis de serem substituídos por outros mais “modernos” e infalíveis.

O nó górdio da questão pode ser visto, entre outras coisas, na divulgada ideia de “identificação reflexiva”, que em sua estrutura eliminaria o que para a Psicanálise é o fator fundante do processo de identificação: o trauma. O trauma aqui está significado como a reatualização de um evento desde sempre acontecido, do qual falam os etnólogos e que funda a passagem no homem da natureza à cultura, do qual a angústia é o by-product, o saldo que para a Psicanálise sobrevive e sobreviverá sempre que o sujeito estiver acuado no impasse de uma escolha.

Neste sentido, talvez se possa pensar de que forma os processos de identificação do sujeito neste momento histórico – denominado pós-moderno – fazem ou não relação com a angústia. É certo que as questões relacionadas com a identificação fora dos moldes históricos da família patriarcal não começaram no chamado neoliberalismo, no entanto, pode-se pensar até que ponto as novas ideias sobre identificação não encontraram no modus político vigente no ocidente um campo fértil para sua propagação.

Do que foi dito, especificamente, e que se pretende discutir neste texto é essa identificação reflexiva, ideia senão hegemônica, ao menos de grande penetração mundial especialmente na sociologia, e suas relações com o sistema patriarcal, ao qual em menor ou maior grau a Psicanálise frequentemente é contabilizada. Neste sentido, uma das maneiras de olhar a questão da angústia em relação à identificação parece ser pelo viés da lei, podendo pensá-la como permeando as relações entre função paterna, identificação e trauma.

O que neste sujeito pós-moderno “reflexivo” aparentemente seria a solução da angústia – a fusão eu/mundo e a evitação do trauma – encontra retorno como uma angústia maior, na medida em que, ao não atravessar a separação fundante do sujeito moderno, o indivíduo, este se depara com o beco sem saída do anonimato. O que soa contraditório, como será discutido mais adiante nas teorias como a da Sociedade de risco, é que se pretende que este sujeito pós-moderno que não passaria pelo processo de individuação, qual seja, as questões culturais implicadas no que Freud chamou complexo de Édipo, seja “consciente e responsável” pelas suas escolhas da mesma forma que o sujeito moderno.

O que frequentemente é mais visto nos meios de comunicação de massa (MCM) e que de forma um tanto banal é “debatido”, especialmente na televisão, parece ser o chamado narcisismo. Reduzido ao egoísmo, a discussão ganha uma falsa dimensão em que quase sempre se chega a uma espécie de conclusão moral repetida ad nauseam, que o problema contemporâneo é da ordem de um autointeresse que se funda na ausência de valores tradicionais como a família, a religião etc. Ou seja, o narcisismo é tratado como uma “opção consciente” que pode ser revertida a partir de escolhas fundadas na tradição ou de alguma outra forma de iluminação.