Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
Fratrias, democracia e Estado
A mulher representa no filme a passagem ao simbólico de Jack: é somente no momento em que ele pode vê-la e fazer amor com ela – ou seja, somente à medida que a mulher passa a existir em seu mundo misógino – que o personagem coloca o pé novamente no simbólico. Marla exemplificaria, ainda, a frequência com que as mulheres são representadas, nas palavras de Maria Rita Kehl (2000, p. 240), “como elementos ameaçadores que, com seu apelo sexual, ameaçam a lealdade e a união da fratria, afastando o homem dos compromissos com o grupo em troca dos prazeres privados da relação amorosa”. A mulher, nesta lógica, nada mais é do que a representação mais adequada deste não-todo.
A passagem da mulher ao simbólico não pode ser resumida, como pretende parte do feminismo mais tradicional, na ascensão da mulher ao mundo do trabalho; afinal, a mulher sempre esteve inserida no mundo do trabalho, ou seja, ela sempre participou da produção da mais-valia. O ponto crucial parece estar na ascensão da mulher ao simbólico, ou seja, no reconhecimento do papel da mulher como “sujeito completo” nas relações de poder. O problema de parte das teorias feministas é que elas tratam a questão nos moldes pós-modernos da micropolítica (grupos, subgrupos etc.) e, com isso, relegam a mulher à condição de objeto parcial – quando a entrada da mulher no simbólico é uma questão de pura política (poder), no sentido mais universal do termo.
Fratrias, democracia e Estado
A fratria, é preciso lembrar, torna-se também uma questão política, na medida em que se apresenta como forma de organização social alternativa à constituição do Estado. A esse respeito, diz Giddens (1996, p. 25):
A democracia dialógica também pode ser mobilizada por meio
das atividades de grupos de auto-ajuda e movimentos sociais.
Tais movimentos e grupos expressam e também contribuem
para a reflexividade intensificada da atividade social local e
global. Nas sociedades contemporâneas, um número muito
maior de pessoas pertence a grupos de auto-ajuda do que a
partidos políticos.
Desta perspectiva, se em Central do Brasil a fratria tem o sentido social e político dos despojados da nação, apresentando-se como uma rede solidária contra a figura do pai-estado ausente, em De olhos bem fechados (1999), dirigido por Stanley Kubrick, a fratria simboliza a política em seu sentido mais decadente: o de um grupo de detentores do poder que podem desfrutar de um gozo acima da lei social.
Em Central do Brasil o tema da fratria remete ao discurso político historicamente atribuído à esquerda e centrado nos aspectos econômicos que determinam as condições subjetivas dos personagens. Além disso, o filme parece seguir de perto uma forma de discurso católico que apresenta o par riqueza/pobreza como correlato a individualismo/solidariedade, e isso, de certa forma, insere tal discurso – paradoxalmente – numa lógica neoliberal, que escarnece tanto das possibilidades de emancipação por meio do Estado quanto da esperança em alguma solidariedade humana essencial que se manifestaria naturalmente na sociedade.
De olhos bem fechados, por sua vez, trata a fratria por uma vertente totalmente distinta. Ali, a fratria não cumpre nenhuma função socialmente iluminista, pelo contrário, insinua paranoicamente a possibilidade de que os poderosos, quando devidamente articulados, podem roubar todo o gozo do cidadão. É o que Bill, o personagem de Tom Cruise, aparentemente descobre ao tentar imiscuir-se num universo social que não é o seu. Correndo risco de vida, ele acaba aceitando que o melhor será manter sua vida de classe média, com os antigos sonhos de consumo – já que o lado “real” do gozo (sexo e poder) não está a seu alcance.