Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
O sacrifício fundador e a dependência da fratria
Dentro do tema da fratria o sacrifício se impõe historicamente como um aspecto que não pode ser esquecido porque é fundador da fraternidade. Segundo a Antropologia, este sacrifício será tanto mais eficaz quanto mais inocente for a vítima – já que, quanto maior a inocência, maior é a grandeza do ato em que ela assume a culpa geral da comunidade: esta é a ética do deus comum, que une todos em torno do sacrifício (Jesus, por exemplo). Na Psicanálise, a figura do sacrifício está ligada à socialização, que ocorre por meio do sacrifício do objeto incestuoso perdido para sempre. Sustentando o Nome-do-pai, há a situação do sujeito que sacrifica seus desejos: é isso o que promove o encontro da Coisa (da substância pré-simbólica) com o simbólico (a entrada na linguagem). Assim, a entrada forçada na ordem simbólica é o que transforma a pulsão (na sua insatisfação polimorfa e sem objeto) em desejo (falta simbolizada em objeto).
No centro da questão do sacrifício encontra-se o corpo. Corpo imaginário, ele pode ser servido literalmente – como comida totêmica – ou simbolicamente; em ambos os casos, ele tem o sentido de incorporação imaginária. Na gíria dos mafiosos (ao menos aquela que se vê no cinema), um assassinato pode ser uma confirmação ou uma comunhão: na confirmação o corpo deve ser encontrado (nomeia-se o agente da violência por meio da prova positiva), enquanto na comunhão ele desaparece, sendo “ingerido” e incorporado ao grupo (a comunidade assume). Isso se verifica em De olhos bem fechados: quando o corpo da modelo é encontrado, Bill interpreta o fato como uma confirmação da regra da seita. Um exemplo de comunhão é o hábito de “desaparecer” com alguém cuja presença incomoda determinadas pessoas ou grupos; com isso, tem-se uma espécie de assinatura coletiva do ato.
Na Psicanálise, o exemplo mais contundente disso é o assassinato e a devoração do pai primevo. Sobre a ingestão totêmica, diz Oscar Massota (1987, p. 114):
A comida era comum, estreitava o laço dos membros do clã, ao
mesmo tempo que o parentesco do clã com o animal. Além do
mais, mata-se primeiro o animal, chora-se por ele e, ainda, o
ato de devorá-lo constitui festa. Todo ritual, como sua
culminância na festa, representa uma passagem de um tempo
profano a um tempo sagrado, comunitário: o proibido ao
indivíduo, a devoração do animal totêmico está permitido na
reunião do indivíduo ao grupo. Porém, que é, a quem
representa o animal que está em jogo no ritual? Esse animal
morto e chorado, responde Freud, não pode ser outro que não
o pai.
O sacrifício elimina o individual, inserindo o sujeito no social e sustentando sua fundação na ordem simbólica; o não-sacrifício/castração deixa o indivíduo centrado narcisicamente em si mesmo, mas não pode dar suporte à sua estabilidade, pois o priva da referência social (ordem simbólica). Na questão das fratrias, pode-se questionar, por outro lado, até que ponto estes agrupamentos autorreferenciados não atenderiam ainda a uma outra lógica: a da dependência.
A lógica da dependência pode ser discutida como elemento importante na constituição das fratrias. Neste sentido, um aspecto correlato ao dilema individualização/fratria seria a remodelação do conceito de drogadição. Há um número expressivo de medicamentos e mesmo de comportamentos sendo incluídos hoje na categoria de “causadores de dependência física” (exemplo disso são os anabolizantes e a prática compulsiva de exercícios físicos). Isso acende a discussão sobre como uma substância ou um comportamento, cujos efeitos químicos sobre o sistema nervoso central são mínimos ou nulos, pode fazer que as pessoas procurem cada vez mais a ajuda de psiquiatras e grupos de dependentes, com o intuito de libertarem-se do “vício”.
Para a psiquiatria contemporânea, em geral, trata-se quase sempre de procurar um fenômeno fisiológico que explique as reações do sistema nervoso; como o corpo funciona como um sistema integrado, e qualquer comportamento pode levar à liberação de substâncias, esta procura, por bem ou por mal, acaba dando resultados. Trata-se, porém, da velha busca da positividade na dependência: quando, após muito trabalho, termina-se de analisar e mapear todos os efeitos do elemento positivo, este já foi substituído por outro.
Para a Psicanálise, no entanto, a questão é mais singular e mais complicada: não há necessariamente um objeto específico de dependência e tampouco a descoberta dos mecanismos físicos de dependência adianta muita coisa. É claro que muitas drogas têm efeitos comprovados no sistema nervoso; o problema é que, além de esses efeitos variarem segundo o ambiente e o sujeito, concentrar-se na dependência da substância é quase sempre uma tarefa vã, já que – potencialmente – quase tudo pode ser “droga”. O filme Clube da luta toca nesse ponto ao mostrar como uma efetiva angústia (de Jack, Marla e outros membros do grupo) pode se “positivar” em alguma doença ou dependência. Talvez o exemplo mais cômico oferecido na atualidade sejam os grupos de apoio aos “Compulsivos Sexuais”; se até o sexo é tratado como droga, cabe perguntar o que não seria.
Seguindo este raciocínio, é possível verificar entre os indivíduos dessa passagem de século uma espécie de dependência similar à dependência toxicômana. O paradoxo da injunção pós-moderna do “seja você mesmo”, fora dos papéis sociossimbólicos fixos, deixa reflexivamente ao sujeito a incerteza quanto à própria identidade e o leva a recorrer ao Outro para saber quem é ou como se sente. Diz Zizek (2000a, p. 373):
O último paradoxo da individuação, todavia, é a completa
dependência dos outros – eu sou quem sou apenas em minhas
relações com os outros (veja-se a obsessão pós-moderna com
a qualidade das “relações”) –, e isso gera um efeito oposto ao
da dependência de drogas, situação esta em que se depende
não de outro sujeito, mas de uma droga que oferece
diretamente um excesso de gozo.
Assim, a fratria, a despeito das boas intenções primeiras, pode proporcionar um local de reconhecimento mútuo sem promover, necessariamente, um caminho de independência ou de liberdade. Resta, por fim, o temor freudiano expresso em Psicologia das massas e análise do ego: o temor à fratria com características típicas dos fenômenos de massa: identificação com um líder que represente um ideal comum, anulação das diferenças, substituição da lei social pelas regras do grupo e pelos abusos permitidos como paga pela obediência ao líder. Trata-se da antiga questão do grupo que, procurando escapar a uma sociedade problemática, coloca-se acima dela e reproduz com pioras aquilo que combate. Como alerta Jurandir Freire (2000, p. 15): “Em nome da fraternidade, podemos vir a excluir, de forma paranóica, as pequenas diferenças ou nivelar por baixo a moralidade, ao inibir ou eliminar as tentativas de experiências éticas singulares”.
Em Clube da luta esta questão está bem-apresentada. O reconhecimento dos indivíduos como membros do grupo tem duas consequências: a primeira é que, por constituírem um grupo, acabam fatalmente por se inserir de novo no social, embora como uma força social “negativa”; a segunda – e pior – é que o grupo reproduz as relações de poder que buscavam combater. Como lembra Maria Rita Kehl (2000, p. 243), “nada garante que uma formação fraterna que se propõe restaurar o Nome-do-Pai em bases mais adequadas às suas necessidades não possa se perverter, fechar-se sobre si mesma e colocar-se, imaginariamente, acima de toda a lei”.