Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

A política na polícia

Esse impasse se resolve, desse modo, pela assunção do gozo que se impõe ao sujeito por meio de sua capacidade inerente de desejar – a falta estruturante sintetizada no objeto a: é assim que o objeto (o ser amado, por exemplo) pode ascender à dignidade da coisa, aquilo que dá corpo à substância do gozo.

Lacan (1998, p. 792) alude, neste sentido, ao objeto da lei kantiana ao perguntar: “Não representa a lei moral o desejo, na situação em que já não é o sujeito e, sim, o objeto que falta?”. Nessa acepção, a lei moral kantiana não diz o que é o dever (o conteúdo positivo), mas somente que se deveria realizar o dever. Assim, a injunção kantiana afasta-se da possibilidade de servir de suporte como instrumento autoritário, na medida em que não diz o que se deveria fazer, ou seja, não “autoriza” ninguém a dizer o que é meu dever, mas, antes, destina ao sujeito a responsabilidade pessoal por “traduzir” esse dever.

Aqui, a lei kantiana encontra o sinthome (a singularidade do sujeito que resiste à inclusão na rede significante) lacaniano, o vínculo ético que liga a responsabilidade individual do sujeito (a tradução) ao bem comum, na medida em que esse sujeito não pode – ou não deveria – atribuir a culpa ao grande Outro ou ao “Outro do Outro” (como nos exemplos dos soldados ou policiais que se isentam da culpa por seus atos, já que agiam por ordem superior).

Esse é o dilema do policial/narrador Jim Kurring (John C. Reilly) no final do filme Magnólia (1999), dirigido por Paul Thomas Anderson, ao falar da dificuldade de alguém decidir qual a coisa certa a se fazer quando se está espremido entre a dureza da lei escrita (simplesmente prender o infrator) e a injunção pessoal (entender as razões que levaram o sujeito a cometer a infração), situação que o obriga a buscar uma tradução pessoal da lei.

 

A política na polícia A distância insuperável que separa a coisa (a incorporação inacessível do gozo) do ato (como ação política) não pode ser evitada. O perigo dessa evitação é cair em armadilhas tais como uma forma de pragmatismo, que reduz a política a uma manipulação localizada, ou ao totalitarismo, em que o grande Outro toma corpo, seja na forma de instituições seja na de pessoas.

O ato alcança dimensão política à medida que a política se estrutura como lugar de tensão entre o particular e o universal, o público e o privado, tornando-se, assim, local do jogo em que o sinthome particular pode vir a ganhar a dimensão pública, ou seja, onde a identificação da parte com o todo social pode cumprir a função de transformação histórica. Nesta concepção, diz Zizek (2001), em A leftist plea for ‘Eurocentrism’ (1998), “política e democracia são sinônimos: o objetivo básico da política antidemocrática é sempre, por definição, a despolitização, isto é, a demanda incondicional de que as coisas deveriam retornar ao normal, com cada indivíduo fazendo sua tarefa particular”.

É neste sentido que, dizia Hegel, toda política pode ser encontrada na polícia. À medida que o processo de despolitização, isto é, a “naturalização” de um sistema político, ganha força e tenta, com isso, eliminar os atos de diferença, a tendência é o aumento do policiamento, ou seja, o uso da força do aparato do Estado para garantir que (como dizia o bordão da ditadura brasileira nos anos 70) “cada um cumpra com o seu dever”.

Como mídia produtora de grande parte dos signos presentes no inconsciente, o cinema neste século parece romper, principalmente após os atentados de 11 de setembro, a linha tênue que divide a fantasia da realidade. A convocação de diretores e roteiristas de Hollywood para simular possíveis atentados e ajudar a agência de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA a combater o terrorismo pode significar a proximidade entre cinema e realidade neste momento histórico.

O fato de essa proximidade não ocorrer por meio do documentário (gênero normalmente vinculado aos acontecimentos históricos) mas da ficção aponta para as correlações entre imaginário e realidade, na fórmula lacaniana da fantasia como suporte da realidade. Como relatou Steve Solot (2001, p. 18), vice-presidente para a América Latina da Motion Picture Association (MPA):

Até a Casa Branca solicitou a ajuda de Hollywood para

disseminar mensagens de apoio à guerra contra o terrorismo. A

reunião ocorrida no dia 11 de novembro entre um alto

funcionário da Casa Branca e representantes da comunidade

do entretenimento representa um passo decisivo em direção à

formação de uma força-tarefa das artes e do entretenimento

com a finalidade de, num primeiro momento, disponibilizar

artistas e filmes para as tropas e criar anúncios de serviços

públicos e outros meios de apoio, sem tocar no conteúdo dos

filmes.

Como resultado, roteiros foram abandonados, imagens retiradas (especialmente das torres gêmeas), para evitar conteúdos conflitantes com as expectativas do público norte-americano, assim como para propiciar um fortalecimento ideológico, por meio do enaltecimento do patriotismo, da condenação do terrorismo etc.

De outro lado, a maneira de afastar o unheimlich, a ameaça estranha/familiar, pode, de alguma maneira, retornar ao conteúdo violento, na fórmula gasta – mas eficiente – de que o modo de evitar a proximidade da violência e fazê-la acontecer em outro lugar seja geograficamente ou imaginariamente.

Mesmo como estrutura vazia, no entanto, a violência (e o discurso psicanalítico a seu respeito) não pode se tornar um argumento tautológico que se verifique apenas teoricamente. A Psicanálise, como campo de estudo da falha e do fracasso, precisa indicar como essa estrutura se apresenta como repetição no social. Essa é sua função ética ao apontar o ser humano como falho e opor-se a uma visão narcísica de completude.

Essa ética emula na cultura a história do sacrifício. Se, na Psicanálise, o sacrifício representa a entrada no simbólico por meio da falta, por outro lado, é também a entrada no gozo. Só se pode desejar aquilo que falta, e por isso a possibilidade do gozo se assenta no desejo. É essa a função paterna (castração/sacrifício do objeto incestuoso/falta) que sustenta estruturalmente a possibilidade do desejo no sujeito.

Embora a Psicanálise se refira ao sacrifício do pai primordial (do ser mítico que possuía todo o gozo, o “ao menos Um” lacaniano, que devia ser eliminado para aplacar a falta vivenciada pela comunidade), essa lógica pode também servir à busca de novos objetos sacrificiais. Assim, eticamente falando, o ato violento do sacrifício só ganha sentido se, mais tarde, for simbolizado de forma adequada. Para isso, deve refletir-se política e historicamente.

A possibilidade do ato verdadeiro confronta-se, no campo ético, com aquilo que se defendeu tanto nas décadas de 80 e 90 e que se convencionou chamar de “politicamente correto”. Essa forma de moralismo, tão empregada na política, funciona pela negação: ou seja, o sujeito assume uma posição despolitizada (sem defender nenhum grupo ou ideia) para tornar-se politicamente mais forte – como alguém que, para conquistar apoio, apresenta-se como vítima do poder (como se pode observar, por exemplo, na forma como candidatos políticos se apresentam).

Paradoxalmente, o ato é a assunção política dos riscos que se corre sem a garantia do grande Outro: o que separa o ato político da obediência cega ao “Outro do Outro” (autoritarismo) é a necessidade de fazer uma “tradução” pessoal do dever kantiano (a partir do sinthome) e pagar por essa escolha.

A aparente pouca condenação aos atentados terroristas nos EUA, demonstrada de forma explícita ou implícita em muitos países, pode ter outras causas além de representar apenas uma forma de antiamericanismo: pode significar uma espécie de pseudotransgressão, em que uma ação – mesmo sendo um simulacro transgressivo – pode emular a sensação do desvelamento de uma verdade. Nesse sentido, o atentado terrorista pode ter mostrado que o segredo sujo do sujeito, neste século, não é mais o sexo, e sim a agressividade.

A violência, como foi tratada aqui, referiu-se à fragmentação da agressividade, em suas variadas formas, e aos meios como ela pode dar vazão (para além de uma positividade ideológica) a atividades que demonstrem as múltiplas conexões do sujeito com a realidade. De outra forma, pode-se dizer que a violência acaba positivando aquilo que, no sujeito, culmina numa ação contra o outro, expressando assim o conflito estrutural que funda a identidade.

Filmes são signos à espera de interpretações e leituras, e elas podem ser feitas de muitas maneiras, além de seu conteúdo narrativo. A violência e a transgressão apresentadas nos meios de comunicação (entre eles o cinema) funcionam como reveladores dos elementos estruturais das relações sociais, ainda que os mostrem tentando ocultá-los. O tema histórico do lugar do pai – sua associação à lei simbólica e a questões como a da agressividade, identificação e violência – não pode prescindir da leitura da semiótica psicanalítica. Por meio dessa leitura, pode-se ter uma perspectiva diferente daquelas ligadas, por exemplo, à estética ou à história do cinema.

Por fim, a tentativa de positivar a violência associa-se frequentemente, como foi dito, à naturalização do sistema político, ou seja, à negação de que esse conteúdo resulta da Weltanschauung de nosso tempo. Ainda que óbvia, essa constatação sugere que se deveria, talvez, estar mais atento às indicações sígnicas denunciadas pelos atos violentos (especialmente as ações ainda não politizadas) quanto aos descompassos e falhas estruturais dos sistemas sociais.