Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

Antropólogos versus Freud

Dupuis, a partir das teses de Raoul e Laura Levi Makarius, em L’origine de l’exogamie et du totémisme, defende outra explicação para o tabu do incesto, de que a exogamia teria origem na angústia suscitada nos primitivos pelo escoamento de sangue menstrual ou resultante da defloração ou dos partos. A explicação é que a perda de sangue entre as sociedades caçadoras é o tabu fundamental, na medida em que representa um perigo para a comunidade. É esse perigo que teria suscitado o tabu em relação às mulheres consanguíneas e levado à constituição da exogamia.

No entanto, para Freud, o que interessava era a ideia de que a interdição do incesto propiciava a passagem da natureza à cultura, o que concidia com os estudos de uma parte dos antropólogos e etnólogos da primeira parte do século XX, para os quais o reconhecimento do parentesco teria a relação direta com o desenvolvimento das sociedades. Lacan, mais adiante, irá falar do pai como simbólico, decorrente de uma função social e não biológica.

Em A violência e o sagrado (1972), René Girard (1990, p. 279) afirma que:

Não há sistema de parentesco que não distribua o lícito e o

ilícito na ordem sexual, de modo a separar a função reprodutora

da relação de filiação e da relação fraterna, garantindo, com

isso, àqueles cuja prática sexual é regulado por ele, a

possibilidade de identificar os dados elementares da

reprodução.

De todo modo, o ponto crítico da questão, como Freud insinua e Lacan confirma, é que o homem – que se funda na linguagem – encontra o interdito do incesto como algo desde sempre existente na linguagem, ou seja, não existiria “homem” anterior à entrada no simbólico, na linguagem. Dito de outra forma, é a constituição do sujeito o objeto da Psicanálise, e não a constituição do homem biológico.

Nessa confusão reside a origem e, talvez por isso, o alvo principal das críticas à teoria psicanalítica. É bastante comum que se entenda o complexo de Édipo como “evento” – ou seja, como trauma – quando Freud e Lacan insistem que se trata de algo posto na cultura e na linguagem, da ordem do inconsciente. Nesta linha, por exemplo, Girard pensa o Édipo como mimetismo consciente, enquanto Dupuis entende os mitos como “espelhos” fiéis dos comportamentos em sociedade.

Girard, por outra via, concorda com Freud quanto a este assassinato “desde sempre acontecido”, identificando sua inscrição no mimetismo cultural dos rituais religiosos:

O número extraordinário de comemorações rituais que

consistem em uma morte faz pensar que o acontecimento

original seria normalmente um assassinato. O Freud de Totem e

tabu percebeu claramente esta exigência. A unidade notável

dos sacrifícios sugere que se trataria do mesmo tipo de

assassinato em todas as sociedades. Isto não quer dizer que

este assassinato tenha acontecido de uma vez por todas, ou

que ele esteja restrito a uma espécie de pré-história.

Excepcional na perspectiva de qualquer sociedade particular,

cujo começo ou recomeço ele marca, este acontecimento deve

ser completamente banal em uma perspectiva comparativa

(GIRARD, 1990, p. 121).

Em 1921, Freud avançou com essas ideias em A psicologia de grupo e análise do ego, afirmando que o fenômeno das massas reunidas em submissão a um chefe constituiria o retorno da horda, na forma do pai colérico que asseguraria a supressão das diferenças, amando a todos por igual. Esta ligação ocorreria, por um lado, por meio deste laço com o líder e, por outro, por meio do vínculo com os outros membros, sustentando, com base nestes dois eixos, a consistência do grupo.

O futuro de uma ilusão (1927), por sua vez, reforça a ideia de que do desamparo humano (especialmente evidente no desamparo infantil) resultaria o desejo configurado na imagem de um Deus-pai provedor. Na religião, ao contrário do pai primordial, esse Deus-pai proporcionaria aos filhos a defesa contra as forças superiores da natureza e evocaria as renúncias pulsionais necessárias à constituição da civilização. Neste trabalho, Freud defende a necessidade de substituir gradualmente os efeitos da repressão, proporcionada pela religião, pelo processo de reconhecimento da realidade ensejado pela educação, ideia que será retomada em seu derradeiro estudo sobre o tema, Moisés e o monoteísmo (1939).

É em O mal-estar da civilização (1930) que Freud parece mais cético em relação às ideias iniciadas em Totem e Tabu. Neste estudo, Freud aponta três causas do sofrimento humano: a força superior da natureza, a fragilidade do corpo do homem e os conflitos resultantes das normas que regulam as relações na família, na sociedade e no Estado. No conflito entre liberdade e igualdade, o processo civilizador do homem exige, segundo Freud, um aumento constante do sentimento de culpa como forma de renúncia individual necessária à manutenção do grupo. Essa culpa, para Freud, adviria de duas fontes: o medo da autoridade e o papel do superego como instância posterior que continua internamente o trabalho iniciado pela autoridade exterior. Neste sentido, a figura do pai continuaria exercendo um papel primordial no processo de constituição da sociedade – esta constantemente ameaçada, para Freud, pela pulsão humana de agressão e autodestruição.

Freud só mudará parcialmente seu discurso em seu último trabalho sobre a organização social humana, Moisés e o monoteísmo, em 1939. Neste extenso estudo, além de tratar da história do judaísmo e de suas diferenças com o catolicismo (especialmente em relação à expiação da culpa por meio do sacrifício), Freud apresenta outra versão do pai, o pai do logos.

Para Zizek (2000a), em The Ticklish Subject, Freud efetua a distinção pascaliana entre o deus dos filósofos (Deus como estrutura universal do logos, identificado com a estrutura racional do universo) e o Deus dos teólogos (o deus irracional do amor e do ódio). Para Lajonquière (2000), mais do que este outro pai, Freud indicaria a relação fraterna como algo além da vontade paterna.

Aqui, Freud volta à defesa dos interesses intelectuais como uma alternativa, se não ideal, ao menos possível para a constituição de uma sociedade em que a neurose pudesse ser substituída pela aceitação da impossibilidade de uma satisfação total. Nesse caminho, a igualdade de direitos e a restrição à resolução violenta das diferenças obedeceriam a uma ordem racional, como defende Lajonquière (2000, p. 70):

Temos que a ordem fraterna é fruto da razão, do logos, ou, se

preferirmos, do diálogo entre sujeitos que se reconhecem

irmãos. Ela é, em si, infundada, pois não deriva de alguma

coisa prévia, como o proto-pai. Ou seja, não encontrando

justificação em nada transcendente a si mesmo, trata-se

apenas de uma genuína invenção, ou Erfindung. Por isso, a

fraternidade é tão frágil que a qualquer momento a aliança de

irmãos, amarrada em torno de sua própria invenção, pode dar

lugar ao retorno da horda paterna, como de fato a história e a

vida cotidiana dão testemunhos. Enquanto esta última tem no

real um chefão, a aliança liga-se simbolicamente a um pai

desmaterializado, ou seja, articula-se em torno de uma idéia

diretora impossível de ser encorpada e, portanto, tênue velo de

um lugar sempre vacante.

A discussão das saídas possíveis para o declínio da função paterna (ou Nome-do-Pai) por meio da fraternidade não pode, no entanto, esquecer os dois elementos apontados por Freud:

Por um lado, aquele que reza: quanto mais se encorpa a idéia

diretora, o laço social regride, isto é, diminui sua possibilidade

de desdobramento sublimatório, podendo dar lugar, assim, a

um fascismo político ou social. Por outro, que os chefões,

chefes e idéias carros-chefes não existem per se, mas que não

passam de invenções do próprio socius (LAJONQUIÈRE, 2000, p.

75).

Jacques Lacan, por sua vez, busca estabelecer as conexões possíveis deste pai com a cultura, especialmente em relação à lei, partindo do pressuposto de que a linguagem, com sua estrutura, preexiste à entrada do sujeito. Para Lacan (1998, p. 498), isso significa que este sujeito funciona como servo da linguagem quando se insere em um discurso “[…] em cujo movimento universal seu lugar já está inscrito em seu nascimento, nem que seja sob a forma de seu nome próprio”. Nesse sentido, Lacan está defendendo a condição humana como uma concepção etnográfica ternária entre natureza, sociedade e cultura, sendo que a cultura equivaleria à linguagem e distinguiria a sociedade humana das sociedades naturais.

A assimilação do conceito de castração ocasionou, pode-se dizer, dificuldades à psicanálise, sobretudo na associação ao patriarcado, o que resultou na dificuldade de entender as premissas quanto ao papel do pai simbólico na teoria. De resto, mesmo para a etnologia contemporânea, que faz a crítica a Freud, o pai simbólico antecede o pai biológico, como diz Dupuis (1989, p. 135), “Vêem-se então diversas sociedades em que o homem manda enquanto ‘pai’, muito embora a paternidade genética ainda permaneça bastante confusa. É uma paternidade sociológica cuja ilustração mais clara nos é dada pela valorização do filho”.

Particularmente a ego psychology americana, que, ao contrário de Freud, não abandonou o trauma como evento real, contribuiu e o faz até hoje para propiciar uma série de equívocos, especialmente na busca de elementos “reais” nas relações sociais, papel teórico este que parece mais afeito à sociologia.

Assim, Lacan explica que a função paterna não determina o que o pai é na família mas seu lugar de metáfora no Complexo de Édipo: o significante que o pai substitui é o significante materno. Ao barrar a relação mãe/ falo (criança), essa metáfora (que Lacan chamou Nome-do-Pai) possibilitaria uma saída no Édipo por meio de uma identificação simbólica ao/à menino/menina, evitando a via imaginária. Essa saída, diz Lacan, sustenta a entrada no simbólico, contra a fusão com a Coisa (objeto impossível) materna, caminho para a psicose.