Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

7 A fragmentação da política e a busca da verdade

7 A fragmentação da política e a

busca da verdade

 

O COLAPSO DA eficácia simbólica da função paterna pode ser constatado, entre outras coisas, nas tentativas de “ressurreição” forjadas de autoridades simbólicas, bem como na estudada indiferença à macropolítica econômica, que se resume na fragmentação cada vez maior da política. Estas atitudes, para Zizek, em The Ticklish Subject, resultariam do distanciamento cínico e da proliferação da crença na existência “real” do grande Outro (não como ficção simbólica). Esses dois fatores se ligam no sentido de que o hipotético sujeito ocidental atual é aquele que, enquanto descrê de toda ideologia pública, entrega-se sem restrição às paranoicas fantasias sobre conspirações, ameaças e outras formas excessivas de gozo do Outro.

O mal-estar no mundo globalizado pode ser detectado na busca por saídas compensadoras ou substitutivas dos processos identificadores tradicionais, bem como na busca alucinada por uma originalidade sem lastro. Os sintomas dessa busca podem ser verificados nos mais diversos campos da cultura e podem ter os mais variados reflexos comportamentais.

Uma das coisas que chama a atenção na discussão científica do chamado pós-moderno é a quantidade de teorias que defendem teses exatamente opostas. Longe de denunciar ou promover a discussão sobre os fundamentos científicos, essa tendência desenvolve uma espécie de cientificismo petrificado, que evita discussões acadêmicas de seus estatutos e se concentra com frequência em associar os conceitos de ciência e de verdade.

 

Cinema, paranoia e verdade No campo estético do cinema, essa busca paranoica da verdade parece verificar-se na existência do Movimento Dogma. Concebido, segundo seus fundadores, com base num conjunto de regras (não utilizar cortes, nem música sem representação, nem efeitos gráficos etc.), o Movimento Dogma buscaria evitar os truques comuns ao cinema hollywoodiano, em defesa de um cinema mais “realista”. Aqui é possível discutir a relação dialética entre a não-existência do grande Outro e sua positiva personificação. A ingenuidade (se é que se trata disso) do Movimento Dogma em defender um cinema “realista” contra o cinema “comercial”, ainda que produzindo obras extremamente interessantes, parece denunciar-se em seu próprio alicerce: “realidade” e “comércio” não são opções do cinema.

A ideia de cinema como realidade parece ter sido superada, ao menos para os críticos e acadêmicos, há décadas. Mesmo sem recorrer à Psicanálise (que sempre questionou a concepção da realidade como algo positivo), vários autores da própria teoria do cinema concluíram que a aproximação entre cinema e realidade (que teve em André Bazin um dos seus maiores defensores) desenvolveu-se a partir de certas palavras que encerravam conceitos (como a “objetividade” e a “neutralidade” da câmera) e que eram usadas geralmente para defender o cinema ideologicamente engajado, encobrindo o fato de que o aparato cinematográfico nada mais era que um conjunto de regras e procedimentos sujeitos à própria época e muito distantes de qualquer neutralidade.

Por outro lado, a ideia de um cinema “puro” contra um “comercial”, sem entrar nos méritos de uma discussão estética, funciona, se não para os produtores, ao menos para grande parte do público, como um meio de ofuscar o fato de que tudo o que se produz num sistema capitalista é produto de troca no mercado.

A própria ideia marxista de que o limite do capital seria a exploração total dos “recursos naturais” (alimentos, terras, ideias etc.) parece estar longe de chegar ao fim – ao menos no terreno da arte, em que as mais bizarras formas de protestos contra o status quo acabam em pouco tempo se transformando em objetos fetichistas, sendo postas à venda, etiquetadas e valorizadas como “raridades”. Ou seja, não é o Movimento Dogma que diz o que será ou não comercial, e sim o sistema econômico. Essa é uma das consequências mais pobres do atual pensamento econômico despolitizado: a tentativa de isolar-se esteticamente em busca da originalidade acaba encontrando o glamour no passado e constrói móveis novos com madeira velha.