Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
O bad boy
Trata-se, enfim, do que Freud chamou de Síndrome da Falsa Memória, estado em que o pai retorna no Real e propicia ao sujeito uma defesa contra a angústia, com base no ressentimento contra um suposto pai molestador. A princípio, Freud via a origem da neurose num abuso sexual real. Posteriormente ele substituiu este abuso real pela fantasia, pois as pacientes guardavam lembranças de tais eventos mesmo quando estes nunca haviam ocorrido. Como o real da fantasia não equivale ao da realidade, o analista, dizia Freud, deve levar em consideração a superposição da realidade traumática da violência, bem como a existência da fantasia. A Teoria da Sedução, no entanto, nunca foi esquecida, reaparecendo fortemente nos anos 90 como uma reação ao freudismo.
É no sentido lacaniano, da proximidade do objeto como causa da angústia, que se pode entender melhor esta figura paterna. Nesse sentido, o pai molestador como versão do Outro “real”, emerge quando o sujeito está na posição de objeto de uso do Outro. Em Lacan, o desejo (causado pelo objeto a) sustenta a angústia estruturante da pergunta: “O que o Outro realmente quer de mim?”. Assim, o que a relação antagônica com o pai molestador evitaria é exatamente a angústia deste sujeito por desejar ser o objeto do desejo paterno.
O bad boy
Esse raciocínio possibilita pensar uma outra figura, encravada entre os discursos machistas e feministas: o chamado bad boy. Conforme a figura do homem, tradicionalmente associado ao patriarcado, perde força (exceto como figura derrisória), a imagem do bad boy parece se fortalecer, sobretudo no campo da mídia. Por que esta imagem de homem sedutor e sexualmente agressivo, mas socialmente desajustado? Uma das respostas parece ser que o bad boy é o homem com potência mas sem poder, ou seja, um objeto que funciona na cama, mas não tem poder no social.
Em Magnólia, o personagem de Tom Cruise – Frank – ministra cursos de formação em bad boy para homens solitários, simulando flertes e oferecendo fórmulas misóginas para o comportamento que o homem deve adotar ao seduzir a mulher. A fantasia protetora de Frank só fica abalada quando uma repórter descobre sua verdadeira história de filho abandonado e, mais adiante, em seu encontro final com o pai moribundo, o magnata da televisão Earl Partridge.
Assim, para considerar o bad boy como um desvio derrisório de uma virilidade que no excesso esconde a falta, é necessário levar em consideração a virilidade imaginária do pai, como diz Massota (1987, p. 112):
O pai é a sua função, o que não depende, por exemplo, da
representação ou da imagem clássica do pai como personagem
viril. Se temos insistido tanto sobre a instabilidade do objeto da
pulsão, é, casualmente, para mostrar que não há virilidade
possível no ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada,
somente poderia haver, por isso mesmo, exibição de virilidade,
desfile, pavoneamento: nada mais feminino, de fato, que um
homem que se exibe verdadeiramente viril. […] imagina-se: não
é seguro que um pai viril possa preencher os requisitos da
função de pai.
Pode-se constatar esse excesso de virilidade atentando-se ao consumo cada vez mais amplo de medicamentos como o Viagra (Citrato de sildenafil). Esse fenômeno talvez se explique por uma espécie de frigidez masculina, uma variação estereotipada do dilema feminino (o intercurso sexual sem prazer), situação em que o pênis – definitivamente – se desligaria do desejo (lei). Sob uma outra perspectiva, isso pode ser encarado como uma “saída” do homem para escapar às demandas da nova mulher, liberta dos padrões patriarcais e exigente com o prazer (situação encenada no filme Inteligência Artificial e (Steven Spielberg, 2001) em que um robô amante que nunca falha serve como paródia deste homem-máquina sexual). No entanto, o que parece mais certo é que o Viagra sirva para domesticar o dilema da ereção e livrar o homem dos receios de não a conseguir – já que a ereção depende de seu desejo – e sobre isso ele não tem controle.