Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
PARTE I: A construção do social – Antropologia e Psicanálise
Parte I - A construção do social –
antropologia e psicanálise
1 A agressividade e o Nome-do-Pai
DADO COMO CERTO e sabido, o pai, assim como outras coisas, foi construído culturalmente. O ditado pater incertus est aponta a reserva sempre incerta de sua existência e a necessidade de sustentar seu nome por meio das leis sociais. Na Psicanálise, sua função revive em cada caso clínico esta história que se repete acrescida das questões de cada época.
Freud considerou esta invenção do pai um evento fundamental da constituição das sociedades, tomando esse pai para além das questões sociológicas e históricas, fixando sua atenção sempre no excesso desse lugar como sintoma de seu declínio e de sua inconsistência. Nesta empreitada, Freud não só construiu uma possibilidade mítica que amealhou muitos seguidores, como também inúmeros confrontos que permanecem até hoje.
A crítica à teoria freudiana em Totem e Tabu (1905), em sua época e sobretudo nos estudos etnológicos mais recentes, fundamenta-se no fato de que, como diz Jacques Dupuis (1989, p. 228), em Em Nome-do-Pai: uma história da paternidade, “sabemos que a migração interclânica dos rapazes teve início em sociedades matrilineares, que precedem indubitavelmente as sociedades patrilineares”. Nessa concepção, a família patrilinear resultou da convergência de três fatos básicos: a exogamia (que rompe com a endogamia e abre a diferença dos grupos sanguíneos primitivos), o parentesco descritivo (o parentesco aplicado que permitiu sair do coletivismo protofamiliar) e a descoberta da paternidade (que, longe de ser um dado imediato da consciência, é uma das aquisições da proto-história), além do desencadeamento das guerras, cujo papel foi decisivo.