Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
Masoquismo no ciberespaço
é assim o desmentido da fantasmática “fixação apaixonada”, a
cena traumática que não apenas nunca tem lugar na “vida real”,
mas nunca será conscientemente fantasiada.
Masoquismo no ciberespaço
O ciberespaço, trabalhando a partir de semblantes puros, continua Zizek, pode ser “capaz de externalizar nossas fantasias internas em toda a sua inconsistência, possibilitando-nos “atuar” (acting-out) o fantasmático suporte da nossa existência” (Idem). Do ponto de vista da perversão, o ciberespaço pode oferecer a possibilidade de negar a castração, na medida em que “a sexualidade adulta é reduzida a um jogo infantil, no qual o sujeito não precisa escolher entre os dois sexos” (ZIZEK, 2000c, p. 36). Mesmo a morte pode ser reduzida à virtualidade, como ocorre nos jogos, que a substituem por uma “idiotizante superegóica compulsão à repetição” (Idem); neles, o personagem vive apenas para morrer e tornar a viver como um vampiro.
O que a castração simbólica faz não é impedir que o sujeito tenha prazer, mas efetivamente permiti-lo; assim, o prazer necessita de um suporte fantasmático (no ciberespaço chamado virtual) da fantasia fundamental masoquista: de que a possibilidade dá mais prazer do que o ato efetivo. O ciberespaço funciona como um exemplo acabado dessa fantasia; nele as pessoas obtêm prazer da mera possibilidade de passar por experiências eróticas que emulam a relação sadomasoquista – na qual, ainda que o ato sexual se realize, há sempre um controle da situação que impede que o ato chegue ao fim.
O ciberespaço, contudo, não inaugurou essa possibilidade. Ela já existia no “amor platônico”, situação em que a distância entre os amantes transubstancia o objeto amado em objeto a, e, por isso mesmo, em causa de desejo e de angústia. Aqui se deve lembrar que, para Freud, a angústia era resultado da ausência do objeto (mãe, medo de perder o pênis), enquanto para Lacan é exatamente a proximidade do objeto: pode-se pensar, todavia, que não há diferença entre as duas posições, uma vez que, se a ausência aponta a falta, o objeto que causa o desejo relembra a falta.
Pode-se assim pensar que, se a angústia cria objetos (e os faz desaparecer), o ciberespaço oferece ampla possibilidade ao sujeito de jogar com a falta, como no fort-da freudiano. Para Lacan (1998, p. 51),
O homem literalmente dedica seu tempo a desdobrar a
alternativa estrutural em que a presença e a ausência retiram
uma da outra sua convocação. É no momento de sua
conjunção essencial, por assim dizer, no ponto zero do desejo,
que o objeto humano sucumbe à captura que, anulando sua
propriedade natural, passa desde então a sujeitá-lo às
condições do símbolo.
Assim, é possível que o sujeito no ciberespaço rememore sua entrada na ordem simbólica, uma vez que é determinado pela linguagem e, agora, de uma forma mais evidente do que nunca. É por essa razão que discutir as diferenças entre sexo “real” e “virtual” só tem sentido dentro de um pragmatismo que prescinde da teoria; de uma perspectiva teórica psicanalítica não há diferença, já que o sexo (“Não há relação sexual”) sempre foi virtual.
O fato de a realidade virtual oferecer ao sujeito a possibilidade do “sexo virtual” – o que parece preocupar um grande número de pessoas em todo o mundo – talvez devesse indicar outros problemas: por que o ato de tomar a iniciativa sexual tornou-se tão “politicamente incorreto”, a ponto de ser tratado como uma patologia que só pode ser manifestada em segredo e, mesmo assim, sob pena de denúncia?