Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

A metáfora paterna

De forma mais descritiva, a Psicanálise afirma que, na relação fusional inicial da mãe com o filho, nenhuma instância exterior faz mediação ao desejo, e a criança se apresenta como objeto único de satisfação materna, enquanto o pai real se configura como elemento “estranho”. Como objeto fálico – objeto imaginário que esconde a falta na castração –, a criança sofrerá uma intrusão do pai real à medida que este aparecer, também, como objeto de desejo da mãe. A partir daí a criança passa a uma incerteza psíquica quanto a sua identificação imaginária como objeto único de desejo da mãe. Quando a criança percebe o pai como também portador do falo, atualiza-se sua rivalidade fálica em relação ao pai de três formas: como agente de privação (ao destituir a criança da posição de objeto único); interdição (como alguém que também tem direito à mãe); e frustração (ao confrontar a criança com a falta imaginária).

Nesse sentido, o pai vai se apresentar como outro, como falo rival, propiciando a atribuição fálica paterna: é o encontro com a lei simbólica, a lei do pai, ou seja, o encontro do desejo da criança com o desejo do Outro. É nesse momento, quando ocorre o deslizamento do significante fálico, que pode advir, para além do pai imaginário, o pai simbólico, isto é, aquele que será reconhecido como “possuidor do falo”.

Da perspectiva da linguagem, a metáfora paterna opera como substituição de significantes. Posto o pai como objeto de desejo da mãe, a criança designará o pai como “causa” da ausência da mãe: opera-se a associação do falo ao Nome-do-Pai, que propicia ao significante falo passar ao inconsciente, em que “ao final da substituição metafórica, o pai é doravante referido ao falo pela criança, enquanto objeto de desejo da mãe”, explica Joël Dor (1991, p. 53) em O pai e sua função em Psicanálise. Assim, a função do pai no complexo de Édipo é ser um significante que substitui o significante materno, primeiro significante introduzido na simbolização.

Por fim, cumpre dizer, ainda, que não basta que o significante do Nome-do-Pai esteja presente no discurso da mãe para que seu efeito mediador se faça valer. Esse lugar, esse terceiro, deve ser marcado, sem ambiguidades, em sua diferença sexual em relação à mãe. O ponto crucial aqui é que o significante fálico, aquele que se associou ao Nome-do-Pai, tem como função simbolizar a diferença sexual nos dois sexos, o que equivale a dizer que, da perspectiva da Psicanálise, não há outra referência à castração senão aquela que opera para os homens, o um – o pai simbólico não castrado e detentor do falo, herdeiro do pai mítico da horda primitiva.

Em termos de socialização, a castração simbólica implica certo “sacrifício”, na medida em que se estrutura como uma escolha forçada – a escolha do contrato social em vez do objeto incestuoso. Não se trata, no entanto, da troca por algo que retorna (como o progresso cultural ou uma outra mulher), mas apenas da possibilidade de o sujeito, ao subordinar-se à autoridade do Nome-do-Pai, dar direção a seu desejo. Assim, a entrada do sujeito na ordem simbólica implica que este será para sempre o que Lacan chama de sujeito barrado, ou seja, reduzido ao gesto da escolha forçada. Em oposição, a escolha do objeto incestuoso (escolha que aqui significa a não-castração simbólica) leva o sujeito ao “pior”, ao lugar fora da identificação simbólica, ao lugar da psicose.

Não é do interesse deste trabalho realizar qualquer defesa da “tradição” ou da “estabilidade” de valores incluídos no patriarcado, que já em Freud, como é possível ver, era apontado como retorno do recalcado. Cristhoper Lasch, em O mínimo eu, aponta como dificuldades de assimilação da teoria psicanalítica os movimentos modernos (como o feminismo) e a confusão entre função paterna, superego e patriarcado:

A tradição psicanalítica tem sido acusada de sustentar um

modelo inflexivelmente patriarcal de desenvolvimento

psicológico, segundo o qual uma resolução adequada do

Complexo de Édipo depende da separação total da mãe, do

medo da castração e da submissão à realidade patriarcal de

repressão sexual e trabalho alienado, interiorizado sob a forma

de um superego punitivo. Todavia, nos últimos escritos de

Freud, é o ego, e não o superego, que atua com “representante

do mundo exterior, da realidade”, enquanto o superego – “o

herdeiro do Complexo de Édipo”, como o chamou Freud em O

ego e o id – permanece, em contraste com ele, como

representante do mundo interno, do id (LASCH, 1986, p. 160).

Assim, se é correto dizer que “o superego consiste de introjeções paternas”, a clínica psicanalítica mostra que estas imagens interiorizadas guardam pouca semelhança com a figura real dos pais. Continua Lasch (1986, p. 161):

[…] por esta razão o superego não pode ser entendido como

representante da moral estabelecida. […] Ao contrário, o

superego consiste dos próprios impulsos agressivos da pessoa,

inicialmente dirigidos contra seus pais ou substitutos dos pais,

projetados neles, reinteriorizados como imagens agressivas e

tirânicas de autoridade, e finalmente redirigidos, nessa forma,

contra o ego. As imagens da autoridade paterna destrutiva e

punitiva originam-se não nas proibições reais dos pais, mas no

ódio inconsciente da infância, que desperta angústia

insuportável e, desse modo, tem que ser dirigido contra o eu.

De acordo com Freud, quanto mais o indivíduo “contém sua

agressividade” contra os outros, mais a inclinação (do

superego) à agressividade contra o ego expõe o ego a um

implacável fluxo de condenação.

Ao que parece, especialmente frente às publicações mais recentes que atacam a teoria psicanalítica como uma espécie de doença da qual o mundo deve livrar-se, os interessados na teoria devem lembrar o alerta de Freud acerca das resistências que sempre andariam juntas com a Psicanálise. Como a fala atribuída de Freud para Jung, ao chegar aos Estados Unidos em sua primeira visita e ser recebido por aplausos da multidão: “Eles não sabem que lhes trago a peste”. A peste/inconsciente que espreita-nos e luta, com todas as forças, para resistir ao desmantelamento das certezas dos homens.