Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

15 A violência traumática como anteparo do Real

15 A violência traumática como

anteparo do Real

 

UMA IMAGEM PATERNA que aparece com constância no cinema desta passagem/início de século é a do “molestador sexual”. Imagem cara atualmente, a figura do abuso sexual mobiliza grupos de defesa de vítimas; discussões acadêmicas sobre caracterização do abuso e os produtos resultantes deste processo, que vão das relações de parentesco às normas de conduta no trabalho e às legislações. Da perspectiva da Psicanálise cabe ainda uma outra discussão que foi fundamental à teoria freudiana, a inexistência do trauma “real”.

Neste sentido, a proliferação de imagens de abuso sexual (especialmente do pai em relação aos filhos) parece epitomar o que Slavoj Zizek (2000a) chama de versão do “Outro Real”, relacionado à “Síndrome da falsa memória”. Essa síndrome, ligada diretamente à questão do trauma, suscita a questão de como a figura deste pai abusador pode interferir no processo identitário, especialmente na busca de autonomia do sujeito.

 

O pai molestador

Um exemplo está no filme Magnólia; outros exemplos podem ser vistos em Felicidade (1998), dirigido por Todd Solondz, e em Festa de família (1998), dirigido por Thomas Vinterberg. O filme gira em torno dos dramas pessoais de uma série de personagens: um moribundo dono de uma rede de televisão, Earl Partridge (Jason Robards); sua jovem e arrivista esposa, Linda (Julianne Moore); o filho abandonado de Earl, famoso por dar cursos machistas de sexualidade, Frank T. J. Mackey (Tom Cruise); um enfermeiro (Philip Seymor Hoffman); um jovem gênio, usado pelo pai como instrumento de ascensão social, Stanley Specter (Jeremy Blackman); um ex-gênio, Donnie Smith (William H. Macy); um apresentador de programas de auditório, Jimmy Gator (Philip Baker Hall); a filha deste, Claudia (Melora Walters); e, finalmente, um policial católico, Jim (John C. Reilly). Ao todo são nove histórias que se unem por meio de um game show – o “What Do Kids Know”? (“O que sabem as crianças?”), um programa de perguntas em que crianças competem com adultos. A sequência lógica da narrativa é rompida, em certo momento do filme, por uma construção onírica (uma chuva de sapos), que anuncia uma solução poética para os conflitos que envolvem os personagens.

O personagem Jimmy Gator, uma figura pública por causa da televisão, é acusado no final da trama de molestar sexualmente a própria filha; em que não é revelado se o abuso realmente aconteceu ou foi um caso de “falsa memória”. A filha, Claudia Gator, é uma toxicômana que não consegue manter relações estáveis e que se comporta socialmente como um “boneco autômato”. Os dilemas da personagem encenam perfeitamente na Teoria da Sedução, tão cara à Ego psychology americana: a positivação do trauma (incesto) “explica” toda a angústia da personagem, e esta, a partir da descoberta, estaria livre para encontrar seu “verdadeiro eu”.

A questão do trauma envolve, no entanto, um princípio fundamental da Psicanálise: o de que a cena de violência funciona como uma proteção contra o Real. Em sua análise de A vida é bela (1997), dirigido por Roberto Benigni, Zizek (2000c) opõe-se à leitura tradicional do filme e vê o pai interpretado por Benigni não como um efetivo protetor, mas, pelo contrário, como um exemplo perfeito do pai molestador. Em seu entender, o personagem de Benigni funciona como um “pai-maternal”, o pai imaginário que protege a criança contra a realidade: é esse pai, diz Zizek, que, ao gerar uma experiência psicótica que apaga os traços de um gozo excessivo, desperta a defesa contra o pai abusador. Ou seja, é precisamente esse pai superprotetor que, ao evitar o encontro da criança com a realidade – função esta do pai simbólico –, sustenta a possibilidade do gozo total.