Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
6 Superexposição da violência e despolitização nos meios de comunicação
6 Superexposição da violência e
despolitização nos meios de
comunicação
AS TEORIAS DA comunicação, que historicamente buscaram suporte nas várias vertentes das ciências sociais, pensam, em grande parte, na linguagem como instrumento de uso da comunicação, inserida entre emissor e receptor. De modo diferente, pensar a comunicação tendo como suporte as ciências da linguagem e a teoria psicanalítica implica uma inversão fundamental nessa estrutura, a saber, que emissor e receptor, longe de positivarem-se como elementos distintos, são antes constituídos pela linguagem, o que implica que a comunicação também se faz efeito de sua cadeia significante.
Nesse sentido, a semiótica psicanalítica se apresenta como alternativa às duas grandes vertentes comumente reunidas sob o nome de Escola Americana (a linguagem representando os valores da sociedade que a preserva e controla) e a Escola Europeia (o poder inelutável da mensagem, que aliena o sujeito eternamente manipulado). Assim, ao interrogar a própria constituição do sujeito, desloca-se a função da linguagem para situá-la como campo produtor matricial dos elementos constitutivos do processo de comunicação.
Em função de sua resistência à especialização e à fragmentação do discurso e das práticas científicas, a semiótica psicanalítica serve como campo de conexão entre disciplinas, decorrendo daí sua inter, multi e transdisciplinaridade (SANTAELLA, 1996). A incompletude do signo, como falta que se repete, aproxima a comunicação e a Psicanálise, oferecendo a possibilidade de novas leituras a partir dos produtos das mídias.
A afirmação lacaniana de que “a comunicação não existe” gerou alguns desentendimentos entre os dois campos, mas pode-se compreendê-la a partir do sentido de que o desejo é “o desejo do Outro”. Assim, diz Oscar Massota (1987, p. 78), em O comprovante da falta,
Não é que não haja comunicação no geral; é que na
comunicação o vetor se origina no emissor, enquanto na
psicanálise quem emite a mensagem é o receptor (o grande
Outro lacaniano), de modo que as mensagens emitidas são
mensagens que se emitem em nós a partir de uma estrutura em
que está em jogo o inconsciente, o desejo, o gozo etc.
Cabe à semiótica psicanalítica a tarefa de sincronizar as teorias da comunicação e da Psicanálise, abrindo outra perspectiva na interpretação sígnica. É esse lugar que interessa à semiótica psicanalítica e do qual Lacan ([1966] 1998, p. 261), em Escritos, enumera os signos capazes de tornar presente o ausente e produzir o interpretativo:
– nos monumentos: e esse é meu corpo, isto é, o núcleo
histérico da neurose em que o sintoma histérico mostra a
estrutura de uma linguagem e se decifra como uma inscrição
que, uma vez recolhida, pode ser destruída sem perda grave;
– nos documentos de arquivo, igualmente: e esses são as
lembranças de minha infância, tão impenetráveis quanto eles,
quando não lhes conheço a procedência;
– na evolução semântica: e isso corresponde ao estoque e às
acepções do vocabulário que me é particular, bem como ao
estilo de minha vida e a meu caráter;
– nas tradições também, ou seja, nas lendas que sob forma
heroicizada veiculam minha história;
– nos vestígios, enfim, que conservam inevitavelmente as
distorções exigidas pela reinserção do capítulo adulterado nos