Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

Conclusão

 

O DECLÍNIO DA eficácia simbólica da função paterna não envolve a decadência da autoridade paterna; para a Psicanálise, este declínio sempre existiu, e os excessos do patriarcalismo constituem a prova mais derrisória da insuficiência desta função. Como consequência, o fim do patriarcalismo, ou o advento de formas mais amenas de autoridade paterna, não implicaria o fim do Nome-do-Pai, já que este, se não simbolizado, escaparia para o Real, o que significa a possibilidade de sua intrusão via imaginário. Em outras palavras, trata-se, como procurou demonstrar, de sua aparição na forma de Unheimlich – como um deus do mal, ou alienígenas que escravizam a raça humana, ou qualquer outra entidade real ou imaginária que simbolize o inexistente “Outro do Outro”.

O impasse contemporâneo de um modelo de suporte à lei simbólica suscita, entre outras coisas, o problema da transgressão e da violência. Transgressão e violência, neste trabalho, não foram consideradas em sua forma mais comum (como uma violação às leis sociais por meio da externalização da agressividade do sujeito), mas em seu sentido politicamente mais transformador: como movimento capaz de criar uma situação nova e insustentável, ao menos temporariamente, para um sistema social.

A violência como “estrutura vazia”, como foi dito, não significa o vale-tudo ou o relativismo pós-moderno. Antes, organiza-se em termos teóricos, como a lei e o inconsciente psicanalíticos; em outras palavras, ela não existe como um conjunto de regras positivas, mas como uma injunção que permanece oculta pelas normas simbólicas – o que pressupõe que o sujeito nunca sabe se seus atos estão em acordo com a “lei” ou se foram motivados patologicamente. Esta concepção lança alguma luz sobre a experiência falha do Iluminismo, especialmente sobre a crença de que o conhecimento necessariamente geraria o domínio da razão e afastaria a violência.

É por isso que líderes como Osama Bin Laden não proporcionam uma saída politicamente satisfatória: eles se assumem detentores de uma verdade histórica (como instrumentos do grande Outro) e renunciam assim à responsabilidade por seus atos. Neste sentido, seu discurso serve apenas como um contraponto irônico àquele discurso usual dos presidentes americanos sobre o “papel histórico inevitável” dos EUA no mundo. Discurso esse que é uma espécie de herança da dessacralização, da crença de estar sempre no umbigo do mundo, de ser a referência entre o céu e a terra, entre os humanos e os deuses.

O cinema, como proliferador imagético dos produtos culturais de nossa época, enseja muitas reflexões a esse respeito, talvez por ter sido um elemento privilegiado na transição de poder da palavra escrita (literatura) para a imagem. Ele ilustra uma boa parte dos conflitos abertos e velados de nossa época e expõe as configurações imaginárias que sustentam as ansiedades sociais.

A postura ambígua em relação aos atentados terroristas nos EUA, demonstrado de forma explícita ou implícita por parte da mídia, como foi dito, pode representar algo mais que uma forma de antiamericanismo. Como pseudotransgressão, que pode emular a sensação de desvelamento de uma verdade, este acontecimento parece emblemático da ideia de que a agressividade – nestes tempos “politicamente corretos” – tomou o lugar do sexo como “segredo sujo” neste início de século.

A dinâmica do capitalismo global é o palco em que as lutas deste século devem ocorrer. O futuro das políticas de diversidade (feminismo, antirracismo etc.) deveriam ser mediadas pela discussão das políticas econômicas sob pena de estar em andamento um dispositivo ideológico que obriga a olhar o tempo todo as diferenças (raças, gêneros, religiões) enquanto esquecemos das desigualdades (econômicas).

Os resultados visíveis desta prática são as formas de Biopolítica, uma defesa intransigente da vida biológica, mas que nega qualquer transcendência à vida, especialmente às ações políticas que impliquem “tirar as coisas do lugar”. Outra forma seria o que vem se chamando de Neuro-política, uma forma de mundo que parece estar sendo elaborada a partir das construções sociais fundadas no discurso da ciência e as possíveis implicações sobre a constituição dos sujeitos no futuro. Os receios mais comuns, como as implicações da seleção genética em humanos, ameaça de perda da privacidade, a morte da autonomia, a homogeneização da sociedade, enfim, confrontam o conceito de natureza humana e, neste sentido, renovam antigas discussões sobre os estatutos que constituem aquilo que chamam humano.

Como lembramos com Hegel, é preciso cada vez mais e mais rápido perceber onde aparece a política na polícia. As projeções de mundos socialmente controlados delegam às futuras gerações a angústia da inevitável diferença entre sonho e realidade. Como escrituras do desejo inconsciente, as produções fantasmáticas se equiparam ao sonho. Elas estão encenadas no cinema, onde podemos sonhar com a realidade e acordar com a produção de um sintoma. Sintoma este que deve ser tomado como responsabilidade pessoal e não delegado a alguém, resistência ética que a Psicanálise nos alerta nestes tempos.