Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea
O impasse do “pai simbólico” em Beleza Americana
“A evolução capitalista”, diziam eles (os frankfurtianos), “criou
uma democracia econômica de massas, sem lugar para o poder
do pai. Crianças e adultos, até então psicologicamente
dependentes da instituição familiar patriarcal, foram postos sob
a tutela das burocracias anônimas de cuidados médicos,
psicológicos, sociais, educativos ou da propaganda maciça de
bens de consumo com obsolescência programada. A sociedade
industrial e capitalista dispensou a mediação do pai e passou a
gerenciar, de forma direta, o sujeito e seus desejos, de modo a
adequá-los às suas finalidades econômicas e políticas. A ordem
piramidal, com o pai no topo, deu lugar à proliferação de
instâncias de controle e incentivo à produção de novas
subjetividades”.
Embora a ideia de que a sociedade industrial criaria massas de autômatos sociopatas não tenha se configurado, não se pode descartar estes estudos, como o neoliberalismo hegemônico fez com as teses marxistas. Especialmente em relação ao papel desempenhado na determinação das subjetividades patrocinadas pelo consumo, é lícito pensar que os ecos dessas ideias podem fazer sentido para explicar, se não o todo social, pelo menos parte significativa dos sintomas contemporâneos.
Mais do que a constatação do declínio da função paterna, o que parece mais interessante nessa discussão é como ele está sendo mostrado, ou seja, como o cinema, enquanto produto da cultura, reflete sobre o assunto e faz propostas. É desse modo que se espera discutir o tema com dois filmes bastante vistos nesta passagem de século: Beleza americana (1999), dirigido por Sam Mendes, e Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles.
O impasse do “pai simbólico” em Beleza
Americana
Lester Burnham (Kevin Spacey) é um pai de família com ótimo emprego, uma esposa fiel e uma filha normal. Pelo menos era nisso que ele acreditava. Quando este sentimento começa a se desmoronar, ele resolve se libertar desse papel, abandonando o emprego, mudando seus hábitos e adquirindo novos vícios. A mudança de Lester provoca insegurança total em sua arrivista esposa Carolyn (Annette Bening) e em Jane (Thora Birch), sua filha rebelde. Mais que isso, o comportamento de Lester vai progressivamente ameaçando os vizinhos e aqueles que o cercam, até seu desfecho trágico.
Logo de início, chama atenção o fato de Lester falar do lugar do pai morto. Como narrador, em off, ele avisa logo sobre o final do filme: “Eu já tenho 42 anos e, em menos de um ano, vou estar morto. Claro que não sei disso ainda, mas, de certa forma, já me sinto meio morto”.
Aqui, o personagem exibe, sem preâmbulos, toda a ambiguidade da figura do pai simbólico, ou seja, de que, morto ou não, ele já está no lugar do morto. Lester “deixa”, então, o filme seguir, como quem se afasta da onipotência narrativa, para que os espectadores possam entender do que ele fala. Se o pai simbólico, que significa a lei, é, para a Psicanálise, o pai morto, o personagem parece representar, enquanto narrador de sua própria vida, aquele que fala sobre algo que vai além de sua existência, sobre o lugar do pai na cultura.
Lester funciona como um retrato da diferença apontada por Freud e Lacan entre o pai “concreto” e o pai simbólico, ou seja, entre aquilo que o pai representa ou deveria representar (a lei, a moral, o provedor, o macho satisfatório, o empregado perfeito etc.) e aquilo que ele é de fato, um homem com desejos e faltas.
Acuado diante de um papel que não consegue desempenhar a contento, nem para si nem para os outros, Lester é constantemente acusado disso, especialmente pela filha, que quer vê-lo morto, e pela mulher que o considera um fracassado. O filme narra especialmente a reviravolta na vida desse pai simbólico que tem que sustentar o discurso mesmo quando sabe que não é nada do que aparenta e, menos ainda, do que deveria ser.
Mesmo da perspectiva da sociedade americana, seria arbitrário identificar Lester com um eventual modelo de “pai ocidental contemporâneo”? Pelo fato de que há algumas características que parecem importantes no momento presente: Lester não é o pai provedor, mas, como exige a economia atual, o coprovedor da família; mais ainda, sua esposa não é a esposa dedicada e fiel que tinha que sustentar os valores da família em oposição ao marido – “homem do mundo”, resumindo o modelo ocidental mais difundido de décadas atrás. Pelo contrário, sua esposa é um estereótipo superficial da mulher do pós-feminismo, que aspira ocupar um lugar no mundo do consumo, do qual não exclui o sexo, entre outros produtos. Lester, por sua vez, apresenta-se como alguém que, como avestruz com a cabeça no buraco, recusa-se a enxergar as mudanças no mundo, protegido pela fantasia de um lugar de destaque na família, que não passa de evocação de um tempo passado.
O filme pode ser dividido em dois tempos. O primeiro é quando Lester está ainda protegido por sua fantasia, sendo apresentado como um tolo enganado na família e no trabalho. O segundo, quando ele vislumbra um Real, passando a viver uma espécie de “psicose controlada”.
É interessante ressaltar a mudança estrutural dos personagens que o cercam antes e depois da guinada: no primeiro momento, as pessoas (esposa, filha etc.) realizam o que se poderia chamar algum tempo atrás de atos de transgressão – a esposa o trai, a filha usa drogas etc. Aqui, Lester resume o papel do pai simbólico, já que elas podem transgredir as normas precisamente porque ele realiza com êxito seu papel: servir como suporte da lei simbólica para que os outros possam superá-lo.
No segundo momento, ocorre o oposto: Lester começa a agir como o pai do gozo, o pai obsceno que impõe a obrigação de gozar e, portanto, deixa de fazer o suporte à lei na família. Há, então, uma inversão dos papéis: sua esposa e filha começam a invocar a tradição, os bons costumes, enfim, a volta de Lester a “seu papel”.