Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

A entrada no simbólico da mulher

exercício do cuidado e da delicadeza com o outro, dado a

precariedade de todos.

Assim, Tudo sobre minha mãe, ao representar a possibilidade de uma fratria feminina, aponta para uma das questões delicadas no conceito de fratria: a questão da diferença – que, para a Psicanálise, é, em última instância, sempre sexual: “Trata-se do laço predominantemente homossexual (não necessariamente homoerótico) que mantém a fratria” (KEHL, 2000, p. 240). No entanto, pode-se questionar até que ponto esta feminilidade não implicaria de alguma forma a foraclusão do estranho (Unheimlich); em caso de implicá-la, de que maneira esse estranho retornaria na fratria?

 

A entrada no simbólico da mulher

Nessa lógica, é preciso reconhecer, entre outras coisas, que esse discurso da feminilidade de que fala Birman provoca reações dos homens, vistas no cinema e fora dele, marcadas por certo ressentimento cômico. Em Clube da luta, isso aparece de forma óbvia na comunhão estabelecida entre homens; o mesmo se verifica em Magnólia, no qual frequentadores dos cursos ministrados pelo personagem de Tom Cruise buscam resgatar a confiança do “macho”.

Nestes últimos exemplos, a mulher aparece como objeto “estranho” ao simbólico. Nota-se isso, por exemplo, na personagem Marla, de Clube da luta. Jack a vê como intrusa e só consegue lidar com ela na figura de Tyler – o que se deve à carga de castração que ela evoca não apenas no protagonista, mas em todo o grupo, por quem é tratada como inimiga. É aqui que entra em cena o papel apaziguador do pai; segundo Lacan, o que regula a relação entre os dois sexos é a mediação da metáfora paterna, o que, no limite, garante a diferença sexual. Assim, sempre que o sujeito pergunta “O que quer o Outro?”, a resposta o confronta necessariamente com sua identidade, especialmente a sexual. Nesta lógica, a função paterna é o que possibilita, pela castração, a renúncia à posição fálica (imaginária), propiciando a escolha sexual por meio da identificação simbólica, da “escolha forçada”.

Com isso, pode-se pensar até que ponto a feminilidade não contribuiria para evitar um dos problemas encontrados com frequência na fratria masculina, a formação do discurso totalitário. Como aponta Maria Rita Kehl (2000, p. 243):

A inclusão deste outro tão diferente (a mulher), mas com quem

se pode compartilhar de referências simbólicas, contribui para

impedir que as formações fraternas se tornem agrupamentos

identitários com sua marca inevitável de intolerância e

fanatismo, expressões conhecidas do horror à alteridade, isto é,

à castração.

O problema, contudo, mantém-se: quem ou o que representaria o avatar da função paterna, e de que outra forma se promoveria esta alteridade? Quem garantiria a diferença sexual fora do modelo da função paterna? Já que, esta última, historicamente, fundamenta-se nas diversas variações do modelo de família, e não da fratria. Esta alteridade encenada pela personagem Marla, em Clube da luta, parece justificar-se precisamente por essa função de “outro”. Sempre que ela surge em cena, um dos dois – Tyler ou Jack – desaparece, de modo que em nenhum momento os três são vistos juntos. Jack “ouve” com irritação a transa entre Tyler e Marla – que chega a derrubar o reboco da velha casa – enquanto imagina uma forma de se livrar da mulher, frente à qual se sente impotente.

As primeiras intrusões de Marla no pensamento de Jack ocorrem no início do filme, quando este se frustra tentando imaginar os objetos sugeridos pelos líderes de autoajuda. A personagem se mostra como um elemento criado pela angústia de Jack, como objeto a, que ao mesmo tempo esconde/simboliza a falta/diferença do sujeito. A relação sexual com Marla só é sustentada pelo alter ego Tyler, o outro todo-poderoso que elimina a impotência de Jack e que acaba se revelando exatamente em função da relação com a mulher. O trio Marla, Jack e Tyler resume, assim, a estrutura da psicose, da ausência do corte/castração e da não-entrada no simbólico. Nesse sentido, talvez, pode-se dizer que Marla funciona como o Nome-do-Pai – o significante capaz, ao desfecho do filme, de “matar” o duplo de Jack e trazê-lo a uma “realidade” (mesmo que fragmentada), representada pelas explosões na cena final.