Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

4 Imagens do pai em Beleza Americana e Central do Brasil

4 Imagens do pai em Beleza

Americana e Central do Brasil

 

A CRÍTICA À violência neste século está imbuída do espírito de uma forma de ressentimento moderno que aponta sempre para a violência dos outros, o que equivale, em termos dialéticos, a conceber uma forma idealizada de relação social pela qual a violência se faria ausente. É essa forma tão moderna, operada na quase ausência de crítica, que parece conduzir, cada vez com mais raras exceções, a discussão da violência nos dias atuais. É na crítica a essa forma de idealização que sempre exclui do processo da violência aquele que discursa – que a Psicanálise talvez possa propiciar alguma reflexão.

Um dos problemas básicos quando se busca fazer da Psicanálise um instrumento de entendimento do social parece ser o de escapar às amarras dos casos clínicos como suporte para a compreensão dos conceitos fundamentais da teoria. A ideia aqui é abordar os elementos que parecem estar em jogo na discussão da violência e transgressão em relação à função paterna, partindo da análise dos filmes escolhidos, de modo a testar as leituras possíveis da Psicanálise e – o que é mais importante – apreender o que o cinema tem a dizer sobre o tema.

Na Psicanálise, para falar em violência e transgressão, cumpre focar a agressividade estruturante do sujeito, a base da violência que se vê no social. A explicação em Lacan coloca o início desse processo no que chama de “Estágio do espelho”. Neste momento, primeiro a criança, sem qualquer noção do próprio corpo, vê em um outro (fundamentalmente imaginário, mesmo que seja seu próprio reflexo no espelho) alguém com quem aprenderá, num primeiro momento, a ter o controle motor do corpo e, na sequência, a identificar-se, no sentido mais amplo do termo, enquanto autômato alienado dessa gestalt que lhe antecipa a potência.

Resulta desse estádio, que possibilita ao homem (nascido biologicamente prematuro) a passagem da insuficiência à antecipação das funções do sistema nervoso central, esse outro imaginário, que passa a ser um concorrente dessa criança, na medida em que disputa com ela os mesmos objetos. Dessa concorrência imaginária, diz Lacan, nasce o eu, o objeto e o outro, mediados para sempre pela agressividade.

Lacan, em Escritos ([1966] 1998), explica este Estágio do Espelho:

Esse momento, em que se conclui o estágio do espelho,

inaugura, pela identificação com a imago do semelhante e pelo

drama do ciúme primordial […], a dialética que desde então liga

o [eu] a situações socialmente elaboradas. É esse momento

que, decisivamente, faz todo o saber humano bascular para a

mediatização pelo desejo do outro, constituir seus objetos numa

equivalência abstrata, pela concorrência de outrem, e que faz

do [eu] esse aparelho para o qual qualquer impulso dos

instintos será um perigo, ainda que corresponda a uma

maturação natural – passando, desde então, a própria

normalização dessa maturação a depender, no homem, de uma

intermediação cultural, tal como se vê, no que tange ao objeto

sexual, no complexo de Édipo (LACAN, 1998, p. 102).

Para entender o papel do pai nesse processo, cumpre voltar no tempo e relembrar que, em 1911, Freud pretendia ser capaz de oferecer uma base antropológica que assegurasse a significação universal do complexo de Édipo, que desse amparo histórico ao mito de Édipo e à proibição do incesto, “mostrando que a história individual de cada sujeito não é mais do que a repetição da história da própria humanidade” (ROUDINESCO, 1998, p. 757).

Nesse caminho, era fundamental, entre outras coisas, arregimentar argumentos que oferecessem um sólido alicerce para o lugar do pai na cultura. Será este o motor de alguns dos trabalhos mais conhecidos de Freud, que virá a constituir um conjunto de obras de cunho antropológico e social que, malgrado as críticas recebidas, inscreveram-se nos estudos etnológicos daquela época, bem como tiveram e ainda têm papel estrutural no pensamento psicanalítico.

Ao buscar a trajetória da função paterna nas sociedades, Freud trabalhou com base nos estudos e nas ideias de Lamarck (a hereditariedade dos caracteres adquiridos); de Charles Darwin (a ontogênese repete a filogênese); e da teoria do totemismo, de grande divulgação entre os antropólogos do final do século 19, e que ele apresentou em Totem e Tabu (1905).

Resumidamente, Freud defende a ideia de que haveria inicialmente um pai fundador, um chefe que gozava de todas as prerrogativas do poder, especialmente por desfrutar sozinho de todas as fêmeas do clã. Teria havido um dia em que os outros membros, cansados de oscilar entre o medo e a admiração, teriam assassinado e devorado esse pai primevo. Segundo ele, a partir desse ato, os membros do clã teriam fundado uma culpa primordial em razão do sentimento ambivalente de amor e ódio.

Resultou disso uma obediência à figura desse pai ausente na forma de uma autoproibição do usufruto das fêmeas do clã, que passam a ser mães e irmãs, instituindo-se a interdição do incesto por meio de regras que também se estenderiam ao ato de matar, dada a violência da morte do pai.

A esse sacralizado pai morto, simbolizado pelo totem, os membros da horda passaram a venerar como aquele que os amou a todos por igual, signo da renúncia aos desejos incestuosos, bem como ao desejo de ocupar o seu lugar. É aí que o complexo de Édipo freudiano se tornará herdeiro, filogeneticamente, da história do pai na cultura, como ressalta Roudinesco (1998, p. 758):

Sob essa perspectiva, o complexo de Édipo, trazido à luz pela

psicanálise, nada mais é, segundo Freud, do que a expressão

dos dois desejos recalcados (desejo do incesto e desejo de

matar o pai), contidos nos dois tabus próprios do totemismo: a

proibição do incesto e a proibição de matar o pai – totem.

Assim, ele é universal, uma vez que traduz as duas grandes

proibições fundadoras de todas as sociedades humanas.

Freud explica, dessa forma, porque a morte do pai primevo não teria implicado o incesto: não é o pai vivo que sustenta a proibição, mas o pai morto que retorna em seu nome, incorporando a lei simbólica. Freud tenta estabelecer como história o momento traumático como algo já dado, desde sempre acontecido, e, portanto, anterior à entrada do sujeito na cultura, mais precisamente, o exato momento da passagem da natureza à cultura.

Como consequência, o complexo de Édipo não estaria inscrito como evento traumático, na medida em que nunca aconteceu de fato (morte do pai/incesto), pois é precisamente a distância da consumação desse ato que funda a cultura. A tese freudiana equivale a dizer que o complexo de Édipo não pode ser pensado como acontecimento (trauma) na vida, mas como “revivescência” enquanto parte da cultura que o sujeito já encontra pronta quando chega: é a “entrada no mundo da linguagem” de Lacan, a “escolha forçada”.

O que pareceria um resultado satisfatório esbarra, segundo Freud, num recalque que retorna constantemente como forma de expiação desse crime, com o sujeito dividido entre as impossibilidades de tomar o lugar do chefe e de agir fraternalmente. Nesse sentido, Freud vê o patriarcado como um retorno ao clã primevo, enquanto a religião comportaria a instituição da expiação do crime primordial por meio da elevação do pai ao lugar de Deus, bem como, no caso do catolicismo, do sacrifício de um filho (Cristo).

Se, para a Psicanálise, o Édipo assinala a entrada do sujeito no social em observância à lei simbólica (mundo da linguagem), as imbricações dele com essa lei podem ser relacionadas à violência, resumindo-se nesta fórmula: quanto menos eficácia simbólica, mais cresce o papel do imaginário.

A explicação psicanalítica para essa formulação sustenta que, no imaginário, os indivíduos se relacionam consigo mesmos sem o corte simbólico. Essa relação do sujeito consigo a Psicanálise chama de narcisismo, que tem como correlato, como outro lado da moeda, a agressividade. Nesse sentido, à medida que a metáfora do Nome-do-Pai entra em declínio, ou seja, deixa de ter eficácia simbólica, passa a ter maior presença o imaginário, com seu corolário de narcisismo/agressividade.

Lacan sustentava que mesmo representada por uma só pessoa a metáfora paterna concentraria relações imaginárias e reais em maior ou menor grau inadequadas à sua fundamental relação simbólica. Neste jogo de relações aparece o que Lacan (1998, p. 279) chamou, para designar o significante da metáfora paterna, de o Nome-do-Pai: “É no Nome-do-Pai que devemos reconhecer o suporte da função simbólica que, desde a aurora dos tempos históricos, identifica sua pessoa à figura da lei”. É fundamental reforçar, aqui, que não se trata do pai real, “de carne e osso”, mas da relação da criança com a palavra do pai. De outro modo equivaleria dizer que não se trata somente da autoridade real ou não do pai, mas de como esse pai representa – enquanto fato psíquico – a lei. Este fato, para Lacan, está determinado pelo modo como a mãe, a partir de seu vínculo de amor e respeito, coloca, ou não, o pai em seu lugar ideal, ou seja, o “lugar que ela reserva ao Nome-do-Pai na promoção da lei” (LACAN, 1998, p. 585).

As implicações desse processo apresentam às sociedades, cada vez mais interligadas, novos modos de enfrentamento de suas diferenças e talvez, em último caso, novas concepções de realidade, na medida em que essa agressividade tende, em maior ou menor grau, a manifestar-se como violência no social.

De um lado, a defesa ingênua da “tradição” ou da “estabilidade” de valores incluídos no patriarcado não encontra apoio em Freud, que o considerava uma forma de retorno do recalcado. Por outro lado, numa perspectiva psicanalítica, seria impossível aderir ao cada vez mais difundido conceito de “reflexivização” como um autoconhecimento capaz de um “refazer” constante, como nas palavras de Anthony Giddens em Risk Society: Towards a New Modernity: