Imagens do pai no cinema: clínica da cultura contemporânea

10 A inscrição da violência no corpo

 

 

AS DISCUSSÕES SOBRE violência e transgressão nessa passagem de século trataram com frequência da violência corporal, e não somente daquela exercida por terceiros (normalmente considerada apenas em seus aspectos legais), mas também de uma outra de grande repercussão na ética do nosso tempo: a violência que o sujeito inflige a si mesmo. A discussão, nesse segundo caso, exige uma revisão do conceito de “violência”, já que a ação do outro fica aparentemente excluída do fenômeno.

Uma das abordagens contemporâneas deste assunto parte das relações entre simulacro e corpo. O tema ganha complexidade quando se considera o uso crescente de tatuagens e piercings, implantes ou a chamada Body art. Embora estes comportamentos possam ser encarados como um mero modismo, eles talvez constituam um fenômeno interessante, na medida em que podem representar uma forma de inscrição social. Uma explicação possível é a de que eles talvez sejam o preço – social e corporal – da expansão absoluta do simulacro.

Encontra-se aqui, novamente, a fórmula lacaniana segundo a qual a falha do simbólico leva o que é negado a aparecer no Real. A “luta” de Jack e Tyler em Clube da luta cita bem essa questão, apresentando a situação nem sempre pacífica entre o Real (aquilo que escapa à simbolização do sujeito) e a máscara que este sujeito veste durante suas relações subjetivas.

O simulacro no corpo

Pode-se pensar, nesse sentido, que o preço a ser pago no reino global do simulacro é a violência no Real do corpo, o que se verifica, por exemplo, na diferença entre a circuncisão e a tatuagem, o piercing e outras formas de perfuração do corpo: enquanto a primeira, inscrita na tradição, vai no sentido do Real para o simbólico, as últimas, marcas pós-modernas, vão do simbólico para o Real. Ou seja, diz Zizek (2000a), enquanto a circuncisão procura inscrever o sujeito num lugar “desde sempre estabelecido” (sujeitando-o à ordem simbólica, no caso, o legado judeu), as inscrições pós-modernas asseguram um mínimo de real no universo do simulacro. Assim, a marca tem hoje uma função oposta à primitiva, pois indica a expressão individual do sujeito, que quer assegurar sua não-inscrição na castração simbólica.

Como exemplo radical, a possibilidade de construir um “terceiro sexo”, partindo de cirurgias e implantes, implicaria a mudança de um “transexual imaginário” para um “transexual real”, já que põe em cena um imaginário que, desprovido da sustentação do simbólico, manifesta-se no corpo como um real, como um objeto estranho. Nesse sentido, essa busca por uma essência acabaria positivando-se no corpo, “naturalizando” a diferença sexual.

Em Clube da luta a questão está abertamente colocada. Os edemas, cortes e inchaços resultantes das lutas vão aos poucos constituindo marcas particulares que distinguem os que não desejam fazer parte do mundo social, mesmo que, paradoxalmente, essas marcas os identifiquem como integrantes de um grupo – neste caso, antissocial. Na tentativa pós-moderna de “ser você mesmo” (representada num primeiro momento pelo consumo, por parte de Jack, de objetos “exclusivos”, e mais tarde, por sua marginalidade), o personagem enfrenta uma angústia crescente, e isso se espelha na rápida sucessão de máscaras que usa e que o distanciam cada vez mais da ficção simbólica da identidade (a alienação na ordem simbólica).

Sob uma perspectiva conceitual, o filme discute o núcleo da questão da violência: o outro da violência é o outro imaginário. No caso do personagem Jack, essa falha no simbólico é apresentada (mesmo como paródia) em sua forma mais perigosa, a psicose. Paródia, nesse caso, porque o filme não busca nenhuma “representação” da loucura e prefere pôr em cena uma “loucura” mais sistêmica, aquela do simulacro do “mundo de consumo”, do poder do mercado etc. – apresentando com isso o lado negativo dos avanços capitalistas, o resto da “lógica do capital”.

Conforme o filme se aproxima do fim, pode-se ter do problema uma visão après coup, quando se descobre, por meio das lembranças de Jack, que ele sempre lutou sozinho. O espectador é levado, então, a rever o filme sob esta ótica: não se trata de homens lutando uns contra os outros, sem nenhum objetivo aparente, mas – pior – de homens lutando literalmente contra si mesmos. Assim, a luta do sujeito para externar a violência (que reside mais em si mesmo que em qualquer outra coisa) por meio do inexistente “Outro do Outro” acaba redundando, reflexivamente, em seu encontro com esse “pequeno outro” (o concorrente imaginário que o funda). Dialeticamente, no entanto, ao infligir a violência a si mesmo, o sujeito protagoniza sua saída da posição hegeliana de escravo, pois rouba o gozo do senhor (fundamentado no poder de castigá-lo), como na cena em que Jack se espanca em frente ao seu chefe. Nesta acepção, a violência autodirigida o liberta da estrutura ideológica, já que ofusca a mais-valia que realimenta esta última.

Em Matrix a referência se faz por outra vertente e apresenta uma das questões centrais do pós-moderno, a relação corpo-máquina. Na sequência, por exemplo, em que os agentes introduzem no abdome de Neo um transmissor que assume a forma de um inseto (referência explícita ao filme Alien (1979), dirigido por Ridley Scott), encena-se a questão da fusão corpo-máquina, cuja discussão se estende desde as mudanças propiciadas pela engenharia genética, passando pelas próteses e implantes eletrônicos no corpo, até a indiferenciação entre homem e máquina. É o viés biológico como lugar onde tudo ocorre.

Para a Psicanálise, contudo – e aqui é preciso lembrar a insistência de Lacan –, o corpo é fundamentalmente imaginário, um repositório da angústia das transformações, sejam sociais, econômicas, políticas etc. Como explicar, por exemplo, que uma entidade com milhares de seguidores se proponha a clonar Jesus? (ver site Christians for the cloning of Jesus). A ideia que se evidencia aqui é a de que tudo o que constitui o sujeito encontra-se gravado em sua cadeia genética, e que seu renascimento traria de volta, então, o que ele foi, sem contingências históricas, sociais etc.