Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 9 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

— ACONTECEU A MESMA COISA EM Bridgend — disse Trigger, largando o exemplar do Briarstone Chronicle sobre sua mesa abarrotada.

— Bridgend? — perguntei. — Você está falando dos adolescentes suicidas?

— É, foi uma coisa assim. E antes que você comece, já sei que todos foram casos de morte natural.

Eu não disse nada. Na verdade, não eram todos de causa natural; o relatório que o médico-legista nos forneceu identificava que dois morreram por causa do alcoolismo, e outro acreditava-se ter sido por overdose de barbitúricos. Vários outros pareciam ter morrido de fome. Pode ter sido algum tipo de causa natural, mas, se tivessem conseguido comer de vez em quando, é provável que ainda estivessem aqui.

— E agora essa droga de jornal também ficou sabendo. Isso vai virar uma grande dor de cabeça, pode escrever o que estou dizendo. Ontem, eu estava conversando com Dave Morris. Você conhece Dave? Inspetor de plantão na Sala de Controle que antes trabalhava no trânsito?

Assenti, como se soubesse de quem ele estava falando, só para fazer com que parasse de descrever o histórico profissional completo de Dave Morris.

— Ele disse que andam recebendo milhares de ligações falando sobre vizinhos, graças ao envolvimento da imprensa. A cada cinco minutos: “já não vejo a moça da casa ao lado faz algum tempo” ou “estou sentindo um cheiro esquisito por aqui, talvez alguém tenha morrido”. Ele disse que sempre mandam uma unidade, por via das dúvidas, mas está ficando irritante.

Sorri para ele, esperando que não achasse que eu fosse pedir desculpas. Era como se tudo fosse culpa minha, só por que tinha sido eu quem chamou a atenção para o caso.

Para variar, o sol brilhava lá fora. Concluí a análise comparativa dos casos e entreguei cópias para Andy Frost, Bill, Trigger e qualquer outra pessoa que demonstrasse interesse, com a vaga esperança de que alguém desse alguma atenção. Na verdade, era um documento superficial. Não havia muitos dados além daqueles que eu já tinha descoberto; os gráficos pareciam impressionantes, mas minhas requisição e recomendações eram duas vezes mais longas do que todo o relatório principal. No fim, foi tudo o que pude fazer para me abster de implorar.

Eu já lera o jornal. Trigger e Kate estavam achando que eu tinha passado informações confidenciais, mas não fui eu. Repórteres têm seus próprios contatos no Instituto Médico Legal; deve ter bastado uma observação passageira do número de corpos decompostos para fisgar o interesse de um jornalista.

Quando Trigger saiu para dar algumas instruções de final de expediente, peguei o jornal na sua mesa e virei as páginas, até achar a matéria sobre os corpos. Demorei um tempo para encontrar o nome — perdido lá no final. Sam Everett. Anotei-o na minha agenda e coloquei o jornal de volta na mesa de Trigger, exatamente onde ele o deixara. Depois, recomecei a analisar os casos de arrombamentos para a reunião sobre crimes em série do dia seguinte. Tentei não olhar para o nome que eu escrevera, mas meus olhos eram atraídos para ele incessantemente. Era como se os anjos já tivessem me conectado a ele.

* * *

Depois do trabalho, voltei a subir a ladeira até o ponto de ônibus, olhando as vitrines das lojas. Apesar de ter saído tarde, porque não precisava fazer compras para minha mãe esta noite, não tinha pressa de voltar para casa. A gata poderia esperar um pouquinho mais para jantar. Eu queria estar onde outras pessoas estavam, ainda que todas essas pessoas estivessem com pressa de ir para outro lugar. Mais algumas horas e a cidade ficaria movimentada outra vez: as pessoas saindo para encontrar os amigos, para jantar, beber alguns drinques, talvez até para uma boate mais tarde. Eu não podia ficar à toa esse tempo todo — e além disso, qual seria a graça? Todos estariam se embebedando, fazendo arruaça, rindo uns dos outros e rindo de mim, a única pessoa em toda a cidade a sair sozinha à noite. Seria como nos tempos de escola.

Quando cheguei ao ponto, a traseira do ônibus ria da minha cara, já alcançando o sinal de trânsito, a cem metros dali. O próximo só passaria em vinte minutos, então continuei andando pela calçada. Havia outro ponto de ônibus em frente à sede da prefeitura, que cortava o grande circuito pelo centro da cidade do caminho, e, se eu não perdesse tempo, conseguiria chegar lá cinco minutos antes de o ônibus passar. A calçada estava vazia, todas as lojas fechadas e trancadas, jornais e lixo voavam na minha direção, convergindo sob a força do vento.

Muitos anos atrás, meu pai trabalhava na sede da prefeitura. Ocupava algum cargo no departamento de contabilidade, embora mamãe não fosse muito boa em detalhes. Quinze anos antes, tinha surgido uma oferta de emprego para a qual quis me candidatar; na época, eu era auxiliar administrativa de um escritório de advocacia, estava entediada com o emprego e as mesquinharias entre as mulheres que trabalhavam lá. Mas mamãe me dissuadira.

— Você iria detestar — disse ela. — Seu pai nunca estava feliz. Toda aquela burocracia. E você não leva jeito com os números. Ia acabar ficando sempre toda enrolada.

O salário não era muito melhor do que aquele que eu ganhava, mas as perspectivas eram mais atraentes — naquela época, uma vez contratado pela prefeitura, o emprego era vitalício — e talvez tenha sido por isso que minha mãe não me encorajou a tentar. Já naquele tempo, há quinze anos, acho que tinha medo de que eu fosse embora.

Quando vi o anúncio da vaga de emprego na polícia, não lhe contei que havia me candidatado, até receber a carta me oferecendo o cargo. Ela ficou furiosa.

— Você vai ter que usar um uniforme — disse ela — e não vai gostar disso, não é? Isso se conseguirem arranjar um que caiba em você.

— É um emprego civil, mãe; eles não precisam usar uniforme, a não ser quem fica na sala de controle e no balcão da recepção.

— Mesmo assim, você sabe o que falam sobre os policiais.

— O quê?

— São todos promíscuos. Todos traem suas pobres esposas. Em menos de cinco minutos, eles vão cair em cima de você.

Como se isso fosse possível! Pensar naquilo agora me fazia rir, muito embora tenha sentido um pouco de medo quando comecei a trabalhar lá. Demorou um tempo para eu ganhar confiança — todos pareciam saber tão mais do que eu —, mas me concentrei nos detalhes e logo apareceram pessoas novas e era eu quem lhes mostrava o que fazer.

Estacionei o carro no escuro a três ruas de distância e caminhei rapidamente até minha casa. Meus pés doíam, apesar de ter ficado sentada o dia todo.

Tanto a minha casa quanto a do lado estavam no escuro, nada as distinguia da rua, ambos os jardins tomados por um matagal. Eu teria que cuidar disso no fim de semana. Fui atraída para a casa vizinha, espiei pela janela da frente, mas não consegui ver nada — não havia luz. A porta do corredor, lá dentro, devia ter sido fechada, como provavelmente sempre estivera.

Não dava para ver nada nem sentir cheiro algum.

A gata se enroscava nos meus tornozelos, sem dúvida se perguntando que diabos eu estava fazendo ali em pé no canteiro de flores descuidado da casa ao lado. Você não mora aqui, sua idiota, ela parecia estar me dizendo. Por acaso se esqueceu de onde mora, agora?

Saí sozinha da casa vizinha e enfiei a mão no bolso para pegar a chave. O corredor estava vazio e sossegado. Eu tinha esquecido de ajustar o timer do aquecedor central e estava um frio enregelante na casa. A gata tentou me fazer tropeçar até eu chegar à cozinha, apesar de eu resmungar que não teria muita utilidade para ela se caísse no corredor e quebrasse o tornozelo.

Acendi a luz da cozinha, peguei os biscoitos da gata no armário embaixo da pia e despejei um bocado na tigela. Ela miou para mim, sua voz desafinando nas notas mais agudas.

Tendo alimentado a gata, eu devia cozinhar algo para mim. Devia ir até a geladeira — ou ao congelador, mais provavelmente — para procurar algo decente para comer, algo que incluísse legumes e que fosse saudável. Mas estava sem apetite. Sorri ao pensar que toda aquela situação dos cadáveres estava finalmente me fazendo perder peso, enquanto todas as dietas anteriores haviam fracassado.

A casa parecia repercutir a quietude, assim como o frio.

Liguei o rádio na esperança de me livrar daquela mortalha sinistra que parecia cobrir meus ombros, torcendo para que estivesse tocando algo animado. A música, não identificada, já estava quase no final.

— Se você acabou de sintonizar com a gente, saiba que estávamos falando da campanha do Briarstone Chronicle, o que é uma boa notícia para todos nós, na verdade, não é mesmo? Sally, você conhece os seus vizinhos?

— Conheço, sim! Já faz alguns anos que moro na mesma casa, e somos bons amigos. Mas no último lugar em que morei, não era nada assim. Vivi lá durante cinco anos e não tinha a menor ideia de quem morava ao lado. E acho isso uma pena…

— Hum, sei. É mesmo, e não parece haver razão alguma para isso. Só precisamos ser cordiais e fazer um esforço para conhecer as pessoas. Não é preciso fazer amigos se não estiver a fim, mas nunca se sabe quando precisaremos uns dos outros, afinal de contas…

— E a população está envelhecendo, não é mesmo? Acho que daqui a alguns anos haverá muito mais idosos morando sozinhos, e ter vizinhos nos quais possam confiar é muito importante…

— Vamos conversar com outros ouvintes sobre este assunto, então ligue para nós! Você é amigo dos seus vizinhos? Será que talvez você esteja envelhecendo e começando a se preocupar em ficar sozinho? Ou talvez esteja preocupado com seus vizinhos, mas não quer se intrometer? Ligue para nós no número de sempre e vamos conversar, vamos falar com algumas pessoas logo após as informações sobre o trânsito…

Estavam esquecendo o principal, pensei. Ter vizinhos não faz a mínima diferença, se você resolver ignorá-los.

— …e agora estamos na linha com Alan, de Briarstone. Então, você não conhece seus vizinhos, é isso?

— Isso mesmo, Rob. É o seguinte, aqui do lado mora um casal de idosos, pois é, e eles nem sequer falam comigo. Quer dizer, outro dia eu disse oi para eles e os dois apenas acenaram com a cabeça, só isso, e…

— Mas você não acha que eles podem estar esperando que você diga mais alguma coisa, Alan? Sabe, às vezes, as pessoas mais velhas podem se sentir vulneráveis, e não sabem em quem confiar.

— É, eu sei, mas as pessoas costumavam falar com todo mundo, quer dizer, quando eu era jovem, as pessoas se encontravam na rua o tempo todo para conversar e tudo o mais.

— E as pessoas ficavam mais tempo no mesmo lugar, não podemos esquecer disso. Hoje em dia, elas se mudam com mais frequência, trocam de emprego, seu estilo de vida varia o tempo todo…

Abri a porta dos fundos para deixar a gata sair e, relutante, respirei fundo. Havia uma brisa noturna balançando os galhos das árvores atrás da casa. Além das árvores, estava a rua principal e, depois dela, o cemitério. Não sentia cheiro algum e, por um momento, me perguntei se eu havia imaginado que encontrara Shelley Burton na casa ao lado. O odor tinha se dissipado; os restos mortais haviam sido removidos, sem dúvida por funcionários da prefeitura, enquanto eu estava no trabalho. Ela se fora, completamente, sem deixar o menor vestígio, como se nunca tivesse existido.

Briarstone Chronicle Outubro

 

Moradora da cidade “estava morta havia meses”

Policiais foram chamados até uma casa em Newmarket Street, em Briarstone, sexta-feira passada e ficaram chocados ao encontrar o corpo de Shelley Burton, 43, na sala de sua residência. A Sra. Burton morava sozinha e não era vista havia alguns meses.

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Comentário do Editor

A descoberta do corpo de Shelley Burton, ex-atriz e modelo de 43 anos, foi a mais recente numa surpreendente lista de pessoas em Briarstone e arredores que faleceram sozinhas, em casa, só sendo encontradas depois de algum tempo.

É um triste sintoma de nossa sociedade que tantas pessoas de nossa comunidade não conheçam seus vizinhos, ou que prefiram acreditar que outras pessoas deveriam se preocupar, que outras pessoas sabem onde estão, os outros que assumam a responsabilidade. Mas, na verdade, essas outras pessoas não existem.

Morrer sozinho — A vergonha de nossas comunidades

O número crescente de corpos encontrados muito tempo após sua morte em Briarstone chocou a todos nós nos últimos meses. Ficou claro que o espírito comunitário, outrora o orgulho dos britânicos, mudou — não cuidamos mais de nossos vizinhos, nós nos tornamos uma nação de egoístas escondidos atrás das cortinas. Quem VOCÊ conhece na sua rua? Nós fomos para as ruas de Briarstone fazer essa pergunta.

“Já se foi o tempo em que conhecíamos todos em nossa rua”, disse Stan Goodall, 64. “As pessoas cuidavam umas das outras. A gente sempre sabia quando alguém precisava de uma ajudinha.”

“Não conheço nem um pouco meus vizinhos”, disse uma jovem, que pediu para não ser identificada. “Cada qual fica no seu canto e eu acho bom assim.”

“Eu tenho medo, sim, de morrer sozinha”, afirmou Ethel Johns, 78. Ela parecia fragilizada, mas não abatida, quando conversamos sobre as recentes descobertas. “Eu conhecia Judith Bingham, que foi encontrada em março, e não consigo deixar de pensar que ninguém notou que ela havia sumido. É triste pensar nela ali morta todo aquele tempo.”

O Sr. Alan Wilson, 47, concorda: “É uma desgraça. Dizer que temos espírito comunitário é uma grande piada.”

O seu Briarstone Chronicle está lançando uma nova campanha para chamar atenção para as tragédias dessas pessoas desamadas. Agora é hora de cuidar dos seus vizinhos que vivem sós. Entre em contato regularmente com as pessoas. Crie redes de apoio dentro da comunidade. Fique atento aos eventos que têm o apoio do Chronicle na sua vizinhança nas próximas semanas, uma oportunidade para sair de casa e conhecer seus vizinhos!

 

Shelley

Às vezes, essas coisas acontecem muito devagar, então você não percebe na hora. Comigo foi um momento, um único segundo que dividiu minha vida como um golpe de foice, de modo que houvesse sempre um antes e um depois.

Cinco de maio de 2011. Eram cerca de três da tarde, um dia bonito, e embora estivesse fazendo um calor sufocante durante várias semanas, aquele dia estava mais fresco. Havia uma brisa nos aliviando um pouco do calor. Eu estava indo de carro para o supermercado, pensando no casamento de minha amiga, que seria no fim de semana seguinte e me perguntando se o tempo continuaria bom. Era também um feriado bancário, o que é importante porque, é claro, se fosse uma segunda-feira normal, eu estaria no trabalho e talvez nada acontecesse.

Parei na rotatória, esperando para poder entrar no supermercado, e estava quase acelerando, quando outro carro veio pela direita a toda velocidade. Então pisei no freio. Lembro-me de ter tido tempo de pensar em algo do tipo: Ainda bem que os freios funcionaram quando uma van bateu na minha traseira, lançando o carro para a rotatória e para o caminho do outro motorista.

Tive sorte: os ferimentos não foram graves. Alguns cortes e contusões, principalmente na perna direita, que ficou presa com o impacto. Os outros dois motoristas ficaram bem. Tudo aconteceu em estágios: aguardar a chegada da ambulância enquanto um bocado de gente se amontoava ao redor, falando comigo através do vidro rachado para me acalmar; e então, quando os bombeiros chegaram, iniciou-se o longo processo de me retirar de dentro do carro. Em seguida, o hospital. A chegada de Graham. A polícia me fazendo perguntas.

Tive alta na manhã seguinte, com uma receita de analgésicos e instruções para visitar meu clínico geral a fim de ser dispensada do trabalho. Lembro-me de ter pensado que tive sorte em escapar. Naquela noite, Graham e eu estávamos bebendo vinho — para fins terapêuticos, disse ele — e eu sorria, apesar do choque pelo qual passara, sorria para ele quando o ouvi dizer que eu devia ser feita de borracha ou algo assim.

Levou algum tempo até percebermos que tínhamos achado graça cedo demais. Algo havia acontecido em algum lugar dentro do meu corpo no momento em que o carro sofreu o impacto, algo havia sido quebrado.

A dor se tornou constante depois disso. Algumas vezes, diminuía um pouco, como se estivesse no olho de um furacão, e eu podia funcionar normalmente, andar até as lojas, pôr roupa na máquina de lavar — mas aí, então, ela voltava com toda a força e, nos piores dias, mal podia me mover sem gritar.

Eles disseram que era uma contusão no pescoço, pois as dores às vezes se concentravam nessa área, e possivelmente levaria meses para curar. A seguradora, finalmente, autorizou consultas com um fisioterapeuta, que não pareceu ajudar em nada. Além disso, a dor passou para outros lugares: era no pescoço e então, no dia seguinte, nos ombros, depois na lombar e, algumas vezes, nas pernas. Onde quer que fosse, estava sempre lá, um demônio que havia me possuído e me sujeitava a um sofrimento aparentemente sem fim.

Foram feitas pesquisas médicas, uma após a outra: exames, terapias, com semanas de espera entre uma e outra. Ouvi conselhos sobre como suportar as dores e tentei terapias alternativas também. Passei a frequentar o serviço pós-traumático do hospital, que nunca ajudou muito, na verdade só me entorpeceu de remédios — e o sacrifício de ir até lá de carro anulava tudo. Meu médico continuou estendendo minha licença do trabalho até que, enfim, achei melhor pedir demissão. Na época, eu havia assinado os formulários de queixa para tentar conseguir alguma indenização de um dos motoristas responsáveis por arruinar minha vida. Eles me advertiram que poderia levar anos, e eu não conseguia deixar de pensar que, de qualquer modo, dinheiro não faria diferença alguma. Nem mesmo o dinheiro poderia me livrar das dores. Mas Graham insistiu e assim que o processo começou, faltou-me motivação para interromper tudo.

Aqueles motoristas tinham destruído completamente a minha vida. Tudo que, até então, era normal para mim se desfez no ar no momento da batida. Não tinha emprego. Não conseguia ir até o jardim, algo de que sempre gostei muito. Não conseguia me sentar confortavelmente no carro, mesmo como passageira, então quase nunca saía de casa. Graham e eu tínhamos conversado certa vez sobre ter filhos, mas agora, como eu poderia pensar em formar uma família?

Algumas vezes, eu acreditava que teria sido mais fácil se o acidente tivesse simplesmente atingindo minha coluna vertebral e me deixado paralítica, porque pelo menos assim seria evidente para todo mundo. Do jeito que fora, eu parecia perfeitamente normal. Ninguém consegue ver a dor. Não existe uma tabela referencial para avaliar a dor que outra pessoa sente. Tudo o que veem é a inatividade — que interpretam como preguiça. Meus amigos e familiares, que me visitavam com frequência no começo, foram aos poucos deixando de vir. Todos achavam que eu deveria me esforçar mais para superar, que eu não estava ajudando a mim mesma, ficando o tempo todo na cama ou no sofá, que eu deveria tentar um pouco de vez em quando e que assim melhoraria. Achavam que, ficando imóvel, o problema se agravaria. E enquanto isso, a dor vinha em ondas que me deixavam infeliz, irritadiça, e então eu passei a tratar mal as poucas pessoas que ainda iam me ver e, por fim, elas também pararam de se preocupar comigo.

O que mais me machucou em tudo isso, porém, foi Graham. Eu era feliz com ele, mas nunca sabemos como as pessoas vão enfrentar os problemas até que se deparam com eles. Nós nunca nos casamos, portanto ele nunca me prometeu aquela droga de “na saúde e na doença”. Achei que isso estivesse implícito e, se fosse a situação inversa, eu teria feito de tudo para cuidar dele. Mas o que se pode fazer?

O pior acidente que ele já sofrera foi uma fratura no tornozelo, jogando rúgbi, e tinha se recuperado em seguida com a fisioterapia adequada. Ele achava que havia acontecido o mesmo comigo, ou que a dor do meu acidente talvez fosse, pela lógica, menor do que a dele, pois eu não fraturara osso algum. Ele se cansou de sair do trabalho para me levar a consultas médicas que sempre chegavam a resultados inconclusivos. Como as outras pessoas, ele não conseguia lidar com minha mudança de humor, e quando a dor estava particularmente forte, ele saía. Simplesmente, saía de casa, levando a carteira, a chave do carro, o celular, e ia para algum lugar, para o pub, ou para a casa da sua irmã, ou qualquer outro lugar onde pudesse esquecer sua companheira miserável e enferma.

Quando ele fazia isso, eu me sentia aliviada, pois então podia fazer barulho — podia gritar, gemer e xingar por causa da merda da dor e da porra das minhas costas, sem que ele tivesse que ouvir.

E, é claro, não era somente o mísero esforço extraordinário de me levar e me buscar, de ajudar a me vestir, de pedir comida pelo telefone quase toda noite, e trazer as compras do mercado para minha casa. Não tínhamos mais momentos íntimos. Mesmo nos melhores dias, quando a dor amainava, tornando-se só um incômodo, o máximo que podíamos fazer era nos abraçar e nos beijar. Ele precisava de mais, é claro, e não queria pedir ou me pressionar, pois tinha medo de piorar as coisas. E mesmo quando me sentia bem e capaz de tentar, eu temia começar algo que não seria capaz de concluir.

Ele aguentou até cinco meses após o acidente. Não sei se tomou essa decisão aos poucos, ou se eu disse ou fiz algo que desencadeou tudo, mas, uma manhã acordei e ele não estava mais lá. Tinha deixado um bilhete na mesa do andar de baixo.

Sua irmã apareceu no fim de semana seguinte e, juntas, fizemos uma mala com as coisas dele da melhor forma que conseguimos.

Pensei várias vezes em me matar, mesmo antes de Graham partir. Alguns dias, tudo que eu mais queria era a morte, porque assim me livraria das dores, mas não podia fazer isso enquanto Graham estivesse ao meu lado. E se ele me achasse? Ele me odiaria por estar desistindo, depois de todo o esforço que dedicara a mim, para que eu seguisse em frente.

Depois que ele se foi, não havia mais razão para que eu continuasse vivendo, não sobrava mais ninguém que se preocupasse comigo o bastante para verificar se eu estava viva ou morta, mas eu tinha medo de fazer algo quanto a isso. Medo de que desse errado e que eu acabasse sentindo ainda mais dor do que agora. E, apesar da copiosa quantidade de remédios receitada, era difícil guardar comprimidos suficientes para fazer o trabalho corretamente. Mas pensei nisso, fantasiei sobre isso, sonhava com a morte como antes sonhava com o fim da dor, e como, antes disso, sonhava com jardins, filhos e viagens nos fins de semanas. A morte era meu amante esquivo, precioso, desejado e enciumadamente guardado, mas sempre distante. Sempre fora do alcance.

E minha vida era um tremendo desperdício. Uma grande ruína do que outrora havia sido bom. Tudo me fora arrancado, deixando aquele vazio, aquele abismo de dor e sofrimento.

Quem diria que tudo poderia ser tão simples? Afinal de contas, eu só precisava de alguém com quem conversar. Alguém que entendesse como eu estava próxima daquele ponto, e que me dissesse que era normal pensar nesse tipo de coisa. Todos deveriam ter o direito de decidir quando não aguentam mais. Por que eu deveria passar anos e anos naquele inferno, quando partir era algo tão maravilhosamente simples?