Restos Humanos
Annabel
NO HOSPITAL, ENFIARAM UM TUBO NA minha veia e me mandaram consultar um psiquiatra, que me receitou antidepressivos. O psiquiatra disse que eu vivenciara algum tipo de “episódio”, que, anos atrás, poderia ser descrito como um colapso nervoso. Falou que eu passara por um período de muito estresse e não fora capaz de processá-lo, e assim, minha mente se paralisara num reflexo de autopreservação.
Aquilo tudo soava plausível, mas algumas coisas não se encaixavam. Minhas lembranças da semana anterior não estavam apenas confusas, mas totalmente erradas. Tinha a impressão de que coisas haviam acontecido sem que eu pudesse considerá-las. Parte de mim estava desesperada para voltar para casa, fechar a porta e esquecer tudo aquilo, voltar a ficar sozinha, em paz com tudo.
Quando disse isso para a enfermeira, não tardou para que o psiquiatra me fizesse outra visita, na qual me perguntou cheio de rodeios e, depois diretamente, se eu sentia ter tendências suicidas. Ele já me perguntara isso antes, assim como fizera várias outras perguntas que eu me esforçara ao máximo para responder.
— Não, não sinto. — Foi minha resposta.
— Você não sente isso às vezes?
— Acho que não.
O suicídio é algo ativo, algo que se faz; isso exigiria que eu me lançasse num processo envolvendo alguma atividade. Não: o que eu queria era a ausência de atividade. Queria cessar. Queria ficar deitada e imóvel e deixar o mundo seguir em frente. Ninguém pronunciou a palavra MORTE, mas ela estava na minha cabeça. Era a mesma coisa que VIDA. Por alguma razão, eram a mesma coisa, unidas por um laço invisível, o fim, o começo, o fim, um círculo infinito girando, girando, uma roda. Se eu não estava com medo da vida, não estaria com medo da morte. Eram a mesma coisa.
Pensei que estavam prestes a me deixar voltar para casa, àquela altura, mas em vez disso me transferiram para a ala da psiquiatria.