Restos Humanos
Colin
PASSEI A NOITE DE SEGUNDA-FEIRA TENTANDO estudar, mas estava muito disperso. Tendo jogado o exemplar imundo do Briarstone Chronicle na lata de lixo da cozinha do trabalho, comprei um novo, a caminho de casa. E bastou ver a primeira página dobrada do jornal sobre o balcão, com a metade superior da cabeça de Rachelle, para eu ter outra ereção. Apesar de minha autoimposta regra de abstinência, depois de começar a beber uísque ao cair da tarde, ficou difícil me conter e não passar a maior parte da noite me masturbando. Foi por causa da matéria no jornal — e a centelha de uma ideia que não queria inflamar, pouco importando o ângulo que eu adotava para abordá-la.
Naquela noite, parei no supermercado depois do trabalho para comprar pão, leite, azeitonas e chouriço. Enquanto minhas mercadorias deslizavam sobre a esteira do caixa, ergui os olhos e meu olhar encontrou o de uma mulher na fila de outro caixa. Acima do peso — gorda, mesmo; com o cabelo preso para trás num descuidado rabo de cavalo desprovido de substância e estilo. Estava começando a ficar grisalha nas têmporas, mas, como Janice, provavelmente não era tão velha quanto parecia. Não usava aliança no dedo e nada em sua esteira sugeria que estivesse fazendo compras para a família em casa. Além de seu comportamento em geral, seu olhar era igual ao de tantas delas: o olhar do derrotado. Parecia esgotada, como se o dia tivesse sido impiedoso com ela, como se ele a tivesse buscado de manhã e a devolvido no final do dia desfigurada, como um pano de prato sujo, cheio de manchas e amarrotado, secando em cima da torneira.
Ela conseguiu esboçar um sorriso para a atendente do caixa e, como acontecia com Janice, o sorriso iluminou seu rosto — por um ínfimo segundo. E, assim como Leah, ela não está pronta para mim, quem quer que fosse. Mas podia ser apenas uma questão de tempo. Espero vê-la outra vez. Ela parece precisar da minha ajuda.
O surgimento repentino de uma nova perspectiva, ainda que ela não estivesse bem madura, me deu uma brilhante ideia. Eu andava tentando pensar em como poderia entrar em contato com o jornal e, ainda assim, manter meu completo anonimato. Evidentemente, poderia enviar uma carta à moda antiga — impossível de ser rastreada —, mas assim abriria mão do prazer de ouvir a reação deles. O único jeito de poder escutar seria ir lá pessoalmente, ou ligar para eles.
Foi então que percebi como devia fazer. Nietzsche disse: “O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo.” Eu me diverti com elas sempre que tive vontade, porém, isso já não bastava mais. Agora, ao que parecia, também queria correr perigo…
No momento, eu tinha três delas, todas em diferentes estágios de prontidão — aguardando o instante de agonia e o começo da transformação. A que estava mais avançada nesse processo, mais preparada, calhava também de ser a que morava mais perto do supermercado. Estacionei na rua atrás de sua casa e cortei caminho por uma alameda nos fundos. Não havia ninguém por perto, as ruas estavam desertas. Vi um gato se contorcendo ao lado das latas de lixo. Fora isso, nenhum movimento.
Fiz uma ligação, mas ninguém atendeu. Indaguei se aquilo significava que era tarde demais, mas como estava tão perto da casa, segui em frente assim mesmo. Quando cheguei, a porta dos fundos estava aberta e entrei, sem bater ou gritar o nome de alguém.
Ela estava dormindo, deitada na cama, sua respiração produzindo um som rouco e seco. Eu disse seu nome e, depois, mais uma vez, mais alto.
— Você pode abrir os olhos?
De início não houve resposta alguma. Ela respirava de forma regular, hesitante e, depois, começou a respirar fundo, entre intervalos. Ela estava bem distante.
Eu me perguntei o que deveria fazer, e se conseguiria cuidar daquilo sozinho — afinal de contas, o que importava era o local e, potencialmente, poderia elevar o tom da minha voz ao de um falsete em nome da diversão. Mas foi decepcionante. Desde que tivera aquela ideia, a excitação vinha crescendo dentro de mim, e lá estava eu, tão perto, dominado por uma ansiedade quase febril.
Mas então, para minha surpresa, ela se mexeu. Ergueu lentamente a cabeça.
— Consegue se sentar? — perguntei, ajudando-a, segurando seu braço. Ela estava quente, sua pele tinha a textura de um papel.
Demorou um pouco para que ficasse pronta, mas eu só precisava que ela se concentrasse por um breve instante. Seus olhos brilhavam, era seu único vestígio de umidade: os lábios estavam ressecados, o cabelo caído em cachos murchos em seu rosto.
— Tome — falei. — Pegue este papel. Acha que consegue ler?
Ela olhou para a folha de papel, confusa. Os olhos estavam embaçados.
— Não estou entendendo.
Já esperava por isso. Ela havia cruzado o limite dos sentidos.
— Você bebeu alguma coisa hoje?
Ela olhou para mim, perplexa.
— Não estou entendendo.
Meu Deus, pensei. Era o lado negativo daquele processo, acabar com o que ainda restasse do desejo de lutar, com a força, a atividade. Tudo que precisavam fazer a partir desse ponto tinha que ser especificamente instruído, passando de um padrão que exigia de forma vaga a linguagem, a metáfora, utilizando simples anedotas a fim de explicar algo, para um que dependia de instrução direta.
Fui até a cozinha e abri a torneira. A água caiu na pia produzindo um leve som metálico. Já tinha som de casa vazia, apesar de ela ainda estar ali. Nem sequer partira, mas sua presença já desvanecia. Achei uma xícara e a enchi pela metade — mais do que isso a deixaria doente, colocando em risco todo o processo — e levei até ela.
— Agora beba isso — ordenei.
Entreguei-lhe a xícara e ajudei a segurá-la. Ela bebeu alguns goles obedientemente, mas sem tomar cuidado, a água escorrendo pelo canto da boca e em cima do seu vestido. Em seguida, ela virou o rosto. Tinha bebido o bastante, pensei. Devia estar próxima da transição. Com delicadeza, peguei a xícara de suas mãos, colocando-a no chão, fora de seu campo de visão.
— Agora — prossegui, tocando em seu braço. — Olhe para este papel. Consegue ler?
— Tenho algo importante a dizer… — recitou ela.
— Muito bem — falei. — Agora chega. Vou ligar para um número de telefone e, quando atenderem, quero que você leia o que está escrito no papel. Entendeu?
Ela não respondeu de imediato. Toquei outra vez seu braço e ela se retraiu. E então disse, hesitante:
— Entendi.
— Muito bem. Vamos fazer isso agora.
Disquei o número para ela e depois segurei o telefone perto do seu rosto. Eu queria colocar no viva-voz, para poder ouvir a reação deles, mas a casa estava tão silenciosa que consegui ouvir chamando no outro lado da linha. Tudo o que dissessem, eu escutaria.
— Alô, Editoria de Notícias.
Toquei seu braço, estimulando-a, mas acho que nem precisava.
— Alô — disse ela com a voz lindamente modulada e serena. — Quero falar com Sam Everett.
— Sou eu. Posso ajudar?
— Tenho algo importante a dizer. Há outros corpos — disse ela, como se estivesse anunciando a chegada de um trem na plataforma sete. — Há um em…
— Espere um pouco — interrompeu-a Sam Everett do outro lado da linha. — Espere só um segundo. Deixe-me anotar aqui.
Ela fez uma pausa de alguns segundos e depois continuou, com um tom de voz indiferente ao assunto:
— Há outros corpos. Tem um no número 36 da Hawthorn Crescent, em Carnhurst. E ainda outros.
Eu não conseguia ouvir nada do outro lado da linha e me aproximei ainda mais dela. Sam estava escrevendo, anotando tudo. Apontei para a linha seguinte do script. E ela a leu, submissa.
— Você quer que eu repita. — Tecnicamente, era uma pergunta, mas sua voz saiu sem entonação alguma.
— Onde estão os outros? E quem está falando, por favor? Qual é o seu nome?
— Você quer que eu repita.
— Não, não. Só quero saber com quem estou falando. Qual é o seu nome?
Apertei o botão que desligava o telefone. Sam Everett seria a última pessoa, além de mim, com quem ela falaria. Ela não fazia a menor ideia disso. E não havia problema. Se eu tivesse lhe contado, se tivesse lhe explicado isso, ela não ficaria mais preocupada do que já estava naquele exato momento.
— Muito bem — falei, colocando o celular para carregar. — Você foi muito bem.
Ela olhou para mim. Em qualquer outro momento e lugar, poderia até ter dado um sorriso, mas estava cansada, inimaginavelmente exausta, com o esforço de se concentrar para obedecer às minhas instruções. Ela voltou a se deitar.
— Estou cansada — disse ela. — Minha cabeça dói.
— Eu sei. Pode dormir se quiser.
— Ok.
Ela estava linda à beira da morte, enraizando-se nela, animada com isso. Não sentia dor, raiva ou medo. Ela se aproximava do fim como todos deveriam fazê-lo, com consenso, graça e em perfeita paz. A água que ela bebera não parecia ter desacelerado o processo, como pensei que aconteceria. Ela já estava em um estágio muito avançado para isso.
— Agora — falei, segurando seu braço. — Você está pronta. Sabe o que precisa fazer.
— Dormir — respondeu ela.
— Isso mesmo. Agora você vai dormir. Está na hora.
Antes de sair da casa, limpei todas as superfícies em que tinha tocado, apesar de estar usando luvas de látex desde que chegara. Ela não as notara, sequer olhara com curiosidade. Não sei por que me dei o trabalho de usá-las, pois, teoricamente, ela havia me convidado a entrar e não teria feito objeção à minha presença ali. Mesmo num momento como aquele.
Na porta dos fundos, parei um instante e olhei mais uma vez para dentro da casa. A próxima pessoa que entrasse ali seria a primeira a encontrá-la. Eles rastreariam a ligação, sem dúvida, e depois disso, iriam ali procurar por ela. Eles a encontrariam ainda fresca se tivessem juízo. Então, me ocorreu que poderiam achá-la cedo demais, antes que morresse. Era um risco. Mas é provável que fossem primeiro até o endereço que ela dissera para eles, e só lhe restavam algumas horas de vida. Pouco importava o que acontecesse, eles achariam esses restos humanos antes de ela ter a oportunidade de se transformar, como aconteceu com os outros. Era seu infortúnio, e uma pena, considerando como havia me servido tão bem hoje. E também vou sentir falta de tomar conta dela, de observar e documentar sua transformação. Mas, no fim das contas, aquilo precisava ser feito e, desta vez, a diversão seria outra.
* * *
Com toda aquela excitação do início da noite, fiquei muito distraído na academia, incapaz de alcançar minhas metas. Trinta minutos em cada aparelho, minha rotina habitual, mas as trinta voltas na piscina que me tomam quase vinte e três minutos. Na ginástica, consegui desconectar meus pensamentos com as batidas frenéticas dos alto-falantes e o ritmo hipnótico da bunda da mulher na esteira à minha frente, mas depois, na piscina, só pensava em Sam Everett, e no que ele fez com todas as informações que lhe dei. Era tentador, mas tão tentador, fazer um desvio por aquela casinha esquálida de dois andares no final da Hawthorn Crescent, mas em vez disso voltei para casa ao terminar de nadar.
Antes mesmo de desempacotar as compras, me senti arrebatado por tudo aquilo. Minhas mãos tremiam, retirando o jornal do saco de compras. Nunca me senti tão excitado na vida. A emoção de deixar alguém para trás entregue à transformação eclipsou totalmente a emoção de permitir a alguém descobrir o segredo, mesmo que não tenha sido o segredo completo, mesmo que não tenha sido eu a revelá-lo.
Queria gritar para todo mundo, mas aí o segredo não me emocionaria mais — e eu provavelmente seria preso. Eles me deixariam preso para sempre pelo que fiz. Será? Não fiz nada contra aquelas pessoas, além de ajudá-las a escapar do peso das vidas que vinham levando até então. No máximo, minha contribuição é catártica; uma misericordiosa libertação. Elas teriam se matado, mais cedo ou mais tarde, e meu método é infinitamente mais limpo, menos doloroso e, é bem possível que seja menos desordenado. Não fiz mal a ninguém. Simplesmente cristalizei seus pensamentos, incitei-as a agir, o que de outra maneira levaria muito tempo para acontecer, e durante esse tempo teriam sofrido, hesitado e, provavelmente, deixado muitas outras pessoas para baixo com ela. E eu as anestesiei também, para que, a partir do momento em que a decisão foi tomada, elas não sentissem dor alguma, não sofressem qualquer ferimento, tampouco angústia. Era perfeito.
Levo o jornal para cima, tiro a calça e a dobro sobre o mesmo cabide de onde a peguei de manhã. Também jogo a cueca no cesto de roupas. A expectativa me dá arrepios. Abro o jornal no meio, nas páginas centrais em cima das quais me masturbei no banheiro para deficientes físicos, na hora do almoço de ontem, e depois o estendo sobre a cama.
Ligo a televisão e, em seguida, aperto o botão play no controle remoto do DVD, que solta um chiado, um estalo e relampeja de vida. O mesmo filme pornô a que assisti no último fim de semana, uma bobagem americana com duas piranhas gordas se atracando como cães esfaimados. Segundos depois, desligo. Não está funcionando para mim; está me distraindo. O jornal, por outro lado, funciona. Aqueles rostos — todos sorridentes, felizes em cerimônias de casamento, com outras pessoas nas fotos, pessoas que fizeram parte do passado, cuidadosamente recortadas de suas vidas, cuidadosamente descartadas — e meu pênis fica tão duro que chega a doer, ainda machucado por causa da fricção que lhe causei no dia anterior, e na última noite, e no dia antes de ontem também, e ainda assim é tão gostoso, reconfortante poder segurá-lo novamente.
Desta vez, quando gozo alguns minutos depois, tomo cuidado para usar lenços de papel, deixando o jornal limpo e ileso para outro dia.