Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 26 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

PRIMEIRAMENTE, ASSIM QUE ESCURECEU, FUI ATÉ a casa na Newmarket Street. Não encontrei vaga para estacionar o carro, o que foi um pouco irritante. Acabei parando num espaço reservado para moradores na rua seguinte e voltei andando até a casa. Não vi sequer uma pessoa no caminho e, embora tenha verificado minha retaguarda antes de atravessar do jardim até a porta da frente, a rua estava silenciosa e deserta. Usei a chave sobressalente que ela me dera e, ao abrir a porta, um vulto entrou, atravessando como um dardo meu campo de visão — aquele maldito gato, sem dúvida. Fechei a porta e fiquei só escutando por um instante. O único som vinha do gato, miando de um cômodo dos fundos da casa. Fui até lá e achei ração dentro de um armário. Joguei um pouco do conteúdo dentro da tigela que estava no chão. Teria que deixá-lo sair novamente, e talvez devesse colocar um pouco de comida lá fora, para que ficasse quieto.

Lá em cima, ela dormia profundamente na cama. Encontrei uma cadeira perto da escada e a levei para o quarto, assim poderia me sentar e observá-la por um tempo. Ela estava tão imóvel e quieta que era quase possível imaginar, fingir que já havia morrido, que eu chegara no momento perfeito, no início do processo — as últimas respirações, exaladas dentro da atmosfera estagnada do quarto, as batidas cardíacas desacelerando, as células sanguíneas parando de correr pelo corpo, a tensão sumindo de cada músculo. Tudo apaziguante e calmo.

Em geral, só começo a me sentir excitado quando o processo de deterioração tem início, mas me imaginar ali no momento exato em que ela passasse da vida à morte era emocionante. Mudei de posição na cadeira para desfazer o repentino desconforto, e estava começando a abrir minha calça quando a ouvi suspirar. Meus gestos devem tê-la perturbado, pois a fizeram erguer a cabeça, abrir as pálpebras e olhar para mim.

Esbocei um sorriso benevolente e reconfortante.

— Durma — sussurrei.

Ela adormeceu novamente. Aquele momento perfeito e imperturbável se fora, e com ele minha excitação.

Alguma coisa roçou na minha perna e me assustou — o maldito gato outra vez. Eu me levantei, peguei-o com uma das mãos pela barriga e o levei para baixo, até a cozinha. A essa altura, ele já se contorcia e se debatia em meus braços. Destranquei a porta dos fundos e meio que o joguei, o larguei na noite.

Quando voltei para dentro de casa, levei meia hora até me livrar dos pelos do gato que ficaram na minha calça, usando uma fita adesiva. Não o alimentarei mais.

* * *

Já é tarde da noite e estou no computador com um copo de puro malte, explorando o mundo a partir da escuridão do meu escritório. Ouço Shostakovich. Estou muito mal-humorado esta noite para pensar em pornografia: será preciso buscar inspiração em meus livros.

Primeiro, biologia, e o tópico importante desta noite — os detritívoros, o assunto escolhido devido às imagens que vi depois do trabalho. Edward, acho que era este seu nome, ou talvez Eloise, aquele que se vestia como mulher e me enganou totalmente, até me confidenciar os detalhes de sua família miserável. Ele ou ela deixara a janela aberta no primeiro andar e, é claro, como nunca interfiro nos processos naturais, a janela permanecera aberta e, em consequência disso, os detritívoros chegaram logo e se fartaram.

Minhas fotos digitais costumam ser bem estáticas, mas as que fiz de Edward foram um verdadeiro dramalhão.

Detritívoros — organismos vertebrados ou invertebrados que consomem matéria orgânica em decomposição — são atraídos para os seus alimentos pelo odor. Diferentes odores são produzidos como derivados do objeto em questão em diversos estágios do processo de decomposição, o que significa que o consumo, a reciclagem ou a destruição (como preferir) do morto é realizado por uma variedade de detritívoros. Em outras palavras, não se trata de uma comilança frenética. As moscas varejeiras gostam de alimento fresco. As larvas das traças tineídeas e piralídeas só consomem restos pútridos quando estão secos e não aparecem até que as varejeiras tenham terminado. É um banquete que a natureza organiza cuidadosamente por estágios, uma série de processos dispostos uns após os outros, com os aromas perfeitos — para atrair apenas os convidados que apreciarão cada sabor — oferecidos precisamente nos momentos exatos.

Quando acabei de me deliciar com minha paixão pela biologia, guardei as imagens e os cadernos no esconderijo deles e passei para o tópico menos controverso da Programação Neurolinguística.

O professor do curso de PNL chama-se Nigel. Ele trabalhou na bolsa de valores, um tempo atrás, sem ser muito bem-sucedido inicialmente, até descobrir a PNL. Depois disso, se dermos crédito ao que diz, teve tanto sucesso que foi capaz de se aposentar com trinta e dois anos. Concluíra que a vida de corretor era estressante demais e passou a trabalhar como professor em meio período. E é assim que ele divide seus conhecimentos conosco.

Justiça lhe seja feita, ele é quase sempre bem divertido. As aulas em grupo começam com uma estrutura aparentemente firme, mas em seguida caímos em piadas engraçadas sobre as experiências de Nigel na bolsa — ou então sobre as tentativas de um ou outro participante de pôr em prática as técnicas aprendidas — e no final da aula, o professor revela com um floreio dramático que, depois de nos treinar por tanto tempo, o que aprendemos hoje foi realmente algo bastante inusitado.

Em certa ocasião, quando ele afirmava estar nos ensinando a desviar uma conversa do confronto e conduzi-la no sentido de chegar a uma solução, acabou nos contando uma história sobre como ele usava a PNL para dormir com a mulher que quisesse.

Naquela noite, éramos seis na sala de aula. Lisa não estava presente, por algum motivo, deixando Alison com cinco homens. Alison trabalhava num banco. Seu interesse com aquele curso era aprender um meio de aumentar sua confiança ao lidar com os clientes, especialmente os mais complicados. Ela queria se tornar capaz de transformar uma reclamação numa venda.

Era possível perceber que Nigel estava guardando esse tópico em particular pelo seu jeito de saborear a expectativa ao contá-lo. Alison estava inquieta em sua cadeira, assim como o coroa que mudava de um curso noturno para outro, regularmente — ele já estivera em três outros cursos que eu fizera —, um modo de escapar dos horrores de ter que iniciar uma conversa com a esposa. Mas os outros — dois rapazes, Roger e Darren, que esperavam construir uma carreira na área de vendas, e o produtor musical que queria influenciar os críticos — estavam atentos a cada palavra do professor.

Ele conseguira conquistar a mulher, é claro, porque Nigel não falhava em nada e, se fosse o caso, não estaria contando logo aquela história. A mulher que ele queria tinha ficado desamparada e impotente diante de seu charme. Conseguira dormir com ela e acabaram engatando uma relação que durara três anos. E então, ela teve que se mudar para os Estados Unidos a fim de dar continuidade à sua carreira de atriz e modelo. Tudo acabara de forma amigável. E foi então que ele conheceu sua esposa, e não usou nenhuma técnica de PNL para seduzi-la, o que também foi um sucesso.

E a moral da história, em parte, era que tudo isso era imoral. A PNL era uma ferramenta poderosa que deveria ser usada com integridade, disse ele. Funcionava melhor quando as pessoas se serviam dela para gerar um resultado positivo e fortificante para ambas as partes. Tratava-se de técnicas de aperfeiçoamento que todos os seres humanos tinham, mas não se davam conta. Era tentar ser o melhor possível. Se a mulher não se sentisse atraída por ele, argumentou Nigel, ela jamais sucumbiria às suas sugestões e influências cuidadosamente planejadas. Era uma questão de maximizar as oportunidades que já existiam, não falsificá-las ou levar as pessoas a fazerem coisas contra a própria vontade. Era preciso conduzi-las por um caminho por onde elas já estavam pensando em seguir. Era necessário incentivá-las a fazer o que queriam, mas não tinham coragem, concentração ou determinação para fazerem sozinhas.

Como Nigel costumava dizer, todos saíam ganhando.

Eu me esforcei ao máximo, mas não conseguia ver como algo do que dissera significava que eu não deveria usar essas técnicas para seduzir uma mulher. Sairíamos todos ganhando, não é?

Pensei bastante em tudo isso. A ideia foi crescendo e se espalhando em mim como um melado, a ponto de eu não conseguir pensar em outra coisa. Poderia encontrar uma mulher que se sentisse razoavelmente atraída por mim e, em vez de arruinar minhas chances dizendo as coisas erradas, eu poderia fazer com que se interessasse por mim, gostasse de mim. E talvez, por que não, fazer com que quisesse dormir comigo. E, depois disso, presumivelmente, se fôssemos compatíveis e eu gostasse dela o suficiente para continuar com aquilo, talvez pudesse mesmo acabar resultando na coisa mais dramática e inesperada: Um Relacionamento. Li vorazmente tudo sobre o assunto, todos os livros que encontrei, todas as páginas da internet que discutiam o Modelo Meta em oposição ao Modelo Milton, espelhamentos, estratégias, calibragem, transes diários. Pratiquei no trabalho, muito embora fosse incômodo; eu puxava conversa com Martha e com os outros e depois observava a mudança embaraçosa deles, passando da cautela para uma espécie de aceitação reservada. Era inegavelmente fascinante. Funcionava, e quanto mais eu me empenhava, maior ficava minha confiança.