Restos Humanos
Annabel
EU NÃO SABIA ABSOLUTAMENTE NADA SOBRE como planejar um funeral, mas, quando fui ao cartório de manhã pegar o atestado de óbito da minha mãe, eles me deram um folheto com uma lista útil para me guiar, e ainda outra, com os endereços dos agentes funerários. De volta em casa, sentada à mesa de jantar com um bloco de notas e uma caneta à minha frente, só ouvi recados gravados com os horários de atendimento, dizendo o quanto apreciariam que retornasse as ligações. No terceiro que tentei — Co-operative Funeralcare — fui atendida por um ser vivo.
— Minha mãe morreu — falei, à guisa de introdução.
A mulher que me atendeu era muito calma e profissional. Ela me disse que sentia profundamente a notícia e que a melhor coisa a fazer a partir dali seria que eles viessem me ver para discutir possíveis opções para o enterro.
Olhei ao redor da sala de estar, para o estado em que estava.
— Posso ir até aí? — perguntei. — Sair um pouco me faria bem.
Eu me sentia tonta depois de tudo aquilo, fora brusco demais e minha rotina fora intensamente perturbada. Mal tinha dormido, nem feito uma refeição de verdade, e isso já fazia alguns dias. No dia anterior, tinha ido para cama cedo e, após duas horas de desassossego, me levantei e assisti a televisão até as quatro da manhã. Depois, voltei para cama e, ao acordar outra vez, eram dez para as onze. Eu me sentia à deriva, como se estivesse precisando de algum tipo de plano ou propósito, e alimentei a gata — que não estava interessada — e depois preparei torradas, que acabei não comendo. Decidi então me recompor, começando a planejar o funeral da minha mãe.
No fim do dia, fui de carro até o pequeno centro comercial na periferia da cidade, um bloco de concreto com corredores repletos de lojas, no final das quais estava o Co-op, onde eu costumava parar na volta do trabalho, onde fazia compras para a minha mãe. Bem ao lado do supermercado, para minha surpresa, embora devesse estar ali há anos, ficava a Co-operative Funeralcare.
Fiquei uns minutos do lado de fora, pois estava adiantada, olhando as lápides pela vitrine. A maioria tinha esculturas da Virgem Maria, as mãos acolhedoramente estendidas, ou de Jesus apontando para o próprio coração. Havia também um anjo de aparência triste. Na extremidade, uma lápide simples, feita de granito vermelho, as únicas palavras gravadas nela com uma caligrafia pomposa e dourada: “Com amor e saudades”. Nenhuma, como eu estava esperando, tinha uma simples indicação, como: “Ponha o nome da pessoa amada aqui”.
Entrei na loja.
— Sra. Hayer?
A mulher atrás do balcão estava sobriamente vestida com uma blusa branca e uma saia cinza-escuro, uma mecha de cabelo loura descolorida enfiada cuidadosamente atrás de cada orelha com brincos de diamante. Ela me olhou com seus olhos azuis solidários, inclinando um pouco a cabeça para o lado.
Não vou começar a chorar, eu queria dizer. Não se preocupe, não vou desabar.
— Sou eu, sim — consegui falar finalmente, estendendo a mão. — Você deve ser Jackie.
Ela me levou até um escritório no fundo da loja que parecia uma sala de estar, sofás confortáveis, mas com encostos verticais, uma mesa baixa onde havia vários álbuns com capa de couro e uma caixa com amostras de tecidos. Na parede, uma grande ilustração emoldurada de uma paisagem silvestre encoberta pela neblina. No canto, uma planta enorme e vigorosa reinava num vaso. A janela dava para o estacionamento nos fundos, onde pessoas passavam carregando suas compras.
Jackie me mostrou as opções para organizar um funeral. Eles podiam fazer todo o trabalho por mim, disse ela, desde o caixão até o transporte, cuidariam da falecida, planejariam a missa junto com o crematório ou na igreja de minha escolha. Ou ainda, se eu preferisse, o que algumas pessoas escolhiam hoje em dia, poderiam fazer um serviço muito bonito e humano e realizar um sepultamento natural num bosque especialmente destinado a este fim. E tudo isso poderia ser feito mediante um custo módico, com opções de parcelamento sem juros, se necessário.
Eu só queria assinar e pronto, me livrar daquilo. Ela ergueu o olhar para o relógio na parede, acima da minha cabeça, e disse que provavelmente seria melhor eu pensar um pouco e, se estivesse de acordo, nos veríamos no dia seguinte. Ela me deu um catálogo com vários modelos de caixão e cores de madeira, mais um sobre os enterros no bosque e um maço de outros papéis.
Quando saí e fiquei de novo embaixo da arcada do centro comercial, fazia frio e já anoitecia. A maioria das lojas estava fechando. Fiquei ali por um instante, desorientada, me perguntando como o dia podia ter passado tão depressa.
— Você está bem?
Eu me virei e me surpreendi ao ver um homem em pé ao meu lado. Ele era alto, usava um blazer marrom com uma echarpe em torno do pescoço e, apesar de ter a cabeça raspada, era mais jovem do que aparentava ser. Ele não estava sorrindo, mas mesmo assim parecia me conhecer.
— Estou — respondi. — Está tudo bem.
— Ótimo — disse ele.
Por um instante, ele hesitou, ao meu lado. Eu o conhecia? Achei que devia saber o nome dele e, mentalmente, arrisquei alguns. Ian? Não, não era esse… Dave? Simon? O problema, ao reconhecer de repente as pessoas, era que seria possível eu o conhecer do trabalho — não como um colega, mas sim como objeto de trabalho — alguém sobre quem eu pesquisara, um nome cujo rosto me era familiar e ainda assim, com quem nunca falara, nunca falaria.
Ele pôs a mão no meu braço.
— Escute — disse ele gentilmente —, só achei que parecia estar perdida.
Sua mão continuava no meu braço, cálida e bem firme. A impressão era de que eu estava me inclinando na direção dele. Como se eu o tivesse tocado, e não ele, algo muito curioso. Ao mesmo tempo em que tinha consciência de que aquilo era estranho, injustificado — mesmo com todas aquelas camadas de roupa entre a pele dele e a minha —, ser tocada daquela maneira era reconfortante. Aquilo me consolava. Senti um conflito interior entre a parte de mim que considerava aquilo desnecessário e intrusivo, e a parte que precisava ser reconfortada.
E a palavra veio borbulhando dentro de mim, como se tivesse sido cavada até o fundo e, em seguida, liberada.
— Não — retruquei. — Perdida, não. Não estou perdida. Estou apenas…
— Como você se chama? — perguntou ele.
— Annabel. E você?
Sua mão ainda estava no meu braço e, depois, ele a escorregou para longe de mim. Senti um frio repentino naquela parte do braço, como se uma corrente de ar passasse por ali. Ao nosso redor, as pessoas pareciam apressadas para voltar para suas casas, carregando sacos de compras, agasalhadas para se proteger da brisa que soprava pelos corredores. Tive a impressão de recuperar a consciência. Podia ouvir ruídos, pessoas falando; duas senhoras idosas saíram do salão de beleza ao lado, rindo, com capuzes de plástico transparente cobrindo os penteados recentes.
— Ed — disse ele. — Meu nome é Ed.
Seus olhos eram verde-escuros. Não me lembrava de já ter observado um par de olhos e identificado sua cor antes. Se me perguntassem qual era a cor dos olhos da minha mãe, de Kate, de Sam Everett, não seria capaz de dar uma resposta exata. Mas os olhos dele eram verdes.
— Não parece certo — falei.
— O que você quer dizer? — perguntou ele. O tom de sua voz havia mudado: soava desconfiado, prudente. Não gostei nem um pouco daquilo. Era como se tivesse havido alguma espécie de teste e eu fracassara.
— Esse não parece ser seu nome verdadeiro.
Ele riu, mostrando os dentes.
— É mesmo? Mas garanto que é.
— Ed — repeti.
— Exatamente. Você precisa se lembrar disso.
— Sei — respondi. — Bem, precisarei voltar aqui amanhã de manhã.
— Ok. Encontro você aqui amanhã.
— Tudo bem — falei.
Acho que ele falou algo mais. Ele dissera outras coisas também, coisas das quais não conseguia me lembrar.
Alguns minutos depois disso, ou talvez uma hora, ou quem sabe um dia inteiro, eu estava de volta no meu carro no estacionamento, com o motor funcionando. O aquecedor estava ligado e fazia calor lá dentro. Olhando pelo vidro do carro, na escuridão, o estacionamento parecia quase vazio. Não havia ninguém mais ao redor. Olhei o relógio e vi que já passava das seis horas. A que horas eu saíra da funerária? Parecia ter sido somente alguns segundos atrás, como se tivesse saído da loja, entrado no carro, ligado o motor e então esperado que algo acontecesse. Era como se o tempo tivesse saído do meu alcance.
— Que coisa mais estranha! — falei em voz alta.
Era como despertar lentamente. Da mesma forma quando você está deitada na cama no meio da noite e se dá conta de que está acordada, não adormecida, mas ficou deitada em cima da própria mão e ela está entorpecida, parecendo pertencer a outra pessoa e você precisa permanecer deitada, quieta, aguardando que ela volte a fazer parte do seu corpo. Era assim que eu me sentia. Mas também estava bem, confortavelmente aquecida dentro do carro.
E então percebi o que havia acontecido. Acabara de encontrar meu anjo.