Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 50 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

— MERDA! — EXCLAMOU SAM, APÓS MEIA HORA sentado no carro, sem que nada acontecesse. Então ligou o motor.

— Até que enfim. Podemos ir para a delegacia agora, por favor?

Ele me olhou atentamente.

— Você está bem? Sinto muito, não pensei que… ver esse cara outra vez…

— Não é isso — falei, depressa, embora quase tivesse sofrido um ataque cardíaco quando Colin olhara da rua diretamente para onde eu estava sentada. — Preciso voltar para o trabalho…

— Eu já disse — retrucou ele, seguindo para a rua principal —, eles não estão esperando que você apareça por lá; você ainda deveria estar de licença. E, além do mais, precisamos cuidar de algo bem mais importante.

No final das contas, Lindsay Brown morava bem perto de Colin, na direção do centro da cidade. Era uma residência imponente que fora dividida em alguns apartamentos. Lindsay e Audrey moravam no do térreo.

— Pois não? — disse ela, abrindo a porta antes que tivéssemos oportunidade de bater.

— Lindsay? — perguntou Sam. — Sou repórter do Chronicle. Você conversou mais cedo com um dos meus colegas, eu acho.

— Foi… Mas estou justamente saindo para trabalhar.

— Ah, desculpe-me — disse ele com uma expressão realmente pesarosa. — Achei que conseguiria falar com você antes que precisasse sair.

Ela hesitou com uma das mãos na porta, olhando alternadamente para mim e para Sam.

— Bem, já que estão aqui. Tenho cinco minutos. Querem entrar?

A sala estava impecável, repleta de mobília antiga de estilos diferentes, mas mesmo assim o lugar era acolhedor e o acesso à cozinha se dava sob um amplo arco. As louças lavadas na véspera estavam dispostas na pia.

— Aceitam um chá ou algo assim?

— Isso seria ótimo, obrigado — agradeceu Sam. — Posso usar o banheiro?

— Fica no final do corredor — disse ela, enchendo a chaleira, enquanto Sam saía apressado. Eu me sentei, envergonhada, na beirada de um sofá baixo.

— Vocês sempre andam em dupla? — perguntou ela enquanto a água começava a ferver.

— Eh… Hum… Não. Eu só… só estou acompanhando ele.

Ela pareceu perplexa.

— Como assim? Para ganhar experiência profissional?

— É, tipo isso.

Com certeza, eu parecia muito velha para estar ganhando experiência profissional na imprensa, mas, se fosse lhe contar a verdade, levaria tempo demais.

Quando Sam voltou, Lindsay havia colocado três canecas de chá na mesa, junto de uma tigela com açúcar e algumas colherinhas. De repente, me senti faminta e estava quase lhe perguntando se tinha uns biscoitinhos.

— Você se importa se eu…? — Além do bloco de notas e da caneta, que já pegara em sua bolsa de lona, Sam mostrou seu celular para Lindsay. — Não consigo anotar direito, sempre esqueço alguma coisa…

— Vá em frente.

— Obrigado.

Ele ativou a função gravador no telefone e o colocou na mesa baixa diante dela.

— Faz muito tempo que você e Audrey dividem este apartamento?

Com a caneca de chá entre as mãos, percebi o quanto estava relaxada e teria sido fácil prever sua resposta.

— Não, apenas alguns meses. A outra menina que morava comigo viajou. Audrey se interessou pelo anúncio que, aliás, saiu no Chronicle. Isso deve ter sido em… Fevereiro? Março?

— Vocês se davam bem?

— Sim, acho que sim. Para ser honesta, não nos víamos com muita frequência.

— Ela saía muito?

— Ficava na casa do namorado, a maior parte do tempo. Não dormia muito aqui e, geralmente, quando chegava em casa, eu já estava na cama.

— E esse namorado era Vaughn Bradstock?

— Ele mesmo. Um sujeito engraçado, o cara. Mas eles pareciam se dar bem, quer dizer… até semana passada.

— Eles brigaram? — Sam se mexeu na cadeira e tomou um gole de chá.

— Terminaram. Acho que foi por vontade dela.

— Você sabe por quê? — perguntei.

Sam me lançou um olhar estupefato, afinal era ele que estava entrevistando Lindsay, mas eu me sentia como uma peça sobressalente e, além disso, estava curiosa.

— Ela disse apenas que tudo estava muito chato. Ela gostava bastante dele, mas acho que procurava algo mais… excitante? Imagine só, o cara coleciona selos. Quem coleciona selos hoje em dia e naquela idade?

— Ela ficou muito atormentada com isso? — perguntei. — Quero dizer, você acha que ficou deprimida?

— Eu não diria tanto. Ela chorou um pouco, mas depois começou a planejar uma saída à noite com as amigas.

Isso me fez franzir as sobrancelhas.

— Quando foi a última vez que você a viu, então? — indagou Sam, retomando sua lista de perguntas.

— Sexta-feira. Ela ia sair depois do trabalho. Era o aniversário de alguém, eu acho. Ela estava bem animada. Com vontade de sair e conhecer alguém interessante.

— Você viu quando ela saiu?

— Vi. Estava toda arrumada; linda mesmo. Eu me lembro de ter pensado que ela tinha grandes chances de se dar bem, vestida daquele jeito.

— Mas ela não voltou para casa?

— Fiquei fora durante todo o fim de semana, fui visitar alguns amigos em York. Quando retornei, domingo à noite, soube na mesma hora que ela não tinha voltado para casa. Todas as roupas que experimentara antes de sair na sexta-feira ainda estavam em cima da cama.

— E você ligou para a polícia?

— Mandei uma mensagem de texto e tentei ligar para Audrey, mas o celular dela estava desligado. Pensei em telefonar para Vaughn, mas então pensei melhor, pois talvez ela estivesse com outro cara. Não queria envolvê-lo nessa história.

Lindsay deixou a caneca vazia na mesa e olhou ostensivamente para o relógio.

— Sinto muito — disse Sam. — Só mais uma pergunta: quando foi que você denunciou o desaparecimento dela?

— A primeira coisa que fiz hoje de manhã foi ligar para o trabalho dela. Na Arnold’s, é lá que ela trabalha. Só queria ter certeza de que estava bem; afinal de contas, não tinha levado roupa alguma com ela… ou coisa parecida. E eles disseram que ela não fora trabalhar e é uma pessoa sempre pontual. A moça com quem falei ficou bastante preocupada quando lhe disse que não a tinha visto. Então, depois disso, liguei para a polícia.

— Sabe com quem você falou no trabalho dela?

— Cheryl, era esse seu nome se não me engano. Eu me lembro vagamente de ter ouvido Audrey falar sobre ela, acho que se davam bem. Cheryl disse que a vira pela última vez subindo a rua sexta-feira à noite; não estava a fim de ficar esperando um táxi. Ela voltou para casa sozinha.

* * *

— Agora podemos ir para a delegacia, por favor? — falei, ao voltarmos para o carro.

Sam estava sentado no banco do motorista. Ele não tinha ligado o carro e olhava fixo para a frente com as mãos no volante.

— Sam?

— Não quer ir conversar com Cheryl? — perguntou ele.

Seus olhos brilhavam de excitação. Eu nunca o vira daquele jeito. Será que ele estava assim quando nos sentamos para tomar um café, no dia em que nos conhecemos? Naquela época eu andava tão desconfiada. Talvez ele estivesse se controlando um pouco.

— Quero me certificar de que a polícia está procurando Audrey — respondi.

— Tente ligar para eles mais uma vez — disse ele, ligando o motor, por fim. — Se alguém estiver lá, deixo você no caminho.

É claro que não havia um único infeliz para atender o telefone. Estavam todos em reuniões matinais, que era onde eu devia estar naquele momento. Eu me perguntei o que aconteceria se faltasse o trabalho. Será que notariam minha ausência?

A Arnold and Partners ocupava todo o segundo andar de um prédio atrás da Market Square, com vista para um bingo que já fora um cinema que eu frequentara na adolescência. Encontramos uma vaga no estacionamento privado e seguimos para o prédio.

— É isso o que você faz o dia todo? — perguntei. — Anda por aí incomodando todo mundo?

— Não estou incomodando ninguém. Estou?

— Humm…

Eu estava com os braços cruzados no peito. No fim da rua, podia ver o telhado da delegacia, coberto de antenas, as paredes de granito e concreto cinza, à moda dos anos 1960.

— Eu devia estar agora na reunião do editorial — disse ele. — Mas, tecnicamente, hoje é meu dia de folga, portanto, ninguém vai sentir minha falta.

— Por que estamos fazendo isso no seu dia de folga?

Então, ele parou e se virou para mim.

— Estou começando a me arrepender de não ter levado você para o trabalho logo de manhã.

— Eu também gostaria de estar no trabalho!

Nós nos encaramos.

— Você não quer ajudar a encontrar Audrey? — perguntou ele.

— Não é nosso trabalho encontrar Audrey! — explodi. — Por que você não confia na polícia para fazer isso?

— Desconfio de que eles não avançaram tanto neste caso quanto eu — respondeu ele, ainda totalmente calmo.

— Eles só trabalham a partir das informações que recebem — afirmei. — E, no momento, tenho informações cruciais para passar para eles, mas, em vez disso, estou perdendo tempo na frente de uma empresa de contabilidade como se eu fosse Nancy Drew. — Pela sua expressão, pude notar que ele não fazia a menor ideia de quem era Nancy Drew. — Ou um desses adolescentes metidos a detetives — emendei, sem jeito.

— Você não precisa vir comigo — disse ele. — Se quiser, posso ir buscá-la mais tarde. É só me mandar uma mensagem ou algo assim.

— Ótimo — respondi, acenando para ele e marchando rua abaixo, tentando parecer determinada.

A reunião matinal acabara de terminar quando cheguei. Trigger e Kate voltaram para o escritório conversando e rindo, sem sequer se darem conta de que eu estava sentada na minha mesa.

— Perdi muita coisa? — perguntei, por fim, também para lhes lembrar de que eu estava viva e respirando como todo mundo.

— Que naaada — respondeu Trigger. — O inspetor Frost está fazendo uma tempestade em um copo d’água porque o chefe vai aparecer na televisão hoje à tarde. Mesas arrumadas e gravata no pescoço, sabe? Aliás, bem-vinda de volta. Você está… está bem?

Como se eu estivesse de licença por causa de um resfriado ou algo assim.

— Estou sim, obrigada — respondi. — Estou bem melhor agora.

Kate tinha ido para a sala ao lado, provavelmente para convocar suas colegas a fazer uma pausa para o café.

Achei o nome de Lindsay Brown no registro de ocorrências, além do endereço no qual Sam e eu tínhamos tomado chá naquela manhã.

 

CHAMADA DE UMA PESSOA INFORMANDO QUE SUA AMIGA NÃO VOLTOU PARA

CASA NESTE FIM DE SEMANA

*

A AMIGA SE CHAMA AUDREY MADISON 36 ANOS CABELO CASTANHO-ESCURO

OLHOS AZUIS F507 CELULAR 07670 212 212

*

AUDREY SAIU COM AMIGAS NA NOITE DE SEXTA E NÃO FOI MAIS VISTA

DESDE ENTÃO — NO TRABALHO INFORMAM QUE NÃO COMPARECEU ESTA

MANHÃ

*

CELULAR DESLIGADO

*

NAMORADO DE AUDREY CORREÇÃO EX-NAMORADO É VORN BRADSTOCK

MORA EM BRIARSTONE NÚMERO TEL 07672 392 913

*

INFORMAR INTELIGÊNCIA DISTRITO CRIMINAL — CONSELHO DADO À

INFORMANTE

Então era isso. Só isso mesmo. Não havia mais nada no relatório. O que não significava que algo estava acontecendo, é claro, apenas que não houvera atualizações desde então — olhei novamente — 9h15 hoje de manhã.

Havia outra coisa que me incomodava também. Keith Topping dissera que não tinham ido muito longe com os dados do Sistema Automático de Identificação de Placas porque não havia câmeras nos lugares certos e o espaço de tempo era simplesmente amplo demais para fornecer um conjunto útil de dados. Mas esse espaço de tempo é bem menor… E não havia uma câmera de vigilância na rua principal, a partir da Market Square.

Abri o programa SAP e comecei a preencher o formulário, deixando em branco o campo para a placa de identificação do veículo. Resumi as câmeras a serem incluídas a apenas uma — Baysbury Road, direção norte. E o horário — a que horas Cheryl Dann tinha se despedido dela?

Peguei meu celular e enviei uma mensagem para Sam.

Pergunte a Cheryl a que horas ela deixou Audrey e onde. É urgente. A.

Enquanto aguardava uma resposta, dei busca em um período de tempo, só para ver qual seria o resultado: das onze até meia-noite. Somente uma hora, uma câmera e o sistema reagiu como se eu o estivesse obrigando a fazer um trabalho manual. O processador começou a zumbir de modo alarmante. Abri outra janela no computador da Polícia Nacional e busquei por veículos que tivessem ligação com o Sr. Colin Friedland, de Briarstone, mencionando a autorização do inspetor Frost.

Aparentemente, ele tinha um Ford Fiesta azul.

Um minuto e meio depois de acionar a busca pelo sistema SAP, tive mil setecentas e cinquenta e nove respostas como resultado. Coloquei o número da placa do Fiesta de Colin no espaço de busca dos resultados.

Nada.

Meu telefone tocou com a resposta de Sam.

À meia-noite ela estava subindo a Baysbury Road. Por quê? S.

Não me dei o trabalho de responder. Fiquei contrariada porque o carro de Colin não foi identificado na Baysbury Road naquela noite, como eu esperava. Ainda assim… havia algo mais. Eu me sentia tão perto, a sensação de estar certa e de, possivelmente, encontrar alguma coisa útil. Algo que pudesse fazer a diferença…

Voltei ao formulário e mudei os parâmetros de horário para dez minutos antes e depois da meia-noite.

Desta vez os resultados apareceram logo: duzentos e cinquenta e nove no total. Ainda eram muitos, mas havia a possibilidade de que, se Audrey tivesse entrado num carro após deixar sua amiga, aquela câmera a teria flagrado.

Fiz uma triagem para resultados de veículos com sistema de vigilância. Era provável que não conseguisse nada de interessante com isso, no fim das contas, mas a alternativa seria examinar cada um dos duzentos e cinquenta e nove veículos, na esperança de encontrar alguma coisa. Quinze resultados. Analisei todos eles: Sem seguro… Sem registro… Inadimplente… Vários haviam sido assinalados pelo escritório principal, portanto deviam estar associados a transgressores conhecidos. Era provável que alguns deles tivessem restrições para sair à noite e, assim sendo, dificilmente levariam a qualquer coisa.

Roubo de placa de identificação do veículo.

Cliquei nesse boletim de ocorrência e acessei os detalhes. O proprietário era identificado como Sr. Garth Pendlebury, e o roubo havia acontecido na Wright’s Way, a rua atrás do prédio da prefeitura. O Sr. Pendlebury trabalhava lá e percebeu o roubo ao voltar para seu carro, no fim do expediente, na noite de quinta-feira. Não havia suspeitos. Nenhum outro veículo roubado na área. O carro foi identificado como sendo uma van Volvo V40 branca.

Voltei para os resultados e acessei o link das imagens das câmeras. O carro associado à ocorrência tinha passado pela câmera, seguindo para o norte, às 00h07. Esperei baixar a imagem, sabendo que estaria escuro e seria impossível descobrir grande coisa sobre ele.

Mas me enganei. A câmera estava em um poste de luz e, para variar, era possível ver o carro direito.

Ele não era branco, com certeza era de uma cor escura, levando em conta os efeitos do poste de luz. No entanto, o mais importante: não era mesmo uma van. Era bem menor. Eu não sabia exatamente que modelo era, mas parecia bastante com um Ford Fiesta.

Congelei a tela do computador, me levantei, passei por Kate e segui para Sala de Operações Especiais, no andar superior.

Bati à porta, depois a abri e entrei. A sala estava lotada de gente, que se movimentava, fazia ligações, mas todos ignoraram minha presença. O escritório do inspetor chefe estava vazio e não havia sinal de Frost, tampouco. Senti o pânico se deflagrar em meu peito.

— Está se sentindo bem? — perguntou-me uma mulher.

— Você sabe onde está o inspetor Frost? — perguntei. — Ou o inspetor chefe?

— O inspetor chefe saiu para uma reunião no Quartel-General — disse ela. — Quanto a Frost, não sei. Você o procurou no seu escritório?

— Já liguei para ele várias vezes e deixei recado. É mesmo muito urgente.

— Há alguma coisa que eu possa fazer?

Só então olhei para ela: calça jeans, uma blusa azul pálido por cima de uma camiseta branca, cabelo castanho preso num nó frouxo na parte de trás da cabeça. Seu distintivo policial a identificava como Agente Jenna Jackson. Parecia jovem. Mas ela me perguntara e, na falta de outra pessoa, teria que ser com ela mesmo. Ela teria que servir.

— Sou analista de dados — expliquei. — Estava trabalhando neste caso até pouco tempo.

— Eu sei — disse ela. — Você é Annabel, que nos levou até Colin Friedland graças aos dados telefônicos. Li seu relatório.

— Você leu?

— Venha se sentar — disse ela, apontando para sua mesa no canto.

Ela havia ficado com o menor cercadinho, ou talvez tivesse sido a última a chegar à reunião pela manhã. Todas as mesas eram compartilhadas, mas a sua era a menor de todas e estava abarrotada com tralhas de outras pessoas.

— Eu não deveria estar aqui — confessei. — Eles me afastaram do caso.

— É, ouvi falar. Aceita um café?

— Ah… sim, seria ótimo.

— Como você prefere?

— Hum… Do jeito que for mais fácil. Pode ser puro. Obrigada.

A única conveniência de sua mesa era o fato de estar próxima da geladeira, em cima da qual havia uma bandeja encardida coberta de pilhas de canecas de vários tamanhos e níveis diferentes de limpeza. E colheres, marrom-escuras com marcas de tanino incrustadas de açúcar. Café e chá haviam enchido as canecas e secado. Uma delas era marrom, do tipo que costumavam dar como brinde nos postos de gasolina, parcialmente cheias de algum líquido, que já criava uma camada de fungos no interior. Eu podia apostar que essa mesma espécie de natureza-morta se reproduzia em quase todas as delegacias do país.

— Pronto — disse Jenna. — Pode falar.

— Você está sabendo de alguma coisa sobre Audrey Madison?

— Quem é Audrey Madison?

Eu lhe contei sobre Audrey e Vaughn, e a ligação deles com Colin, e ela começou a fazer anotações. Eu lhe disse que havia me encontrado com Lindsay pela manhã e mencionei Cheryl, que trabalhava no mesmo escritório que Audrey. Falei sobre o carro pequeno de cor escura que podia ser um Fiesta seguindo pela Baysbury Road sete minutos depois da meia-noite, com uma placa roubada. Bebi um gole de café. Estava simplesmente asqueroso.

— Só quero ter certeza de que estão investigando isso — concluí.

— Tenho certeza de que sim — disse ela, me tranquilizando.

— Você não está entendendo. Se Colin a pegou na noite de sexta-feira, é possível que ela esteja sem comida e água desde então. Ele vai esperar que ela morra. Quero dizer, ele está sendo vigiado? Com certeza, vocês não iriam soltá-lo sem alguma vigilância.

Ela pareceu incomodada.

— Até onde eu sei, ele devia estar sob vigilância, mas então aconteceu alguma coisa na Divisão Norte e ambas as equipes foram mobilizadas para outro caso.

— Eles acham que Colin não representa grande perigo — falei.

— Pelo que parece, ele se mostrou bem complacente — retrucou ela. — É sempre bem mais preocupante quando são instáveis. Ele foi interrogado e o acharam surpreendentemente racional.

— Você não acha que isso é ainda mais preocupante, considerando o que ele tem feito?

Ela encolheu os ombros e esboçou um sorriso.

— Essa decisão não cabe a mim.

— Mas eles não sabem sobre Audrey — insisti.

— Annabel, deixe isso comigo, ok?

E deixei com ela. Bebi metade do café, largando o resto e depois voltei para a sala principal.

Eu não conseguia acreditar que eles não o estavam vigiando e, ao mesmo tempo, considerando a espantosa carência de recursos e as questões burocráticas envolvidas, mobilizando o pouco de que dispunham, o que não me surpreendia. Colin podia estar fazendo qualquer coisa. Eu tinha mais certeza do que nunca de que ele pegara Audrey.

Trigger e Kate tinham sumido, o que era ótimo para mim. Se eu estava disposta a quebrar as regras, melhor ainda se não houvesse testemunha alguma. Entrei no Windows Explorer. Tinham permitido meu acesso aos registros criminais, onde todos os documentos ficavam armazenados, o Drive L. Certamente, não haviam sido eficientes o bastante para remover meu acesso. Engano meu. Só me restavam os arquivos do Setor de Inteligência. Tinham me trancado do lado de fora.

Apoiei a cabeça nas mãos, a sensação de urgência crescendo, latejando no meu peito e no meu cérebro, como uma dor.

Abri meu e-mail, pensando em enviar mensagens com marcador de urgência para o inspetor chefe, os demais inspetores, como meu último recurso. Havia duzentas novas mensagens na minha caixa de entrada, verifiquei todas e achei quatro enviadas por Frost. Soltei um grunhido de satisfação.

Quatro e-mails enviados de manhã bem cedo — após o inspetor chefe ter me afastado do caso, mas seguramente antes de falar sobre isso com Frost. E ele não se dera o trabalho de recuperá-los ou apagá-los. Todos tinham o mesmo assunto “dados telefônicos” e vieram com anexos. Açodada pela expectativa, abri o primeiro. Havia cinco planilhas de Excel anexadas. A mensagem dizia “A — segue o primeiro lote de dados do telefone de Colin. Mais, a seguir”. No segundo e-mail, a mensagem dizia somente “Mais dados para você”. E vinha com mais seis planilhas de Excel.

O terceiro e quarto e-mails não tinham mensagens, apenas outras planilhas. Merda, merda. Eu levaria semanas para analisá-las adequadamente, mas não tinha todo esse tempo. Abri cada uma das planilhas e as salvei no meu pendrive pessoal, assim eles levariam um tempão para descobrir — se aparecessem para procurar. Abri minha planilha em que estavam relacionados todos os números de todas as pessoas que identificara até então e comecei a adicioná-los — cada número que Colin usara, em outras palavras, cada chip que inserira em seu telefone, e as datas para os outros dados que Frost descobrira, para poder dispor de uma lista de referência a qual recorrer, quando tudo começasse a ficar confuso.

Relacionei os registros telefônicos com os já existentes — de forma que, agora, eu dispunha do restante dos registros de chamadas de Colin, para todos os seus outros chips.

E logo localizei o que esperava encontrar.

Assim como as chamadas feitas do chip de Colin para os telefones que a polícia encontrara com os cadáveres, havia outros números, com o mesmo padrão de ligações, remontando a datas anteriores aos extratos. Então havia mais pessoas lá fora que não tínhamos encontrado. Comecei a anotar isso. Quantas mais haveriam ainda? Fiz outra anotação para solicitar dados anteriores também. Ele fazia isso já havia muito tempo.

E então notei outra coisa — as chamadas para as vítimas não eram as únicas que ele tinha feito, havia um número de telefone fixo que aparecia em três conjuntos de extratos, e quando fiz uma busca na rede, descobri ser o telefone do Rising Sun Chinese, que fazia refeições para viagem, na Stafford Road, Briarstone. Mais um telefone fixo, com uma chamada, indicando o número de um asilo, Larches Residential Home, em Baysbury. Havia também o número de um celular — o mesmo que aparecia em dois extratos diferentes, com chamadas para ele. O fato de o número estar presente em mais de uma série de extrato era algo relevante. De quem quer que fosse o telefone era de uma pessoa viva e real, com quem Colin estava disposto a falar. E o último contato telefônico datava de quarta-feira na hora do almoço. Quaisquer que fossem essas pessoas, ainda estavam vivas.

Busquei o número na internet, para começar, mas não consegui encontrar nada. Depois, o inseri na base de dados criminais e tampouco consegui algum resultado. Prestando só um pouco de atenção, porque já percebera que aquilo não levaria a nada e ainda me restavam doze conjuntos de extratos para verificar, finalmente inseri o número na base de dados de ocorrências.

Ali surgiu uma correlação. Boletim de ocorrência 13-0189, com a data de hoje. O número parecia familiar e, quando cliquei no link, soube exatamente o motivo:

NAMORADO DE AUDREY CORREÇÃO EX-NAMORADO É VORN BRADSTOCK

MORA EM BRIARSTONE NÚMERO TEL 07672 392 913

Era o número de Vaughn. Colin havia sido tão cauteloso em relação à troca de chips, mas não foi capaz de se dar o trabalho o tempo todo e usara seu próprio telefone para falar com Vaughn.

Comecei a relacionar todas as minhas pesquisas e indagações. Verdade que eu não estava mais no caso, mas, se viessem me pedir uma justificativa da minha conduta, eu iria registrar todo o processo da minha linha de raciocínio para poder entregá-lo a alguém. Não estava fazendo isso por mera curiosidade ociosa, tampouco para obter qualquer ganho pessoal. Estava fazendo por Audrey. Apesar dessa justificativa, meu coração continuava acelerado; entrei na página de telefones investigados da intranet, cruzando os dedos. A operação ainda estava na minha lista de pesquisas — pelo menos, não haviam proibido meu acesso a ela! Graças a Deus. Fui até a lista de resultados e verifiquei se houvera mais algum, desde que Frost os enviara para mim.

Nada. Eu estava esperando um relatório da perícia sobre o telefone de Colin, o verdadeiro aparelho que havia sido apreendido, quando o prenderam para o interrogatório, mas, se tinham solicitado um relatório, este ainda não havia sido entregue. De vez em quando, pode levar semanas, dependendo do acúmulo de casos e do nível de urgência. E, como Colin fora liberado sem ter sido acusado, havia uma probabilidade pequena de ser considerado uma prioridade.

Os dados telefônicos do número do próprio Colin, o que ele fornecera, quando registraram sua entrada na Sala de Interrogatório, eram esparsos. Naquela quarta-feira, na hora do almoço, após uma breve chamada para o número de Vaughn, ele telefonara para o número 0845, que pertencia a uma central de atendimento aos clientes de um supermercado. E então, no sábado — depois de Audrey ser dada como desaparecida — ele recebeu três chamadas que não foram atendidas — a partir do número que eu identificara como sendo o do asilo Larches. Após cada uma delas, uma mensagem do servidor de Colin. Cada um desses contatos registrava uma localização de antena celular — as duas primeiras ligações e mensagens indicavam #WATER TOWER GRAYSWOOD LANE e a última chamada e mensagem apontavam #CAPSTAN HILL NR BLACKTHORNS.

Abri o programa de mapeamento. Eu conhecia a localização de várias antenas de celular, mas aquelas não me pareciam familiares. Grayswood Lane ficava a cerca de nove quilômetros da cidade, do outro lado de Baysbury, e Capstan Hill era uma rua longa e reta que seguia até Baysbury, onde, por fim, se juntava com a rua principal de Briarstone.

As duas primeiras ligações tinham três horas de diferença — às 11h05 e 14h18. Colin ficara por lá — onde quer que fosse — por um bom tempo. E a última havia sido duas horas mais tarde, às 16h33; pelo que parecia, estava voltando para casa.

Dei uma boa olhada na Grayswood Lane. Ficava realmente no meio de lugar algum, começando na junção com a Capstan Hill e, em seguida, serpenteava por quilômetros em meio a plantações, acabando abruptamente no que parecia ser uma trilha e algumas construções. Dei um zoom nas construções, que o programa identificou como fazenda Grayswood. Havia apenas algumas casas, pontilhando a extensão do caminho, as imagens aéreas mostrando os retângulos azul cintilante das piscinas. No meio do trajeto entre a fazenda, numa extremidade, e a Capstan Hill na outra, havia uma estrutura circular no centro de uma clareira. A torre da caixa d’água, pelo que eu desconfiava. É claro, a localização da antena de celular não era nem um pouco exata — a localização precisa de Colin quando recebeu aquelas ligações que foram ignoradas poderia ser em qualquer lugar dentro de um diâmetro de várias centenas de metros em torno da caixa d’água. Mas o mais provável era que o telefone estivesse em algum ponto da Grayswood Lane porque, senão, onde mais poderia estar? No meio da plantação?

Fiz uma pesquisa na base de dados sobre a Grayswood Lane. Houve um arrombamento na fazenda em junho — um trator foi roubado. Uma denúncia sobre distúrbios causados por motocicletas percorrendo o bosque foi feita de uma casa chamada Three Pines, na Grayswood Lane, em maio. Uma patrulha fora enviada, mas ao chegar lá as motos já tinham ido embora.

O cadastro eleitoral mostrou que havia ali cinco residências, além da fazenda no final da rua. Todas tinham um nome: Three Pines, Newlands Barn, The Old Manor, Woodbank e Pond House. Analisei cada uma delas, verificando os nomes dos moradores, no caso de aparecer alguma coisa, mas nada surgiu. Todas indicavam haver pelo menos dois residentes em cada endereço. Aquela situação estava começando a me parecer sem saída.

Atualizei meus registros com todas as pesquisas e ia anotando tudo o que encontrava, sem conseguir chegar à conclusão alguma. A não ser que o telefone de Colin tinha estado na vizinhança de Grayswood Lane, provavelmente por várias horas, no dia posterior ao desaparecimento de Audrey. Mas não havia nada que o implicasse no seu sumiço. Não havia muito que eu pudesse fazer. Os e-mails com prioridade alta que eu enviara ao inspetor chefe e ao inspetor ainda não haviam sido lidos. Tentei ligar para os celulares de ambos uma última vez, só para ter certeza, e deixei outra mensagem na caixa postal.

Pouco antes de desligar meu computador, enviei meu registro e minhas anotações por e-mail, junto com a lista de números adicionais para Frost. Só por precaução. Peguei meu casaco e saí do distrito policial pela porta dos fundos enquanto ligava para Sam.

* * *

Meia hora mais tarde, estávamos parados na rua, a algumas casas acima da de Colin, dissimulados pela ligeira curva da rua e fora do campo de visão das janelas.

— Eu não deveria estar aqui — falei. — Já cheguei tão atrasada de manhã.

— Não se preocupe — replicou ele. — Vamos chamar isso de um longo almoço, se a deixa mais feliz. E como estou sempre dizendo, você ainda está de licença por causa do falecimento da sua mãe, ou licença médica, ou sei lá o quê. Nem devia ter ido trabalhar hoje, para começo de conversa.

— Não é tão simples assim. Preciso cumprir meus horários de trabalho, sabe?

Sam estava me falando de Cheryl, a amiga de Audrey. Ela parecera um pouco relutante, pois acabara de ser interrogada por um policial — o que me confortou bastante. Isso significava que pelo menos estavam levando a sério o desaparecimento de Audrey. Ela havia deixado Audrey por volta de meia-noite no centro da cidade, pois ela morava ali perto, rua acima, a pouco mais de um quilômetro, e não quisera esperar para rachar um táxi com Cheryl. E então ela se afastou, subindo a Baysbury Road, alegando que sempre voltava a pé, pois não era longe e o que poderia acontecer numa rua tão bem iluminada? E esta fora a última vez que Cheryl a vira.

Já eu lhe contei sobre os resultados das minhas buscas. Provavelmente, deveria ter ficado calada sobre isso.

— Você sabia que Colin trabalha na prefeitura? — perguntou Sam.

— Não sabia disso.

— Imagino que tenha sido um lugar conveniente para ele roubar placas de carros.

Ficamos sentados em silêncio por um momento. Minha cabeça começava a doer.

— Audrey parecia bem quando Cheryl se despediu dela? — indaguei finalmente.

— Ao que parece, sim. Estava um pouco bêbada, mas todos estavam. E não a ponto de sair tropeçando, como Cheryl nos contou. Um pouco alta. Enfim, depois fui ver o ex-namorado de Audrey.

— Você encontrou Vaughn Bradstock? — perguntei. — E aí?

— Ele não estava no trabalho. A recepcionista me disse que seus amigos da polícia apareceram lá e lhe fizeram um bocado de perguntas, e depois disso, ele ficou perturbado e resolveu ir para casa. Fui até onde ele mora, mas ninguém abriu a porta. Não havia carro algum em frente.

Ficamos encarando a rua à nossa frente, em silêncio. Um carrinho de bebê, empurrado lentamente pela mãe, passou pela casa de Colin, seguindo em direção ao centro da cidade.

— Ele a pegou — afirmei.

— Quem? Vaughn?

— Não. Colin.

— Não temos certeza disso — replicou ele.

— Mas posso sentir. E você sabe que ele a deixará sem água e comida. Quanto tempo acha que ela irá aguentar, Sam?

Ele olhou para mim. Aquilo não tinha mais nada de excitante.

— Ela não estava deprimida ou solitária. Você ouviu o que a amiga dela disse hoje de manhã. Estava contente, ansiosa para sair à noite. Ele foi apenas… quer dizer. Você sabe.

— Só acho que é muita coincidência o fato de que ele a conhecia, você não? Acredito que ele a tenha levado para algum lugar. E está esperando que ela morra.

Eu tinha pensado em contar a Sam o que descobri de manhã, sobre a aparente visita de Colin à Grayswood Lane, no sábado, mas isso seria ultrapassar um novo limite, além daquele que já ultrapassara ao fazer pesquisas não autorizadas no sistema. Além disso, Sam acabara de me dar uma ideia. Audrey não estava deprimida, não como eu estivera — sem me dar conta inteiramente de que estava tão mal assim, sem sequer dar esse nome ao meu estado. Tinha sido o choque, de verdade, mas também a solidão e a frustração no trabalho, a sensação de estar me apagando, desaparecendo aos poucos. Tinha sido como uma evaporação, como se fosse cessar de existir e ninguém jamais perceberia isso. E ao ver Colin, do lado de fora de sua casa, as lembranças das coisas que ele me dissera voltaram. As palavras que usara — alívio — escolha — aceitação. A decisão tinha sido minha. Ele não me levara a fazer nada que eu já não tivesse considerado, que já não tivesse desejado. Eu tinha desejado que tudo desaparecesse, e ele disse que tudo ficaria bem, era uma decisão que eu podia tomar. Ele me deu coragem para isso, acho. Permissão, se é que tal coisa era necessária. E ele me disse que não doeria; seria pacífico, sossegado, do meu jeito. Falou que eu podia dormir e esperar que acontecesse e que não precisava ter medo.

De certa forma, fora Sam que agira errado. Ele me arrancara de um lugar para onde eu tinha ido voluntariamente. Mas agora, é claro, sabia que ele estava certo em fazer isso. Contudo, ainda havia momentos em que eu pensava em ficar só, fechar a porta e aguardar a calma e o sossego, e a palavra que ele usava com frequência — transformação. Tornar-se algo melhor, mais bonito, sem qualquer luta ou esforço. Apenas a paz.

Ainda me passava pela cabeça que ele talvez fosse um anjo, afinal de contas.

A única coisa que fazia realmente diferença era pensar em todas aquelas pessoas às quais ele fizera isso. Não podiam todas apresentar tendências suicidas. E, pelo que parecia, Audrey não era um desses casos — ela não escolhera esse caminho, certo? Ele se encarregara de empurrá-la nesse sentido, qualquer que fosse a satisfação que isso iria lhe dar. E como deve ter se sentido ao perceber que eu não me transformei nem um pouco? Quando não surgiu informação alguma sobre mim? Quando se deu conta de que eu tinha escapado? Ficou furioso, chateado, irritado?

E como se sentiria se me visse outra vez? Será que seria capaz de me reconhecer?

— Se ele sair… — falei em voz alta e acabei não concluindo a frase.

— Se ele sair o quê?

— Quero falar com ele.

Sam olhou para mim, espantado.

— O quê? Não. Acho melhor não.

Eu me virei para ele, me certificando de que tinha toda sua atenção.

— Tenho uma ideia, Sam. Sei como podemos achar Audrey.

— Como?

— Ele pode me levar até ela.

— O quê? Como assim?

Hesitei, me perguntando se deveria lhe contar, e como ele reagiria se fizesse isso. E naquele instante de hesitação, a oportunidade passou, porque Colin Friedland saiu de casa, batendo a porta com força. Ele entrou num Ford Fiesta azul-escuro estacionado na entrada da garagem e saiu de ré para a rua.

Sam já havia ligado o motor. Ele esperou que o Fiesta chegasse ao final da rua, com a seta ligada para a esquerda, indicando que ele estava indo para o centro da cidade, e começou a segui-lo.

— Não comece — advertiu ele, muito embora eu não tivesse dito nada. — Só quero saber aonde ele está indo, ok?

— Tudo bem — falei.

— De verdade?

Assim que entramos na rua principal, uma van branca se interpôs entre nós e o Fiesta. Desaceleramos no sinal e eu mal conseguia ver a lateral do carro e o retrovisor de Colin.

— O mais importante é não perdê-lo de vista — falei.

— Não o perderei — retrucou ele, com um suspiro que sugeria que eu estava começando a deixá-lo nervoso.

Secretamente, ambos esperávamos que ele fosse nos levar a Audrey, mas alguns momentos depois entrou no estacionamento do supermercado Co-op. Sam passou direto, até a rotatória, e retornou.

Quando entramos no estacionamento, Colin tinha saído do carro e seguia para o supermercado. Carregava uma sacola reutilizável do Co-op.

Sam entrou de ré em uma vaga atrás da fileira onde Colin estacionara e desligou o motor. Soltei meu cinto de segurança.

— Onde você vai? — perguntou ele. — Não pode esperar até que ele saia?

— Não. Vou falar com ele.

— O quê? — exclamou Sam e foi a primeira vez que eu o ouvi falar tão alto.

Vasculhei minha bolsa procurando meu celular, um aparelho pré-pago bem simples, que Irene me dera — um dos seus antigos, acho — porque aquele que Colin tirara de mim estava em algum saco plástico etiquetado como prova material. Eu tinha pensado em comprar um novo e bem bonito, mas agora estava feliz por não ter feito isso — este mesmo seria perfeito. Era pequeno e leve. Encontrei-o no fundo da bolsa e, para surpresa de Sam, abri os três primeiros botões da minha blusa e enfiei-o no sutiã.

— Que porra é essa?

— Olhe — comecei —, vou ficar sentada perto da porta do Co-op e, quando ele sair, talvez me reconheça. Entende? Ele poderá fazer uma nova tentativa.

— Porra, não é possível, você ficou doida? — Os olhos de Sam se arregalaram. Nunca o ouvira falar palavrões uma vez sequer, muito menos duas. — Ele estava tentando matar você, Annabel. E está querendo lhe dar mais uma chance?

— Não, claro que não. Mas as coisas são diferentes agora, não é mesmo? Sei quem ele é, o que ele é. Agora não estou mais vulnerável. Sei o que estou fazendo. Mas ele não sabe disso, não é? Então tenho certa vantagem.

Nesse momento, Sam franziu as sobrancelhas.

— Você está louca. Sério. O que você está pensando? E de qualquer maneira, com certeza seus coleguinhas já o estão vigiando.

— Estão todos envolvidos em outros casos. Eu perguntei por lá. Olhe, não temos muito tempo. Ele pode ter entrado lá só para comprar o jornal. Nem sei se isso vai funcionar; talvez nem sequer me veja, quem sabe vai até me evitar? Mas, se ele pegou Audrey, não é na casa dele nem na dela que ela está, não é? Então onde ela está? Ele pode me levar para esse tal lugar, onde quer que seja.

Abri a porta do carro e Sam tentou segurar meu braço, mas não conseguiu, então resolveu sair pelo seu lado do carro. Estava chovendo. Apenas uma garoa chata que deixava tudo fora de foco. As nuvens cinzentas e escuras no céu, o vento soprando com força e frio.

— Espere. Só um minuto — disse ele, se colocando à minha frente. — E se eu não conseguir seguir vocês? E se nos perdermos de vista?

— Estou com o celular no bolso. Fique com a minha bolsa. Não acho que ele vá me revistar ou algo parecido. Se ele me levar para algum lugar, não vai ser muito longe daqui. Entre em contato com o inspetor Frost e conte tudo para ele. Quando tiver oportunidade, vou enviar mensagens de texto, assim poderei ser encontrada.

— E se não conseguirem encontrar você? E se o seu celular não pegar lá? E se ele acabar com você de uma vez? Annabel, isso é loucura…

— Ele não vai me matar — afirmei, animada, e atravessei o estacionamento desviando das poças d’água, indo na direção que Colin tinha seguido. E eu era mesmo um pouco louca, pensei comigo mesma. Mas Sam já sabia disso havia bastante tempo, não é?

Olhei para trás e o vi correndo para me alcançar.

— Annabel — berrou ele, quase sem fôlego. — Só mais uma coisa. Espere.

Parei. Estávamos na rampa que leva à arcada do centro comercial, o Co-op ficava logo à direita. Eu já tinha visto um banco, onde poderia me sentar e aguardar.

— Vou entrar no Co-op e dar uma olhada para ter certeza de que ele está lá dentro — disse ele. — Depois, vou sair e ficar esperando dentro de uma dessas outras lojas, de onde possa vê-la direito. No caso de ele levar você a algum lugar a pé, ok?

— Ok — concordei, surpresa com aquela onda de alívio. — Obrigada. Mas não…

— O quê?

— Mas não interfira.

Eu me afastei dele e fui me sentar pesadamente no banco. Era tentador observar Sam andando pelo supermercado, mas agora eu estava muito exposta para quem me via do Co-op e se, por acaso, Colin tivesse me visto, eu não queria estragar tudo antes mesmo de começar. Mantive a cabeça inclinada para baixo, mas não perdia de vista a saída do supermercado.

Para que aquilo desse certo, eu deveria caprichar no meu olhar. A chuva estava ajudando bastante, encharcando meu cabelo e deixando-o colado à cabeça. Meu sobretudo ficara no carro de Sam, e estava só com uma blusa e meu casaco de lã. Baixei o olhar para o tecido e vi a chuva ser absorvida pelas fibras, pequeninas gotas que cintilavam sob a luz das vitrines. Fechei os olhos bem devagar, e quando voltei a abri-los, ao olhar para cima, vi as portas automáticas do supermercado deslizando, e o vulto que reconheci como sendo Sam saiu por elas. Ele passou andando por mim, mas não reparei se me olhou, vi apenas suas pernas, seu jeito decidido de andar. Depois, sumiu do meu campo de visão. Pensei no sistema de circuito interno, a câmera que ficava posicionada em algum lugar atrás de mim, à esquerda, sem dúvida apontando para a outra direção. Eu me lembrei de minha aparência. Deixei meus ombros frouxos.

Escutava as pessoas, as conversas entre elas, fragmentos de vozes. Podia sentir o cheiro da loja de batatas e peixe frito. Meu rosto imóvel, meus olhos se abrindo e se fechando lentamente. À espera. E mesmo essa sensação que eu tentava simular agora, na verdade, era fácil: a solidão, um monte de gente ao meu redor mas, ainda assim, talvez eu simplesmente não existisse. Estava sentada ali num banco molhado debaixo de chuva, com meu casaco de lã, a água me ensopando da cabeça aos pés, e ninguém parava. Estudantes passaram, se empurrando. Não olhei para eles. Não ergui a cabeça. Chamava-se inércia, essa espera, a espera de que algo aconteça, algo que aja sobre mim de modo que não tenha que fazer eu mesma.

Então me lembrei da sensação de esperar por ele.

Depois de um tempo, quase me esqueci de erguer o olhar. Era uma sensação tão estranha. De calma, frio e expectativa.

Vi um par de sapatos se aproximar bem na minha direção e cheguei mesmo a pensar que finalmente alguém iria me perguntar se estava bem, já estava prestes a levantar a cabeça. Mas me lembrei do que estava fazendo, e porquê, então fiquei quieta, os olhos fixos nos meus joelhos.

Ele estava em pé bem à minha frente. Diante de meus olhos havia um par de sapatos Oxford marrons, certamente protegidos por algum spray à prova d’água para camurça, porque havia pequenas bolhas neles que não eram absorvidas. Jeans azul-escuro com vincos na altura da canela, por onde passaram o ferro.

— Annabel?

Reconheci a voz e, por um instante, senti medo, um pavor estremecedor que veio estranhamente acompanhado pelo mesmo choque de alívio que sentira quando pensei que fosse um anjo. Sua voz soou tão calma, serena; muito reconfortante.

— Annabel? — repetiu ele, e desta vez olhei para cima, bem devagar, levantando a cabeça e piscando repetidas vezes, como se não tivesse certeza de nada, de onde estava e do que estava fazendo.

Ele me encarava preocupado. Depois olhou para a direita e para a esquerda, como se estivesse apreensivo com a possibilidade de alguém estar lhe pregando uma peça cruel. Ele se virou para o banco e limpou as gotas de chuva com a mão, jogando a água na direção das minhas pernas e dos meus pés. Em seguida, sentou-se ao meu lado.

Abaixei a cabeça outra vez. O que eu deveria dizer? Era muito difícil: podia botar tudo a perder.

— Você é… Você é… Ed?

— Isso mesmo — respondeu ele num tom regular. — Você se lembra.

Ele se inclinou na minha direção e, enquanto pensava no que dizer em seguida, ele tocou no meu braço, bem de leve, e perguntou:

— Como vai, Annabel?

Balancei a cabeça em resposta, devagar, depois mais rápido, fazendo as pontas molhadas do meu cabelo açoitarem meu rosto. Fiz uma careta. Será que estava funcionando? Não tinha a menor ideia. Ao mesmo tempo, eu tentava criar aquelas sensações, quaisquer que fossem elas, que o tinham atraído para mim antes: devastação, dor, desordem, desespero. E percebi que elas ainda estavam em algum lugar dentro de mim.

— Você me disse que eu devia seguir em frente — reagi, por fim. — Disse que tudo desapareceria e eu me sentiria bem.

— É, eu disse — respondeu ele. — Sinto muito.

— Não funcionou — afirmei. — Ainda estou aqui. Continuo no inferno.

Ele então ficou imóvel, afastou a mão e tive a terrível impressão de que dissera algo errado, inconscientemente, como se tivesse me denunciado de alguma forma. O celular, embora bem pequeno, parecia um tijolo na minha pele, pegajoso e quente. Minha blusa estava ensopada e colada ao meu corpo, e me enrolei mais ainda no casaco de lã molhado, para não permitir que ele visse o contorno do telefone.

— Você me ajuda? — pedi.

— Você pode ajudar a si mesma, Annabel.

— Como? Diga o que devo fazer. Por favor, me diga.

— Você pode ir para casa — disse ele — e trancar a porta…

Comecei a balançar a cabeça, antes que ele terminasse de falar.

— Não, eles vão me achar outra vez. Vão me mandar para um hospital. Eles me vigiam o tempo todo. Só quero ficar sozinha. Não existe lugar algum onde eu possa ficar sozinha.

Olhei para ele novamente, muito embora tivesse sido melhor manter a cabeça baixa. Eu queria dar uma olhada em sua expressão, ver se parecia desconfiado. A chuva escorria pelo meu rosto como lágrimas e eu não enxugava. Ele não parecia desconfiar de nada. Tinha a expressão triste, contrita, mas seus olhos brilhavam.

Pensei que fosse dizer: “Não posso ajudá-la.” Eu conseguia imaginá-lo falando isso, se levantando, voltando para seu Ford Fiesta e indo embora. E se tivesse agido assim, eu teria encontrado Sam e nós dois provavelmente voltaríamos para casa, secaríamos nossas roupas e tudo ficaria bem. Não teríamos perdido nada, exceto a chance de encontrar Audrey.

Mas ele sorriu e se ergueu, estendendo a mão para que eu ficasse de pé. Fiquei apática, sentada ali debaixo de chuva, e a dificuldade para me levantar era autêntica.

— Você pode vir comigo — afirmou ele.

Não retribuí seu sorriso, apenas fiquei de cabeça baixa, me protegendo da chuva, e segui seus pés de volta ao estacionamento, meus passos cadenciados, dóceis, obedientes. Ele levava uma bolsa, uma bolsa de lona reciclada que balançava à altura de suas pernas, cheia de compras. Meu estômago grunhia e eu lamentava não ter comido nada antes de me jogar nesse plano ensandecido.

Ele parou em frente ao seu carro e abriu a porta do carona para mim.

Acho que hesitei, só por um instante. O que eu estava fazendo? Onde estava me metendo?

— Entre, então — disse ele.

Entrei e logo me sentei. Colin bateu a porta e, alguns instantes depois, abriu a mala do carro, colocou as compras lá dentro e a bateu com força. Os vidros começaram a embaçar quase imediatamente, mas eu podia ver Sam do outro lado do estacionamento, caminhando para seu carro, encolhido no casaco. Até então, eu não sentira medo, não de verdade, mas algo dentro de mim queria me fazer correr em direção à porta para abri-la e depois sair correndo até Sam.

Ele entrou no carro em seguida, abrindo a porta do outro lado. Não olhei para ele. Deixei minhas mãos fixas nas pernas.

— Coloque o cinto de segurança — disse ele.

Isso já era um hábito, e eu sequer pensara em fazê-lo. O tom da sua voz… estranho. Desconfiado?

— Ok — respondi simplesmente, retomando minha posição, com as mãos nas pernas, cabisbaixa.

Pelo visto, ele ficou satisfeito e saiu de ré da vaga do estacionamento, seguindo até a saída e virando à esquerda na rua principal. Estávamos subindo em direção à sua casa, na colina. Não era possível que estivesse me levando para lá. Senti vontade de olhar para trás e ver se Sam estava nos seguindo, mas não me mexi. Fiquei sentada o mais imóvel possível, mas então, pela primeira vez, senti o pânico se expandindo dentro de mim como uma onda do mar chegando à areia, e precisei me concentrar para manter a respiração regular. Podia ouvir meu coração sobrepondo o ruído do motor, o sangue pulsando nos meus ouvidos. E imaginei o inspetor chefe me perguntando que merda eu pensava estar fazendo, arriscando uma missão na qual ele havia dito especificamente para eu não me envolver.

Não tinha sido uma boa ideia. Era loucura. Fui tomada por uma onda de terror. E agora era tarde demais para recuar.

Passamos direto pela casa de Colin, atravessando o subúrbio arborizado, a zona industrial e o depósito de lixo municipal; depois seguimos direto por uma rua, deixando de vez a cidade para trás, alcançando a zona rural. Os para-brisas guinchavam, indo de um lado para outro, lembrando o ruído de unhas arranhando um quadro-negro.

— Para onde estamos indo? — perguntei com calma, incapaz de prolongar aquele silêncio.

— Tenho uma casa, onde você ficará em segurança — disse ele. — Pode fazer sua própria escolha, tomar sua própria decisão. O que achar melhor.

Sua voz soava distorcida, esquisita, como um guizo sincopado, e notei que ele também estava apreensivo, embora eu não soubesse se era por nervosismo ou excitação. Não queria olhar diretamente para ele. Não só por estar com medo, mas também porque não achava que era a coisa certa a fazer. Mantive a cabeça baixa.

— Podemos conversar de novo sobre isso, como fizemos antes.

— Só quero dormir — falei.

— Ótimo. Isso é bom. Logo mais você poderá dormir. Estamos quase chegando.

Viramos à esquerda e seguimos por outra rua. Se passamos por alguma placa, não a vi. Na curva, olhei pela janela, em direção à mata espessa, na esperança de ver alguma indicação na estrada. Não havia nenhuma. Tentei me lembrar do caminho que pegamos para sair da cidade, os lugares por onde devíamos ter passado, mas eu nunca tinha estado ali. Pense, Annabel, falei para mim mesma. Foco. Concentração. Você está aqui a trabalho.

Havíamos saído de Briarstone em direção ao leste e devíamos nos encontrar em Baysbury. Mas não tínhamos passado por nenhuma aglomeração urbana, apenas campos e bosques, de forma que devíamos ter, de algum modo, contornado-a. Já rodávamos havia cinco minutos, o que significava… quanto já tínhamos percorrido? Comecei a sentir dor de cabeça. Seis ou sete quilômetros?

Ergui o olhar e olhei para a frente, decidida a me reorientar, ainda que isso pudesse deixá-lo cismado. Será que achava mesmo que eu ainda estava sob sua influência, hipnotizada ou o seja lá o que tenha feito comigo? De qualquer maneira, ele não estava tentando me hipnotizar novamente, não é? A menos que estivesse guardando isso para quando pudesse me dedicar toda sua atenção. Ele queria voltar a conversar sobre aquilo. Era esse seu plano — ele começaria tudo outra vez, o que quer que fosse. Só de pensar, eu sentia medo, e, só por um segundo, achei que tinha cometido um grande erro. Eu não era uma pessoa tão corajosa assim. Esse não era meu jeito de ser.

Sam não estava nos seguindo. Não que tivesse absoluta certeza disso; era apenas algo que pressentia, como se houvesse um vento frio atrás de mim, um vácuo. Havia algo naquele caminho estreito, com o matagal alto em ambos lados, encobrindo a frágil luz do dia que ainda restava sob as nuvens carregadas, algo que parecia nos cercar pouco a pouco. Se ele estivesse nos seguindo, Colin teria percebido. E teria dito alguma coisa.

Chegamos a um cruzamento e ele virou mais uma vez à esquerda. A estrada se abriu pela primeira vez desde que saímos da cidade, outros carros passaram por nós, seguindo na direção oposta; uma van marrom de mudança e uma caminhonete de uma empresa local de construção. Dava para ver algumas casas mais à frente, e cheguei a me perguntar se não estaríamos entrando em Baysbury, mas antes de chegarmos lá ouvi o som da seta e viramos à direita, saindo numa outra estrada rural bastante estreita. Dessa vez, vi a placa, revirada, meio enterrada na vegetação rasteira, como se alguém tivesse feito aquela curva rápido demais e batido nela: Grayswood Lane.

Senti uma golfada de triunfo, uma bem curta. Eu estava certa. E os dados que enviara para Frost lhe diriam onde me procurar.

O carro desacelerou e entrou num terreno. Ouvi o som dos pneus no cascalho e logo paramos. Olhei enfim para a frente e vi uma casa grande, antiga, com um pórtico de calcário. Fiquei sentada até ele abrir a porta e, quando saí do carro, pude ver tudo com mais clareza. O jardim da frente, que um dia devia ter sido lindo, estava coberto de mato. A entrada de cascalho para os carros, onde cresciam ervas daninhas, se estendia numa curva delicada em torno de uma fonte de pedra que estava seca, sua cavidade colorida pelo limo que sem dúvida já foram algas, a parte externa embotada pelo líquen. O matagal que se estendia até a entrada para os veículos estava na altura da cintura, e, mais à frente, havia uma cerca viva, escondendo a casa da estrada, que já deve ter tido os contornos bem aparados, mas agora era um emaranhado disforme de arbustos.

— Vamos logo — disse ele, impaciente.

— Essa casa é sua? — perguntei, seguindo-o pelos degraus da porta da frente.

Ele parou e pescou uma única chave no bolso.

— É.

A porta se abriu e o odor me atingiu no mesmo instante. Comida apodrecida, cômodos por onde o ar fresco não circulava há muito tempo, tecidos úmidos, cheiro de mofo, bolor. Mas, acima de tudo, o mais opressivo era um odor que reconheci da casa de Shelley. Alguém havia morrido ali.

Cobri a boca e o nariz com a mão. Talvez devesse ter me mostrado indiferente, mas era mais forte do que eu. Senti meu estômago vazio se revirar.

— Lamento pelo cheiro — disse ele. — Vamos. Lá em cima está melhor.

O corredor estava escuro, silencioso, e tinha um denso tapete vermelho que se estendia pela escada coberto por uma película de poeira. Ao lado da porta da frente, havia uma pilha de jornais, cardápios de entrega a domicílio e correspondências ainda fechadas. Olhei para elas, tentando ver um nome, mas ele estava esperando por mim ao pé da escada.

— Annabel, venha comigo.

Eu o segui, observando suas costas enquanto ele subia a escada. O medo, que abrandara um pouco ante meu triunfo ao perceber que minha análise da situação havia sido certeira, estava voltando.

Na última vez que nos encontramos, eu estava numa situação muito ruim. Carente de sono, muito triste, em choque, horrorizada por ter perdido minha mãe de modo tão repentino, quando ele apareceu. O que ele disse para mim, o que fez comigo, eu não me lembro de nada. Eu me lembrava de sua aparência, a de um homem comum, ainda jovem, um pouco atraente, a cabeça raspada para disfarçar o recuo da linha capilar, olhos verdes, sérios, mas não ameaçadores, de modo algum. Usava roupas que não chamavam atenção. Poderia ter cruzado com ele inúmeras vezes na rua sem olhá-lo uma segunda vez. Mas, naqueles poucos e insanos minutos em que meu coração estava despedaçado e minha cabeça a mil, eu olhara para ele e escutara o que me dissera, acreditando piamente que ele era um anjo, que estava ali para cuidar de mim.

E agora ele estava fazendo a mesma coisa, não é? Não me machucara e, muito embora estivesse apreensiva e temerosa, com a impressão de ter me arriscado de forma estúpida, eu não achava que ele iria me machucar agora. Ele fizera exatamente o que eu lhe pedira — me levara para um lugar onde pudesse ficar sozinha. E não tinha sido isso que fizera com todas as outras vítimas? Ele as ajudou a realizar o que não podiam fazer sozinhas? Atendeu as suas preces?

No alto da escada, um corredor se estendia até uma janela em vitral arqueada, na outra extremidade; por trás, os galhos de uma árvore formavam imagens oscilantes, roçando na vidraça, arranhando-a como garras afiadas. Todas as portas em ambos os lados do corredor estavam fechadas. Eu o segui em direção à janela, até a última porta à esquerda, a qual que ele abriu.

No passado, devia ter sido um quarto de hóspedes. A cama de casal estava coberta por uma manta de cetim rosa, mas o colchão não tinha lençol. A cor de pêssego do tapete com adereços esvoaçantes sucumbira sob a poeira cinzenta. As cortinas, pesadas e com babados, ocultavam o dia opaco lá fora, mergulhando o quarto em sombras. Armários embutidos se estendiam ao longo das paredes, com as portas fechadas. Uma penteadeira se encaixava em um dos armários, com um banco à sua frente, de cujo assento em veludo verde-escuro pendiam desamparadas franjas de cetim dourado. As paredes foram pintadas de rosa pastel, e duas ilustrações de paisagens esmaecidas decoravam a parede, dentro de molduras rosas de plástico, nos dois lados da cama. Na única mesinha de cabeceira, havia um abajur com a cobertura inclinada enviesadamente e um modelo antigo de despertador, com dois sinos e um disparador silencioso.

Eu não sabia se estava me acostumando ao cheiro ou se ele era mais brando no primeiro andar, porém, o odor que o quarto exalava não era nada agradável, e sim bolorento, como o cheiro de um quarto privado de ar fresco — com um adocicado aroma floral por cima. Na penteadeira, notei que havia um vaso de porcelana com um monte de flores secas e uma única haste de pinha, tudo coberto por um pó cinzento. Nada era capaz de representar melhor um “quarto de hóspedes” do que um vaso com uma miscelânea de flores murchas.

Colin parou ao lado da porta, me observando com interesse. Eu podia sentir seu olhar em mim enquanto examinava o quarto.

— Você pode ficar aqui — disse ele.

— Ok — respondi.

Entrei no quarto e fiquei em pé, esperando o que viria em seguida. Não o ouvi fechar a porta ou ir embora, então me sentei na beirada da cama. Ele estava na porta, ainda me observando, e o olhar que me lançava me assustou. Naquele breve relance, pude ver como ele parecia vivaz, animado, excitado mesmo.

Depois de uma pausa, ele disse:

— Volto daqui a pouco para ver se você está bem. Poderemos conversar um pouco mais se quiser.

Depois, ele fechou a porta, sem esperar minha resposta. Um segundo mais tarde, ouvi a chave girando na fechadura. Ele estava me trancando! Por quê? Não havia necessidade alguma de fazer isso. Mas é claro, ele foi bem discreto e, depois, ouvi seus passos abafados se afastando, conforme ele seguia pelo corredor.

Aguardei dez segundos, pensando que ele poderia retornar logo, talvez tivesse se esquecido de algo. O quarto estava silencioso. Não dava para escutar nada, nem mesmo o vento, ou os galhos arranhando a janela do corredor.

Peguei meu celular no bolso. O sinal estava fraco. Sam tinha chegado a considerar isso, acho. Mas é claro, estávamos numa zona rural — era bem possível que não conseguisse me conectar à internet. Verifiquei outra vez se o telefone estava mudo — não seria bom me denunciar agora. Depois, enviei uma mensagem de texto para Sam.

Estou num casarão em Grayswood Lane. Estou sozinha agora. Fui trancada em

um quarto. Você me seguiu? A

Passaram-se alguns instantes e uma mensagem iluminou a tela.

Erro — mensagem não enviada. Reenviar?

Eu me levantei e andei até os armários, abrindo cada um deles. Havia pilhas de lençóis, toalhas, cortinas, roupas de cama, tudo perfeitamente dobrado. Nuvens de pó revoavam de todas as coisas. Eu estava procurando alguma coisa sólida, algo que servisse de alavanca para abrir a porta, ou que pudesse usar como arma apenas, caso precisasse. No segundo armário, na prateleira de cima, achei uma mala marrom, amarrada com tiras. Pensei em pegá-la, mas temi que fosse fazer barulho. Era melhor esperar até ter certeza de que ele tinha ido embora.

As tábuas do assoalho sob o denso tapete estalaram ligeiramente quando atravessei o cômodo e, por um instante, prendi a respiração, esperando que, onde quer que ele estivesse, não tivesse conseguido me ouvir. Nada. Fui até a janela e afastei um pouquinho a cortina, para poder enxergar lá fora. O quarto ficava nos fundos da casa. Isso eu já sabia. Não seria possível ver o Ford Fiesta partindo, mas, se conseguisse abrir a janela, poderia ouvi-lo.

Era uma pesada janela de guilhotina e não usavam o trinco havia anos. Eu conseguia ver o jardim, um longo declive de matagal espesso, que descia até um muro alto de tijolos com um portão sob um arco bem no meio. As árvores ao longo do jardim eram enormes e se mexiam em silêncio com o vento.

Ouvi uma pancada vindo de algum lugar de dentro da casa. Fiquei imóvel, caso ele estivesse voltando, mas seguiu-se somente o silêncio. Teria sido a porta da frente? Será que ele tinha ido embora?

Fui até a porta e tentei girar delicadamente a maçaneta. A porta permaneceu fechada com firmeza. Eu me agachei e olhei pelo buraco da fechadura, que desvendava somente um pedaço do papel de parede aveludado no outro lado do corredor. Ele levara a chave.

Voltei para a cama e peguei o telefone de novo. A mensagem ainda não havia sido enviada. Tentei ligar para o número de Sam, mas não consegui sinal. Levei o aparelho até a janela para tentar captar algum sinal, mas não adiantou. Será que mesmo assim seriam capazes de rastrear meu telefone? Busquei em diversos lugares do quarto, sem sucesso. Depois disso, me aproximei da porta e tentei a maçaneta outra vez, girando-a e puxando a porta. Ela cedeu um pouco, bem pouco, mas a fechadura resistiu.

Outro barulho.

Fiquei paralisada e atenta, o ouvido encostado na porta. Silêncio. E então, bem baixinho, vindo de algum lugar, escutei um som agudo e breve, como um choro.

Bati com força na porta.

— Oi? — berrei. — Oi! Tem alguém aí?

Em seguida, havia apenas um longo silêncio e, de repente, passos lá fora, avançando depressa pelo tapete, o som da chave na fechadura, e dei um pulo para trás, caindo na cama, o peito arfando. Só deu tempo para enfiar o telefone no sutiã.

A porta se abriu e ele ficou me olhando. Notei que estava tão ofegante quanto eu, como se tivesse subido a escada correndo.

— O que você está fazendo? — perguntou ele, a voz contida e regular, embora estivesse visivelmente irritado.

— Não quero ficar trancada — respondi. — Por que você me trancou?

Ele franziu as sobrancelhas.

— Quero que fique segura. Você precisa de segurança.

Ele entrou no quarto e avançou na minha direção, e naquele instante me perguntei se teria força para derrotá-lo. Ele era mais alto, mas é provável que eu fosse mais pesada. Se me jogasse nele, até poderia derrubá-lo… Mas e depois? Para onde eu iria?

— Ficar trancada me assusta — confessei. — Não consigo dormir. Não consigo dormir se estou trancada.

Talvez conseguisse me safar com isso, pensei. Pode ser que houvesse alguns instintos capazes de sobrepujar sua influência — algum pavor primal que fosse mais resistente do que o desejo de desvanecer. Então me ocorreu que ele não confiava completamente em mim. No fundo, não acreditava que eu estivesse pronta para me deitar e morrer, apenas. Senão, qual outro motivo ele teria para me trancar aqui?

— Você está em segurança. Está protegida com a porta fechada — disse ele.

Agora, estava perto o bastante de mim para me tocar, e embora meus olhos estivessem na altura do seu peito e eu não quisesse olhar para cima, ele tocou o meu antebraço, e seu toque foi tranquilizador, reconfortante, e senti que meu coração agitado começava a se acalmar, as batidas em meu peito se atenuando. Ele disse mais alguma coisa, mas não escutei.

— Você deveria dormir — prosseguiu ele. — Tudo vai ficar mais fácil quando você adormecer. Pode dormir, Annabel.

Eu me sentei na cama e peguntei:

— Você vai ficar em casa?

— Por algum tempo — respondeu ele.

— Estou com sono.

— Isso é ótimo. Por que não se deita?

Eu me estendi na cama que recendia a umidade e poeira. Senti o telefone se mexendo um pouco e, temendo que o tecido da blusa o deixasse exposto, me virei para o lado oposto da porta, ficando fora do seu campo de visão.

Por instantes, não havia som algum além da sua respiração e da minha. Eu me perguntei o que ele pensava de mim, deitada naquela cama estranha numa casa estranha onde provavelmente havia o corpo inerte de outra pessoa, quem sabe entre a vida e a morte. Eu tinha ouvido um grito, o que significava que ela estava viva, e em algum lugar dentro da casa.

Meu coração estava acelerado, a poeira na minha garganta me dava vontade de tossir. Meus olhos fechados não retiveram a lágrima que escorreu pela minha têmpora, caindo na coberta da cama. Ajude-me, pensei. Mãe, por favor, me ajude.

E então, quando já estava achando que ele fosse ficar comigo, ouvi seus passos recuarem e a porta sendo fechada. Esperei ouvir o som da chave girando na fechadura, mas isso não aconteceu.

Fiquei imóvel na cama por algum tempo, desconfiando de que estivesse lá fora, esperando alguma reação minha. Tirei o telefone de onde o tinha escondido e tentei usá-lo outra vez. Impossível. Digitei outra mensagem para Sam, caso essa conseguisse ser enviada em algum momento.

Por favor, venha logo. A

Esperei uns bons dez minutos, me distraindo com aquele telefone inútil, depois me levantei. Ao fazer isso, ouvi outro barulho dentro da casa e, em seguida, mais uma pancada. Fui até a porta, girei a maçaneta bem devagar e, sem fazer barulho, abri uma fresta, já esperando vê-lo no corredor, vigiando a porta.

Abri um pouco mais. O corredor estava vazio, as outras portas fechadas, como antes. Avancei pelo tapete com cautela, temendo estalar as tábuas do assoalho, mas todos os sons pareciam abafados, inexistentes, como se o tapete estivesse coberto por uma camada de neve em vez de poeira. Havia moscas por todos os cantos, eu percebia agora — mortas, principalmente, no tapete. Uma ou outra zumbia de forma preguiçosa no ar asqueroso.

No alto da escada, parei e olhei para baixo. Nenhum sinal dele. A casa parecia aguardar meus movimentos.

Quando finalmente cheguei ao fim da escada, já estava quase certa de que ele tinha saído. As janelas que flanqueavam a porta da frente, por mais imundas que estivessem, me davam uma boa visão da entrada dos carros, e pude ver que estava vazia. O Fiesta se fora. Tentei abrir a porta, mas, como já era previsível, estava trancada. Tentei usar meu celular de novo e, desta vez, consegui algum sinal. Apenas duas barras, mas podia ser o suficiente. Disquei o número de Sam. Depois de tocar algumas vezes, ele atendeu.

— Oi! — falei, um sussurrar urgente na voz.

Mas não houve resposta, apenas um estalo e um chiado.

— Sam, você está me ouvindo?

O telefone emitiu um bipe e a conexão caiu. Enviei outra mensagem de texto.

Estou num casarão na Grayswood Lane, atrás de uma cerca viva. Ele se foi, mas

vai voltar. Ande logo. A

No térreo, o fedor era ainda pior. Não queria explorar a casa, mas ao mesmo tempo precisava arrumar um jeito de fugir. Logo ele estaria de volta, e eu não queria estar ali quando isso acontecesse.

Ouvi um ruído atrás de mim, semelhante ao anterior — um gemido, se transformando num choro. Parecia mais próximo, mas ainda assim meio isolado. Todas as portas estavam fechadas, mas tentei a mais perto de mim e me deparei com uma cozinha imensa, uma mesa rústica de madeira na extremidade e, depois dela, portas de uma sacada dando para um amplo jardim de fundos. A cozinha estava organizada, mas um pouco suja, e a intensidade do fedor aumentara um pouco. Eu estava me aproximando.

— Audrey? — perguntei, e depois mais alto: — Audrey! Você está me ouvindo?

Esperei, com os ouvidos atentos. Nada. Meus sapatos esmagavam os cadáveres das moscas. Havia tantas por ali! No final, a cozinha se alargava, virando um jardim de inverno que, após uma curva de noventa graus, desembocava na sala de estar principal. Notei que ali havia uma porta específica para o corredor, calculando que alguém derrubara a parede para aumentar o espaço e, ao mesmo tempo, me perguntando que diabos eu estava fazendo ali, me esgueirando dentro daquela casa e pensando em obras de benfeitorias domésticas.

Foi então que vi o corpo.

Desta vez, estava estendido no sofá e não sentado numa cadeira, como Shelley Burton: o que restava daquela pessoa era algo enegrecido, de aparência oca, ainda vestido com roupas que pareciam manchadas e frouxas no corpo em decomposição. Emplastros de cabelo cinzento estavam grudados no que restava da cabeça, ainda com uma forma craniana, mas com tiras de pele presas no osso. Em volta do sofá, com exceção das moscas, tudo parecia normal — mas, no estofado, o que antes era um ser humano, com emoções, inteligência e senso de humor, havia efetivamente se liquefeito, derretido, se transformado numa massa nauseabunda de substâncias deterioradas.

Olhei para o corpo durante um bom tempo, sem me aproximar, minha mão tapando o nariz e a boca, como se isso pudesse estancar o fedor, como se pudesse conter o grito e os soluços apavorados e horrorizados dentro de mim. Não queria mais seguir em frente com aquilo. Não queria estar ali, naquele antro insano onde pessoas morriam e ninguém notava.

Basta. Pare com isso, Annabel. Controle-se.

Caminhei com cuidado, de costas para a luz das janelas que davam para a vegetação emaranhada lá fora, e alcancei outra porta, na extremidade da sala. Parecia ser uma espécie de área de serviço. E um cheiro horrível, não de morte, desta vez, mas de algo ainda pior. Havia várias galochas enfileiradas sob um cabideiro de casacos, uma longa bancada de trabalho com vários potes de plásticos, uma raquete de tênis, produtos de limpeza dentro de um balde, uma bandeja com pequenos vasos para mudas, cordões, inseticidas, um regador, um par de luvas para jardinagem, uma gaveta quebrada, uma pilha de velhas cortinas dobradas. Dava para ver a porta dos fundos, aferrolhada no alto e embaixo. Abri os trincos, movendo-os com força de um lado para outro, até cederem. A chave não estava na fechadura e eu já esperava encontrar a porta trancada. Mas, quando a empurrei, ela se moveu um pouco. Procurei a chave por ali, achando que ela devia ter sido deixada por perto pelas pessoas que moraram ali antes, e lá estava ela, pendurada num prego enferrujado em meio a teias de aranha no parapeito da janela.

Eu a peguei e tentei inseri-la na fechadura. Parecia emperrada, mas acabou se abrindo e empurrei a porta de madeira empenada pela chuva e pela falta de uso. Lá fora, o mato crescera de modo desenfreado e, uma vez aberta, não consegui mais fechar a porta. Contudo, aquele ar fresco depois de tanto tempo privada dele, era delicioso.

Tendo assegurado minha rota de fuga, voltei à área de serviço. Havia outra porta ali, e ao abri-la, vi algo que já esperava: uma despensa, com latas de alimento nas prateleiras, potes de molho de tomate e, nas estantes debaixo, mais largas, panelas e frigideiras de dimensão industrial, travessas enormes, guardanapos de papel. Talvez por terem mantido a porta fechada, não havia tanta poeira ali, apenas um bafejo repugnante de alguma coisa ruim, podre, como o cheiro de um esgoto que eu descobrira numa praia deserta, quando era mais nova. Meus sentidos foram bruscamente agredidos.

Ouvi outro ruído, desta vez bem mais perto, como se ela estivesse naquele mesmo lugar comigo.

— Audrey? — perguntei. — Olá? Tem alguém aí?

À minha esquerda, entre duas prateleiras, havia um interruptor de luz. Eu achava que a eletricidade tivesse sido cortada, mas, para minha surpresa, quando o apertei, uma lâmpada acendeu no teto, iluminando um espaço longo e estreito, entre as estantes. E, no final — bem no fundo — havia outra porta.

Estava trancada, é óbvio. E mesmo procurando em todas as estantes, com as mãos trêmulas, não havia sinal da chave.

Voltei para a área de serviço e comecei a procurar em todas as gavetas, abrindo-as depressa e fechando-as com força. Em seguida, foi a vez dos armários de baixo. Quando abri o último deles, justamente, ali estava: uma velha caixa de ferramentas de metal, daquelas cuja tampa se abre como uma sanfona. Retirei-a do armário, deixando-a cair fazendo barulho na argila vermelha do chão e soltei os trincos. As ferramentas eram velhas, enferrujadas, mas ali havia o que eu precisava — uma chave de fenda grande e com a ponta plana. Voltei à despensa e segui para a porta dos fundos. Depois inseri a chave de fenda na brecha ao lado da tranca e a usei como alavanca. Eu esperava que a porta se abrisse de uma só vez, mas é claro, o que aconteceu foi que a madeira rachou e estalou, e do outro lado da porta ouvi um lamento e um choro, depois apenas um gemido, desesperado, transformando-se num grito agudo:

— Não!

Continuei forçando a porta, escavando a madeira até conseguir alcançar com a chave de fenda uma peça de metal. Enfiando a chave por baixo, levantei o trinco e, com um súbito estremecimento e um estrondo, a porta se abriu.

À minha frente, a escuridão deixava entrever uma escada que levava para o subsolo.

— Audrey? — chamei.

Silêncio. Depois, uma voz murmurante e gutural:

— Quem é você?

Procurei um interruptor, com certeza devia haver algum por ali. Por fim, o encontrei, debaixo de uma prateleira repleta de recipientes com pastilhas de sabão para lava-louça. Liguei o interruptor e a escada foi iluminada. De lá de baixo, veio outro grito lancinante.

Desci os degraus, segurando firme a chave de fenda à minha frente, no caso de Colin resolver aparecer do nada.

Era um cômodo exíguo, as paredes caiadas, com uma janela bem no alto. A escuridão do lado de fora sugeria que estivesse encoberta pelo mato. Havia uma mesa e um sofá velho com um colchão por cima, uma arca de madeira e caixotes vazios — e em cima da cama, vi o rosto coberto pelas mãos de uma moça de cabelo escuro, toda encolhida, vestindo uma minissaia acetinada.

Senti uma onda de alívio. Era ela; com certeza era ela.

O cômodo fedia.

— Meu nome é Annabel — falei. — Vim tirar você daqui. Você está bem?

— Água — pediu ela.

Subi de volta para a área de serviço. Havia uma pia ali, e quando abri a torneira, ela rosnou por um instante e depois a água fria começou a sair, aos espirros. Deixei a água correndo e procurei algum recipiente. Por fim, na despensa, encontrei um vaso de cerâmica. Teria que servir. Enchi-o e fechei a torneira.

Enquanto fazia isso, ouvi um barulho, alguém batendo a porta da frente.

Fiquei imóvel por um segundo, depois corri até a despensa e apaguei a luz, a que também iluminava o porão. Em seguida, desci os degraus às cegas. Ele veria as portas abertas; eu havia aberto todas, e a que dava para o porão estava arrombada. Minha única esperança era a de que ele pensasse que já tivéssemos fugido pela porta dos fundos.

— Precisamos nos esconder — sussurrei para ela, meu coração disparado devido ao esforço de subir e descer a escada. Tentei segurar seu antebraço, mas ela o soltou, encolhendo-se totalmente. — Trouxe água — avisei. — Venha, você precisa vir comigo!

Deixei o vaso no primeiro degrau, tentei segurá-la mais uma vez na penumbra, dei um jeito de levantá-la e arrastá-la para fora da cama, depois puxei-a para o canto, perto da escada. Ela choramingava. Não havia lugar algum onde pudéssemos nos esconder por ali. Nossa única chance seria se Colin olhasse para baixo e, não nos vendo, chegasse à conclusão de que tínhamos escapado…

— Shhh — murmurei, tentando fazer com que olhasse para mim. — Você precisa ficar calada. Quieta, por favor.

Por um instante, ficamos em silêncio, entremeado apenas pela nossa respiração. Ela parecia ofegante. Se tossisse, estaríamos perdidas.

Então, ouvimos passos lá em cima, e um berro repentino:

— NÃO!

Colin se precipitou pela despensa até a porta no alto da escada, acendeu a luz e o cômodo foi inundado pela claridade. Fechei os olhos com a brusca luminosidade e, embora Audrey ainda choramingasse, percebi que ele se afastara no mesmo instante; alguns segundos depois, pude ouvi-lo gritando, já fora de casa, pelo que parecia.

— Onde você está? Audrey! Volte aqui!

E agora? Eu não conseguia pensar direito. Devia tentar levar Audrey lá para cima? Tentar sair pela porta da frente, supondo que ele a tivesse deixado destrancada? Ele estaria de volta antes disso. Mas, se tivesse algum juízo, deveria ir embora dali o mais rápido possível.

Peguei o vaso e o levei até a boca de Audrey. À luz, apesar de seus olhos estarem bem fechados, pude ver como ela era bonita. Seu rosto estava sujo, marcado por fuligem e lágrimas, olheiras enormes e bastante pálido.

— Tome — falei. — Beba isso, bem devagar. — Ela tentou engolir tudo e fui obrigada a afastá-lo dela, que se agarrava ao vaso. — Não, bem devagar. Senão vai ficar enjoada. Beba um gole de cada vez.

Agora, era tarde demais para sair dali: ele voltara para casa. Ouvi outros barulhos vindos lá de cima; depois, as tábulas do assoalho estalaram em cima de nossas cabeças, conforme ele se movia pela casa. Ouvia ruídos como se ele estivesse quebrando e arremessando tudo à sua frente, derrubando as coisas pelo caminho.

O rosto de Audrey franziu-se de terror. Eu podia sentir seu medo, seu pânico.

— Não tenha medo — acalmei-a. — Estou aqui para proteger você.

A chave de fenda estava no sofá. Será que ele percebeu? Apoiei Audrey na parede, coloquei o vaso no chão e corri para pegar a ferramenta.

— O que você fez?

Do alto da escada, chegou a nós a voz de Colin, tão calma, tão inesperada, me deixando paralisada. Escondi a chave de fenda na mão, com a ponta enfiada na manga do meu casaco. Talvez ele não a notasse.

— O que eu fiz? — repeti, surpreendendo a mim mesma. — O que você fez? Você a manteve presa aqui!

— Onde ela está? — perguntou ele, com a voz estranhamente triste, tão perturbado, que então percebi que ele não a tinha visto. Mas ela denunciou a si mesma, tentando pegar o vaso e derrubando-o no chão com seus dedos desajeitados, e depois chorando pela água derramada à sua volta. — Audrey!

Colin desceu a escada saltando dois degraus por vez e foi até onde ela estava, como se fosse segurá-la, abraçá-la, mas então parou de repente, vendo-a se encolher, afastando-se dele. Depois, parecendo se recompor, se virou para mim.

— É, é verdade… Ela passou por um momento difícil. Precisa de um tempo.

— Sem comida nem água? Você está querendo que ela morra?

— Eu não seria capaz de fazer mal a uma mosca, Annabel. Você sabe disso.

Ele deu um passo na minha direção e eu recuei, minhas pernas tocando a beirada do sofá. Olhei para a escada e me perguntei se conseguiria alcançá-la antes dele.

— Deixe a gente ir — falei, tentando adotar um tom de voz que sugerisse confiança e autoridade.

— Você tentou me enganar. — Agora, sua voz soava furiosa, frustrada. Ele deu mais um passo na minha direção.

— Não se aproxime mais! — adverti-o.

Então ele começou a rir, a rir de verdade.

— O quê? Você acha que tenho medo de você, Annabel? Por que teria? Apenas tentei ajudar. Foi só o que fiz.

Ele já estava perto o bastante para me tocar e colocou as mãos nos meus antebraços, como se fosse me sacudir, me abraçar ou me empurrar. Suas mãos estavam tensas e quentes, apesar do meu casaco ainda estar úmido por causa da chuva.

— Não toque em mim — preveni, serenamente.

— Você precisa respirar fundo, Annabel — disse ele. — Precisa se acalmar.

Atrás dele, Audrey tentava se reerguer. Ele olhou para ela e então riu do seu esforço, ao vê-la cair de lado, gemendo. Na mão, ela segurava o vaso de cerâmica o mais firme que conseguia.

— Você não está pensando em me bater com isso, não é? — disse ele com escárnio. — Pobre Maggie. Este pode ser o seu vaso preferido.

Eu me esquecera da chave de fenda e, ao me mexer, ela deslizou da manga do casaco e caiu no chão. Então resolvi agir. Livrei-me de suas mãos, recuei um pouco e dei um soco bem forte em seu rosto. Com isso, soltei ao mesmo tempo um rugido de raiva e indignação, aterrorizada com o que ele poderia fazer em seguida se eu lhe desse tempo suficiente para pensar.

Ele soltou um grunhido de surpresa, quase um ganido, ao ser arremessado para trás, antes de perder o equilíbrio e cair de quatro. Depois, encostando a mão no rosto, ele disse:

— Nossa! Por que você fez isso?

Mas com certeza não conseguira deixá-lo inconsciente.

Audrey empunhava o vaso. Ela soluçava, o braço estendido para o alto, agitando-o como se pesasse dez vezes mais. Colin me lançou um olhar severo quando ela baixou o braço. O vaso o atingiu na têmpora, no momento em que eu estava pensando: Ela não tem força para isso, o que vai fazer comigo agora, cócegas? — e ele desabou. As costas no chão, a cabeça para o lado.

Audrey estava ofegante e começou a rir de nervoso. Parecia histérica.

— Meu Deus! — exclamei. — Não pensei que você fosse bater com tanta força.

Ela começou a soluçar e cambaleou para trás. Passei pelo corpo de Colin e fui até ela, pondo as mãos em seus ombros, tentando reconfortá-la. Depois, nós nos sentamos e nos abraçamos, ambas aos prantos.

— Precisamos sair daqui — falei. — Você acha que consegue andar?

Tentei fazer com que ficasse em pé, mas suas pernas tremiam incessantemente.

Apoiando-me à parede, consegui mal ou bem arrastá-la escada acima, passando pela despensa e chegando à luz do dia. Havia um homem lá fora, e pelo uniforme ele fazia parte da equipe de buscas. Quando nos viu, seus olhos se arregalaram e ele gritou alguma coisa que eu não compreendi. Em seguida, apareceram outras pessoas que pegaram Audrey e alguém que eu não conhecia começou a me fazer perguntas.

— Ele está lá embaixo — afirmei.

Depois disso não consegui dizer mais nada, pois fui tomada por soluços, num pânico retrospectivo. O que eu tinha feito? O que passou pela minha cabeça para vir até aqui no carro dele?

Eles me acompanharam pelo matagal até a frente da casa. Havia uma ambulância e várias viaturas policiais. E, é claro, o Ford Fiesta de Colin, estacionado diante do portão. Logo atrás, o carro de Sam.

Ao caminhar na sua direção, tropecei numa pedra solta e caí de quatro. Braços fortes me reergueram enquanto eu dizia “Desculpe, desculpe”, como se tivesse sido minha culpa. Meus joelhos estavam arranhados e sangravam. Limpei a sujeira das minhas mãos no casaco, ainda úmido por causa da chuva. As palmas das minhas mãos estavam doloridas.

— Você está bem? — perguntou Sam, ao me alcançar. Ele pegou minhas mãos, olhou-as e assoprou com delicadeza.

— Eu só tropecei — falei.

Ele começou a rir.

— Não foi isso que eu quis dizer. Estava me referindo a … Meu Deus, estou tão feliz em ver que você está bem.

Ele pôs o braço em meus ombros e nós nos abraçamos desajeitadamente. Sua mão batia de leve nos meus ombros. Dei um passo para trás, ciente da imundice das minhas roupas, do meu casaco molhado, cheio de poeira e fuligem.

— Tentei chegar aqui o mais rápido possível — disse ele. — Perdi vocês de vista na estrada principal. Mas então entrei em contato com o inspetor Frost e, depois disso, aconteceu tudo tão rápido.

— Obrigada.

— Ele ficou furioso. Nunca o vi assim. Tinha acabado de ler o seu e-mail. Quando eu lhe disse que você tinha ido com Friedland, parecia que o céu desabara na sua cabeça.

— Onde ele está?

— A caminho. Escute, prometa que não fará mais uma coisa dessas? Nunca senti tanto medo em toda a minha vida.

— Não era você que estava no carro com ele — falei. — Por que você ficou com medo?

— Achei que ele podia matar você.

Pensei no corpo no sofá, me perguntando há quanto tempo devia estar ali. Há quanto tempo Colin o vinha visitando.

— Há um outro corpo — informei. — Acho que já faz um tempo que está lá dentro. Ele a chamava de Maggie.