Restos Humanos
Colin
PARECE BIZARRO QUE A CASA DELA seja vizinha da outra que visitei meses atrás. Deve ser uma rua cheia de suicidas potenciais. Desgraça gera desgraça, afinal de contas — contagiosa, a densa atmosfera do desespero. Eu deveria ter esperado. E é claro, foi ela quem encontrou Shelley, foi ela quem me deu o maior susto na noite em que eu estava visitando aquela casa. Ouvi o som de vidro sendo quebrado na porta dos fundos e fui até o corredor, pensando em escapar pela porta da frente, mas algo fez com que eu continuasse ali. Tenho uma forte tendência protetora para com meus amigos, especialmente quando eles ainda não completaram o processo de transformação, e pensar que a metamorfose de Shelley podia ser interrompida por algum jovem delinquente era mais do que eu poderia suportar. E então, ouvi sua voz dizendo alguma coisa — “Olá”, “Tem alguém aí?” — ou algo parecido, por isso, fiquei parado no corredor. Eu sabia que ela não vasculharia a casa, quem quer que fosse. Ela chegaria no máximo até a sala de estar, até Shelley, não mais longe que isso.
Eu estava intrigado com a ideia de observar a reação de outra pessoa ao se deparar com Shelley em estado de putrefação. Afinal de contas, sei que não sou normal, mas sempre há a possibilidade de outras pessoas enxergarem nesse quadro a mesma beleza que eu vejo e, quem sabe, talvez tenha encontrado alguém com quem compartilhar tudo aquilo. Ou então, isso acrescentaria uma nova dimensão, voyeurística e erótica, a todo o processo.
Ela estava tão magnificamente calma. Não gritou, nem vomitou, sequer se virou. Vi pela brecha da porta que dava para o corredor que ela ficou ali parada, observando Shelley por um bom tempo, a expressão serena, somente sua respiração ofegante denunciando o choque pelo qual passara.
Eu não a reconhecera no supermercado, é claro — estava fora de contexto —, mas é maravilhoso que seja ela minha próxima missão. Adoro a simetria em todas as coisas. Observá-la testemunhando a deterioração de outra chega a ser poético.