Restos Humanos
Annabel
O ENTERRO DA MINHA MÃE ACONTECEU onze dias depois que saí do hospital. Sam ajudou com os preparativos. Ele fez um levantamento dos preços de outras funerárias e acabou organizando tudo, antes que eu tivesse condições de tomar decisões novamente. Ele não quisera que eu voltasse sozinha à funerária ao lado do Co-op, pois tudo havia começado ali… onde o encontrei, o anjo, ou quem quer que ele fosse na realidade.
Irene me ajudou a me arrumar. Ela me emprestou uma saia preta e um suéter de caxemira; não achei que caberia em mim, mas, para minha surpresa, ficou até um pouco folgado.
— Que tal uma maquiagem de leve? — sugeriu ela. — Para dar uma iluminada nesse seu lindo rosto? Hein?
— Em geral, não me incomodo com isso — respondi.
— Venha comigo.
Eu estava começando a perceber que não valia a pena discutir com Irene. Ela me levou até o quarto da frente, me fez sentar na beirada da cama de casal e cuidou do meu rosto enquanto eu ficava de olhos fechados.
— Sempre me sinto melhor quando passo um pouco de batom — disse ela.
Todas as vezes que usara maquiagem no passado, eu me sentira suja, mas não falei isso para ela. Era mais fácil deixar que fizesse o que bem entendesse.
— Vocês são muito gentis me acolhendo desse jeito — falei. — O que você pensou quando Sam disse que eu iria ficar aqui?
Ela riu.
— Não me surpreendeu. Ele falava muito de você. Ficou bastante preocupado quando você foi parar no hospital, sabe.
— Ficou mesmo?
— É claro.
— Não entendo por que ele se dá todo esse trabalho.
Irene vasculhava a bolsa de maquiagem. Olhei para ela com curiosidade — como uma pessoa podia precisar de tanta coisa? Para que tudo aquilo?
— Tenho a impressão de que ele se vê muito em você, Annabel. Ele ficou muito deprimido quando a mãe morreu, sabe. Ele a amava demais. Demorou muito, muito tempo para que superasse essa perda.
— Pensei que tinha interesse apenas em conhecer a fundo a história para fazer a reportagem.
Ela franziu a testa. Era uma mulher bonita, pensei. Mais jovem que Brian. Eu me perguntei quantos anos teria.
— Nada disso. Nosso Sam não é assim. Ele é um bom jornalista, mas também uma pessoa de princípios. Ele acha que pode ajudar você, então decidiu que é isso o que deve fazer. É uma joia rara, o nosso Sam.
Ela se afastou e pude ver meu reflexo no espelho. Eu estava bem diferente. Não parecia nem um pouco comigo. Sorri para mim mesma, hesitante.
Quando voltei para o quarto, achei uma pequena pluma branca no chão, ao lado da cama. Era da minha mãe, uma mensagem para dizer que ela estava lá, que estava comigo. Talvez até gostasse que Irene estivesse cuidando de mim. Tive uma sensação de alívio. Houve momentos em que não tinha certeza se ainda acreditava em anjos, e talvez, inconscientemente, estivesse esperando um sinal. E ali estava ele.
Algumas pessoas da Organização Social compareceram ao funeral; Len, o seu vizinho, sem a esposa. Para minha surpresa, Kate apareceu e me disse que, embora tivesse dito que tentaria vir, Frost tivera um imprevisto de última hora. Sam também estava lá, é claro. Ele se tornara minha sombra, e se isso continuasse ainda por muito tempo ia acabar me enlouquecendo.
Mesmo assim, o crematório estava terrivelmente vazio. Ela se isolara tanto de tudo, depois que a tia Bet faleceu, que pouquíssimas pessoas a conheciam, muito menos havia quem ainda a considerasse uma amiga. Isso foi um choque desagradável, que desaguou em outro ainda pior — a consciência de que eu estava indo na mesma direção. Se organizassem meu funeral, quantas pessoas compareceriam? Provavelmente, não muito mais do que havia ali. E a cada minuto, eu tentava chegar a uma conclusão de quanto tempo ainda levaria para isso acontecer.
Sam segurou minha mão, quando a missa começou no crematório, com três minutos de atraso. Eles eram meticulosos na questão do horário, mas acho que estavam esperando para ver se chegava mais gente. No entanto, pelo visto, não adiantaria nada. Eu não me sentia disposta a falar em público — mesmo para tão poucas pessoas —, então, o oficiante leu o discurso fúnebre que eu escrevera, e Sam o ajudou bastante.
Eu olhava fixamente para o caixão, enquanto as palavras se dissipavam, e tentava lembrar como era minha mãe anos atrás. O quanto eu a desrespeitara na adolescência. Ela devia me odiar naquela época.
Eles tocaram Jim Reeves. Depois disso, Sam se levantou e leu um poema que encontrara na internet. Sua leitura foi clara, com a voz firme, embora estivesse vermelho de vergonha. Ele encarava o relógio no fundo da sala, acima das duas portas por onde todos tínhamos entrado.
Tentei imaginar minha mãe num lugar mais iluminado, como sugeriam as palavras do poema, mas tudo que conseguia pensar era em como ela teria odiado se deparar com uma multidão ali.
Quando Sam voltou a se sentar, sussurrei ao seu ouvido:
— Obrigada.
Ele voltou a segurar minha mão e a apertou em resposta. Quando tudo estivesse acabado, voltaríamos para a casa na Keats Road e comeríamos o jantar que Irene estava preparando, com a tácita convicção de que eu precisava me alimentar para me sentir melhor. Nos últimos dias, ela havia feito comidas saudáveis, jantares nutritivos que eu me esforçava para engolir. Aquilo ainda parecia estranho, desnecessário; acho que se não fosse pelo atencioso cuidado deles, eu não teria sequer me incomodado em comer.
O oficiante encerrou a cerimônia e todos ficamos de pé. As portas se abriram e saímos para a chuva fina. Olhamos as três coroas de flores lá fora, e depois disso não havia nada mais a se fazer ali. Agradeci a Len, dando por esquecido todo o constrangimento entre nós, e apertei sua mão, antes de ele se virar, erguer a gola para se proteger da chuva, seguindo para o estacionamento, curvado com o peso de seu sobretudo.
— Annabel, já vou indo.
Era Kate. Precisei encará-la com atenção para me lembrar de quem era, muito embora tivesse me sentado de frente para ela todos os dias no trabalho nos últimos três anos.
— Ah, sim. Obrigada por ter vindo. Foi… muito gentil da sua parte.
— Tudo bem. Fiquei realmente feliz em receber o convite.
— Não mandei convites — retruquei automaticamente. — Foi Sam.
— Ah, é? Bem… — Suas bochechas coraram.
— Quero dizer… Desculpe-me. Fui grosseira. É que fiquei surpresa ao ver você.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Por que surpresa? Todos nós andamos preocupados com você, sabia? Sei o que você pensa… Meu Deus, isso é constrangedor. Temos sempre a impressão de que você não gosta de estar ali no escritório com a gente. Eu queria que você se entrosasse um pouco mais.
Então foi a minha vez de ficar chocada.
— É mesmo?
— Claro. — Ela sorriu para mim e, pela primeira vez, tive quase certeza de que não estava fingindo. Afinal de contas, estávamos só as duas ali. Não havia ninguém para ela tentar impressionar, ninguém para quem se exibir.
— Então… quem é esse Sam? — perguntou ela. — Namorado novo?
Por um instante, fiquei tão perplexa que não consegui responder. Como alguém poderia sequer pensar…? Mas ela continuou:
— Ele é bonitinho? Onde vocês se conheceram?
Ela estava olhando para além de mim. Ao me virar, vi Sam conversando com uma das senhoras da Organização Social. Ele sorria, a cabeça inclinada na direção dela, para que pudesse ouvi-lo, o cabelo preto caindo em cima dos olhos.
— Ele não é meu namorado — repliquei, chocada.
— Ah — disse ela. — De qualquer maneira, parece ser um cara legal.
— É, sim. Ele é adorável.
— Mas não é…?
Balancei a cabeça. Não faz o meu tipo, pensei, mesmo sem ter a menor ideia de qual era o meu tipo, na verdade, e tampouco por que Sam não se encaixaria nele.
— Sentimos sua falta no trabalho, sabe — disse ela. — Sério, todos mandaram um grande abraço.
— Vou voltar logo. Segunda-feira, talvez.
— Leve o tempo que precisar — acrescentou ela. — Mas vai ser ótimo ter você de volta. — Ela se virou para ir embora, mas hesitou e voltou para perto de mim. — Você sabia que Frost reuniu uma pilha inteira de contas telefônicas? Ele está fingindo que sabe o que fazer com elas, mas na verdade…
— Contas telefônicas? Para a investigação?
— É. Quer dizer, eu poderia dar uma olhada, mas o filho é seu, não é? Esse, pelo menos. Não quero me meter.
— Ele nunca me contou isso.
— É provável que não esteja querendo fazer pressão para você voltar, mas, sabe, se fosse comigo, eu gostaria de participar. Você não se importa que eu diga isso, não é mesmo?
— Não, de maneira alguma. E você está certa, quero mesmo participar da investigação. Obrigada, Kate.
Ela seguiu para o estacionamento. Observei-a se afastar, sentindo um rumor de excitação por dentro. Eu não estava ansiosa para voltar ao trabalho, lembrando-me daquela sensação de isolamento, mas na verdade a conversa com Kate me deixara mais animada em relação a isso. Ela não precisava ter ido ao enterro, mas fizera um esforço, não só em comparecer como também em falar comigo no final. Talvez as coisas fossem melhorar a partir de então. E agora eu tinha um verdadeiro objetivo, uma tarefa a ser cumprida.
De volta a Keats Road, Irene havia preparado um assado, o qual precisei me esforçar para engolir, muito embora estivesse delicioso. Eu me esquecera do que era sentir fome. A atmosfera ao redor da mesa estava calma, o que devia ser por minha causa. Todas as refeições, desde que eu chegara, tinham sido acompanhadas de conversas interessantes e risadas. Brian era um piadista, sempre contando longas histórias engraçadas sobre seus amigos, colegas de trabalho, sobre Irene ou Sam, com uma faísca nos olhos que eu descobrira significar que tudo era pura invenção sua e, ao final, ele viria com alguma conclusão de mau gosto. Seu método para contar a história era sempre deixar a parte mais engraçada para o fim.
— Não lhe dê atenção. — Irene me tranquilizara, na primeira vez que isso aconteceu.
Essa história, em particular, tinha levado vinte e três minutos para ser contada do começo ao fim, em parte porque ele se distraíra no meio do caminho e se perdera, desviando-se para a história do cachorro de alguém que comera um sanduíche de camarão que continha comprimidos escondidos contra a ansiedade e teve que fazer uma limpeza estomacal (e, aparentemente, nesta intervenção, entre os conteúdos encontrados no estômago havia também um misterioso anel de diamante que ninguém jamais vira e uma moeda romana). E então, por fim, acabou recuperando o fio da meada, voltou à história original sobre um amigo dele que, por acidente, tivera uma overdose de Valium e dormiu cinco dias seguidos. Nada disso era verdade. Ouvi tudo aquilo, absorta, principalmente porque não precisava falar nada.
Irene e Sam pareciam lidar com ele conversando entre si — já haviam ouvido tudo isso antes, afinal de contas. De vez em quando, ele aparecia com uma nova e eles prestavam atenção, sorrindo, esperando o desfecho da piada.
Quando nos sentamos para comer o assado, Brian começou com a história de um enterro ao qual tinha comparecido, o de um colega cujo passatempo havia sido a ventriloquia. Irene lançou-lhe um olhar por sobre a mesa, provocando uma interrupção súbita e inesperada da sua anedota. Em seguida, o silêncio pairou.
— Vou dar uma saída — falei quando acabamos de comer.
Todos me olharam, surpresos.
— Vou com você — disse Sam, se levantando.
— Não, tudo bem. Só preciso de… hum… um pouco de ar fresco.
Antes que ele argumentasse, saí e abri a porta do carro.
O estacionamento do distrito policial estava praticamente vazio, o que não chegava a ser uma surpresa, considerando que eram quase quatro horas da tarde de uma sexta-feira. Estavam todos no pub, a caminho de casa, ou jogando sinuca no bilhar do outro lado da rua. Parei numa das vagas reservadas para o Setor de Inteligência.
Segui até a Sala de Operações Especiais, sem encontrar ninguém no caminho, mas quando abri a porta, havia três pessoas lá dentro — todas ao telefone. Eu me lembrava vagamente de ter sido apresentada a todos os três no meu primeiro dia, mas nome algum veio à minha mente. Sentei-me à mesa que Frost me designara e liguei o computador. Assim que o sistema autorizou meu acesso, abri o e-mail e vi que tinha recebido quatrocentas e vinte e sete mensagens. Nada mal. Selecionei as mensagens por remetente e me concentrei naquelas enviadas por Frost. Havia cinco com os títulos “Contas telefônicas”, “Mais contas”, “Contas do número 872”, “Contas de 481” e “Sinto muito. Último lote, juro”.
Suspirei com uma sensação que devia ser de prazer. Eu já trabalhara com dados telefônicos antes; algumas pessoas podem ver nisso apenas uma lista infinita de números, planilhas intermináveis e destituídas de sentido aparente, mas eu adorava. Era a consciência de que, em algum lugar, enterrado lá no fundo sob dezenas de milhares de números, datas, horas e durações, havia um padrão: informações úteis ocultas, esperando que eu as encontrasse.
Abri o primeiro e-mail. Havia várias planilhas em anexo, identificadas pelos números dos celulares. A mensagem dizia:
Annabel,
não sei quando você terá tempo para cuidar disso, mas, se puder fazer uma triagem para nós, seria ótimo. Estas são as contas telefônicas dos aparelhos encontrados nas residências investigadas até agora. Ainda estamos aguardando outros. O de Rachelle parece interessante. Como você sabe, nunca achamos o celular que ela levou quando saiu da casa dos pais. E era um aparelho pré-pago. Conseguimos autorização para averiguar as chamadas e também estamos aguardando isso.
Andy
Fiz uma nova planilha para registrar todas as informações, relacionando os nomes das “vítimas”, assim como os números dos telefones, o período que as contas abrangiam e o tipo de telefone. A maioria das colunas estava em branco, mas com um pouco de sorte eu seria capaz de preenchê-las aos poucos. Abri todos os e-mails e acrescentei os detalhes das planilhas restantes. Havia as contas de todos os telefones encontrados na maior parte dos endereços recentes, inclusive um nome que me causou arrepio — Shelley Burton.
Depois de cerca de uma hora, todos tinham saído da sala e já estava escuro lá fora. Assim ficou mais fácil me concentrar, e não demorou muito para que um padrão se concretizasse e tudo começasse a fazer mais sentido.
Havia algumas diferenças importantes entre as contas das vítimas. Judith Bingham, Noel Gardiner, de quem eu não ouvira falar, George Armstrong, que fora descoberto durante a minha ausência, e alguns outros — todas as contas pareciam normais — que tinham feito e recebido diversas ligações durante um longo período. Havia mensagens de texto, chamadas não atendidas e recados na caixa postal.
Assim que examinei as outras, contudo, vi uma diferença súbita e forte. O extrato de Rachelle Hudson foi o primeiro. Só havia chamadas recebidas de um único número, as ligações tinham começado cerca de dois meses antes de ela ser encontrada e tinham certa regularidade — uma chamada todas as noites, com duração de somente alguns minutos. Nenhuma mensagem de texto. As três últimas linhas dos dados mostravam chamadas não atendidas em noites consecutivas, próximas do fim de março. Rachelle tinha sido encontrada em vinte e um de abril.
Pesquisei a base de dados em busca do número que tinha ligado para o celular de Rachelle, mas era desconhecido.
Voltei a analisar as contas de Judith, Noel e George, procurando o número desconhecido em suas chamadas, mas não encontrei nenhum deles. Procurei um número diferente que apresentasse um padrão de chamada similar, ligações recebidas regularmente à noite, mas não achei nada assim. Estava começando a ter mais certeza de que esses três não faziam parte da série.
Depois disso, dei uma olhada nas contas das duas vítimas encontradas logo após Sam ter recebido aquela ligação e, assim como no da vítima seguinte, alguém chamado Edward Langton, os três apresentavam exatamente o mesmo padrão da conta de Rachelle — somente chamadas recebidas. Todas as noites, de curta duração. Para cada aparelho, as chamadas haviam sido feitas em horários um pouco diferentes. Ligaram para o telefone de Dana às 18h46, 18h42, 18h44… por volta de quinze para as sete, toda noite. As duas últimas chamadas não foram atendidas, e depois, não havia mais nada. E isso tinha sido em agosto.
As chamadas regulares para o telefone de Eileen ocorriam mais cedo — 18h31, 18h30, 18h27, 18h30… e depois, uma ligação feita do seu telefone, na véspera da descoberta de seu corpo, para um número fixo. Deve ter sido o telefonema que Sam recebeu. Momentaneamente distraída, digitei o número no sistema de busca da base de dados. Era isso mesmo: o número da redação do jornal Briarstone Chronicle.
Olhei a conta do telefone que havia sido encontrada no último endereço — o de Edward Langton. E, mais uma vez, o mesmo padrão. Somente chamadas recebidas, e desta vez, todas cerca de seis horas. Às vezes, um ou dois minutos mais cedo, ou mais tarde, mas sempre por volta das seis horas da tarde. Havia algo naquela questão do horário que me incomodava. Eu me concentrei e vasculhei a minha mente para tentar descobrir o que era. Mas não consegui. Talvez fosse sua regularidade, a audácia, a sensação de que aquilo era algo bem organizado, planejado. Voltei às planilhas e verifiquei os telefones encontrados no endereço de Robin Downley, e, por fim, no de Shelley Burton. Cada conta apresentava o mesmo padrão definido — chamadas regulares recebidas à mesma hora da noite — e depois duas não respondidas — e então, mais nenhum contato. Difícil acreditar que não houvesse uma relação entre elas —, mas, em cada caso, o número que ligava era diferente.
Na agenda do escritório encontrei o número do celular de Andy Frost, peguei o telefone e liguei. Só tocou uma vez, antes de cair na caixa postal. Tentei pensar racionalmente, mas a excitação ao pressentir que poderia ser fácil desvendar o caso fazia com que eu ficasse me remexendo na cadeira.
O mais sensato a ser feito seria documentar tudo, concluir o registro do resumo dos dados na minha planilha e então redigir um relatório com recomendações para todos eles lerem minuciosamente na segunda-feira.
Olhei para a tela, depois para o telefone e então liguei de novo para Frost e, dessa vez, deixei um recado: “Oi, sou eu, Annabel. Estou no escritório. Você pode me ligar com urgência, por favor?”
Olhei para as janelas escuras e ouvi o silêncio estranho que ignorara até aquele momento; nenhum ruído vinha do sistema de som, das xícaras de chá na cozinha, ninguém ria ou conversava, nenhum telefone tocava. Era como se eu fosse a única pessoa que sobrara no prédio todo. Este não era o caso, eu sabia — a carceragem estava só esquentando para enfrentar o período mais difícil da semana, a noite de sexta-feira, e os policiais do plantão da noite deviam estar chegando para substituir os do último turno na sala de serviço. Mas lá em cima… a Sala de Operações Especiais estava adormecida.
Comecei a digitar o relatório e, em pouquíssimo tempo, eu estava totalmente absorvida, tão concentrada que sequer ouvi a porta se abrindo atrás de mim.
— Oi — disse alguém. — O que você está fazendo aqui tão tarde?
Era o inspetor chefe Paul Moscrop, mas eu estava tão focada nas planilhas que, por instantes, não consegui me lembrar do seu nome.
— Só quero terminar isso, senhor — respondi.
— Não sabia que já havia voltado, Annabel. Como você está?
Ele estava apoiado na porta, a gravata frouxa, as mangas arregaçadas. O visual de sexta-feira à tarde, só que era sexta-feira à noite e ele deveria estar em casa àquela hora.
— Estou bem — falei. — Obrigada por perguntar. Acho que só queria voltar a me sentir útil.
— Claro. Bom ver você. — Ele me lançou um sorriso cordial e se virou para ir embora. — Não fique até muito tarde, ok?
— Senhor — chamei. — Podemos conversar um minuto?
Ele se virou para mim, ao lado da porta, e apesar de ter dito “Claro!” outra vez, seu comportamento era o de quem já trabalhara o bastante aquele dia e só queria ir para casa. Mas, respeitosamente, se aproximou e olhou minha planilha. Expliquei as semelhanças entre as contas telefônicas de Rachelle Hudson e dos outros cinco — pois os demais provavelmente não pertenciam ao mesmo grupo de vítimas.
— A menos que estivessem usando outro telefone que não tenha sido encontrado ou que então tenham levado embora antes de os corpos terem sido descobertos — falei. — Mas, ainda assim, os padrões entre eles variavam e alguns aparelhos estavam recebendo ligações de mais de um número, amigos e familiares, suponho, até algumas semanas antes de serem encontrados. Por isso, acho que podemos eliminá-los.
Paul Moscrop apontou para algo na tela.
— O que é isso?
— A lista de números que entraram em contato com Rachelle e os outros. Um número diferente para cada.
— Mas o padrão é o mesmo?
— É.
— Muito interessante. Você já solicitou as contas telefônicas desses números, aqueles que ligaram para as vítimas?
— Não. Nunca fiz uma solicitação antes. Mas precisamos deles com urgência, acho.
— Certo — concordou ele. Pegando o celular no bolso da calça, ele ligou para alguém. E, virando-se para mim, disse: — Você pode me mandar tudo isso por e-mail?
— Estou fazendo um relatório… — comecei a dizer.
— Keith? Você ainda está no distrito?… Você poderia? Seria ótimo. Suba até a Sala de Operações quando chegar, temos novos materiais… Não, nada disso. Preciso que você consiga mais algumas contas telefônicas. Pode fazer isso?
Houve uma pausa. Presumia-se que Keith, quem quer que fosse ele, não estava tão animado em retornar ao escritório para os “novos materias” que exigiam o preenchimento de formulários on-line.
— Não teria ligado se não fosse importante. E você está de plantão. — O tom de voz do inspetor chefe esfriara. Por fim, disse: — Obrigado. Você pode me ligar quando tiver acabado? Ótimo. Bom fim de semana. Tchau.
Ele desligou o telefone e olhou para o aparelho, balançando ligeiramente a cabeça, distraído. Depois olhou para mim.
— Keith deve chegar aqui em dez minutos, mais ou menos. Ele está de plantão, portanto, não aguente as reclamações dele, está bem? Diga o que é preciso ser feito e fale para ele me enviar um e-mail se precisar de minha autorização para algo. Com um pouco de sorte, deveremos conseguir essas contas bem depressa. Certifique-se de que ele vai dar prioridade à solicitação, ok?
— Obrigada. Alguma ideia de quanto tempo leva para nos mandarem tudo?
— Depende do provedor. Espero que menos de vinte e quatro horas. Talvez menos. O que você acha de fazer algumas horas extras este fim de semana?
— Seria ótimo.
— Tem certeza de que está bem para fazer isso, Annabel? Você teve umas semanas bem difíceis.
— Eu sei. Preciso me manter ocupada. Obrigada, mesmo assim.
Ele parecia indeciso. Pressenti certo constrangimento nele e esperei para ver o que viria em seguida.
— Eles interrogaram você, não foi?
— Interrogaram, sim.
— E ainda não se lembra de nada? Do que aconteceu?
— Tenho tentado não pensar nisso, sabe? Sei que não ajuda muito.
— Não tem problema. O mais importante não é ser útil. Só não quero que pense que não pode falar conosco, entendeu? Caso se lembre de mais alguma coisa.
O que ele achava que ia acontecer? Que eu iria me lembrar repentinamente de tudo o que o anjo me dissera e guardaria para mim mesma, só de brincadeira? Balancei a cabeça.
Ele se certificou de que eu tinha o número do seu celular e então se foi, deixando-me na grande sala silenciosa, sozinha, esperando Keith. Voltei a me concentrar no relatório.