Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 35 de 52

Páginas do PDF

Restos Humanos

Annabel

 

SAM FOI ME VER QUASE TODOS os dias. No início, quando ele vinha, eu só conseguia olhar para o relógio na parede oposta enquanto ele me fazia perguntas. Algumas vezes, eu fingia estar dormindo. Mas depois de uns dias percebi que sua presença não me incomodava e, na verdade, me surpreendi esperando ele aparecer. Acho que foi nesse momento que comecei a me recuperar, pois sentia vontade de conversar.

— Por que você está aqui? — perguntei. — Deveria estar trabalhando.

— Posso entrar mais tarde. E você, como está se sentindo?

Não respondi. Não tinha palavras para descrever como me sentia. Ou, para ser mais exata, não sentia nada. Nenhuma sensação ou qualquer outra coisa, além de uma vaga decepção por ainda estar ali.

— Annabel?

Olhei na sua direção, sabendo que aquele era meu nome e, portanto, deveria responder.

— O quê?

— Quer saber como está indo a investigação? Andrew Frost disse que passou por aqui para ver você. Ele quer que se mantenha atualizada.

Tentei me lembrar se mais alguém tinha vindo me visitar, mas tudo era um borrão. Voltei a olhar para o relógio. Todo dia, eu aguardava aquela linha, a linha vertical, perfeitamente reta que indicava as seis horas, aguardando que algo acontecesse. Esperando um pouco de sossego, esperando o silêncio, esperando uma sensação de paz. Mas isso nunca acontecia e, às seis e cinco, todo dia, o processo de espera começava mais uma vez.

O relógio marcava onze e vinte. Eu queria voltar a dormir de forma adequada, mas logo daria a hora do almoço e, de qualquer maneira, toda vez que tentava dormir durante o dia, alguém aparecia e me acordava. Havia regras naquela ala do hospital, e uma delas era que a hora de dormir era à noite. Apesar dos ruídos, dos gritos e dos choros.

— Ele me falou que estão realmente precisando de você lá, Annabel.

— Mas não sei de nada.

— Eles querem fazer muitas perguntas para você. Como: o que aconteceu com o seu celular? De quem é esse outro telefone?

— Não sei.

— Você deve ter encontrado alguém, Annabel. Deve ter encontrado a pessoa que trocou o seu celular por este. Você se lembra?

Tentei me concentrar, porque talvez ele parasse de perguntar se eu desse a resposta certa, mas não havia nada a lembrar — apenas uma confortável escuridão, um calor, um espaço de tempo no qual tudo tinha estado bem, até me arrancarem de lá e me trazerem para aquele lugar branco, barulhento e frio.

— Não consigo me lembrar de nada.

— Você saiu? Encontrou alguém enquanto estava fora?

A enfermeira então chegou, interrompendo-o. Ele se sentou, quieto, e sorriu enquanto ela cuidava de mim.

— Você está conversando com a gente hoje, Annabel? Essa é uma boa notícia. Gostaria de sair para dar um passeio?

— Não — respondi.

— Talvez seu amigo possa ir com você.

No mesmo instante Sam respondeu:

— Claro. Posso sair um pouco com você. Que tal?

— Não sei — falei.

— O dia está lindo. Você deveria sair e respirar um pouco de ar fresco.

A enfermeira me colocou numa cadeira de rodas, muito embora eu pudesse ir andando. Talvez ela soubesse que, se não me colocassem numa cadeira de rodas, eu andaria reto até a porta e iria embora.

Sam empurrou a cadeira, passando pela saída de emergência e depois indo para um dos pátios quadrangulares. Estávamos cercados de edifícios; não havia saída, mesmo que tivesse conseguido ficar de pé e sair correndo. Ele me posicionou bem nos raios de sol e inclinei a cabeça para trás, sentindo o calor no meu rosto. Uma brisa balançou meu cabelo, que estava oleoso e comichava. O resto de mim, contudo, estava limpo — eles me fizeram tomar uma ducha ontem e fiquei debaixo do chuveiro até aparecerem para me tirar dali.

— Havia um arco-íris — falei.

— O quê?

— Vi um arco-íris. Foi a última coisa que aconteceu. E o anjo.

— O anjo?

Ele deve saber que estou falando metaforicamente, pensei. O anjo era o meu anjo; não iria aparecer para outra pessoa qualquer. Para todos os outros, o anjo era fruto da minha imaginação, só eu sabia que era real. Era ele que podia mudar tudo, que aparecera para mim quando eu mais precisava dele, quando estava desesperada, triste e solitária. Ele surgiu para mim e me mostrou qual caminho deveria seguir. Sam certamente não tinha um anjo, e por isso eu ficava triste por ele.

— Não é real — falei, tentando consolá-lo. — Nada disso é real. Você sabe.

— Como você sabia que era um anjo? — perguntou ele, com a voz calma, serena.

— Ele me fez sentir melhor. Fez todas as coisas ruins sumirem.

— O que ele disse? Você se lembra?

— Disse que eu estava bem, que tudo estava bem. Falou que eu devia ir para casa e que não precisava me preocupar com nada.

— Ele deu alguma coisa para você comer ou beber?

Comecei a dar risada, o que me fez tossir.

— Ele não era esse tipo de anjo.

— Receio que não fosse um anjo bom, Annabel.

Abri os olhos e olhei-o de soslaio, ajustando minha visão à forte claridade, até conseguir focar no seu rosto. Era a primeira vez que olhava para ele adequadamente, depois de algum tempo sem conseguir isso, e de repente me lembrei de tê-lo encontrado fora do hospital, e como aquela intrusão me irritou, mas, agora que havia passado, ele me fizera sentir melhor em relação à minha mãe, em relação ao que acontecera com ela. O rosto dele era bonito, e seus olhos me lembravam os do meu pai; como pareciam sorrir, mesmo quando ele estava sério. Ele era bastante gentil, pensei. Era gentil que continuasse me visitando.

— O que você quer dizer?

Ele estava sentado num banco com a cadeira de rodas estacionada ao lado, de forma que pôde estender o braço e segurar minha mão, que estava pousada em meu colo. Sua mão era quente e firme.

— E se ele estivesse fingindo ajudar? E se estivesse fingindo ser um anjo?

A resposta veio automaticamente.

— Não sei de nada.

Ele tentou outra vez.

— Você sabe onde está agora?

Olhei à minha volta, os prédios rodeando um canteiro verde.

— É um hospital — respondi. — Acho que é um hospital.

— Isso mesmo — disse ele. — Você está aqui porque foi encontrada em sua casa sozinha e pelo que tudo indica, não ingeriu comida ou bebida alguma durante quatro dias.

Podia ouvir as palavras que ele proferia, mas elas não faziam sentido algum. Eu não tinha sentido fome ou sede. Só quisera dormir. Desejara que tudo acabasse e que me deixassem sozinha. Mas agora era diferente, não era? O sol brilhava na minha pele.

— Disseram que você estava tentando morrer de fome.

Balancei a cabeça.

— Não, isso não é verdade.

— Foi o que eu disse a eles. Disse que você estava ocupada com a investigação, tinha coisas para fazer… Certamente passou por um momento difícil, com o falecimento da sua mãe, mas você não queria morrer. Não estava tentando morrer, não é?

— Não — respondi. — Só queria dormir.

— Pois eles acham que você tentou se suicidar. E é por isso que você está aqui.

— Eu só queria dormir — repeti.

Eu me concentrei bastante e, de repente, algo me voltou à lembrança.

— Eu me lembro da visita dele — afirmei.

— De quem? Do homem?

Suspirei, aborrecida.

— Não, Frost. Eu me lembro que ele veio me ver aqui… ficou sentado na cama. Ele queria saber por que eu não lhe disse que estava deprimida.

— Ele é um homem bom, Annabel. Ele acha que você passou por momentos muito difíceis.

— E eu sequer me dei conta de que aqueles eram sintomas de depressão.

Ele franziu a sobrancelha, inclinou-se para a frente no banco e ficou olhando para o chão.

— Não há por que sentir vergonha. Muitas pessoas sofrem de depressão. E também não é algo fácil de confessar.

Olhei para ele com atenção, me perguntando se eu pensara, durante aqueles dias em que estivera sozinha, que nunca mais o veria.

— Quando você receber alta — disse ele —, pode ficar lá em casa, se quiser.

— Não, obrigada — respondi automaticamente.

— Não acho que eles estejam pensando em deixar você voltar para casa, pelo menos não tão cedo. Se ficar lá em casa, talvez deixem você sair antes. Para nós seria um prazer se viesse, mesmo você sendo rabugenta e hostil a maior parte do tempo.

— Obrigada.

— Não há de quê.

Sorri, apesar de não ser minha vontade.

— A esposa do meu pai, Irene, cozinha muito bem. E além disso tem formação como cuidadora e acompanhante. Portanto, você não poderia estar em mãos melhores. Ela não vê a hora de começar a cuidar da sua alimentação, sabe. Está precisando de um projeto.

— E isso deveria soar tentador?

— Foi minha tentativa nada sutil de fazer você se sentir à vontade com a ideia. Então, o que acha?

Não respondi de imediato. Tentei me imaginar voltando para casa e trancando a porta. A impressão era de aquela era a coisa certa a fazer, o caminho certo a seguir… mas havia algo nisso tudo que me deixava com medo.

Ele se mexeu outra vez no banco.

— Você se lembra das pessoas que morreram, Annabel? Você estava pesquisando todos aqueles corpos que foram encontrados já em decomposição nas próprias residências. Está lembrada?

Assenti, embora fizesse muito tempo que não pensava naquilo.

— Você se lembra de Rachelle? De Shelley, a mulher que você encontrou na casa ao lado da sua? E as duas que foram descobertas pouco antes de eles começarem a investigação? Você se lembra de que recebi uma ligação de uma das vítimas, me dizendo onde encontrar outra?

Franzi a testa ao ouvir os detalhes, tentando agarrar as lembranças que não paravam de me escapar.

— Eles ainda estão tentando descobrir quem é o responsável por tudo isso, Annabel. E acho que é o homem que você encontrou. Acredito que ele tenha feito alguma coisa com você, pois estava seguindo o mesmo caminho de todas aquelas outras pessoas.

— Mas… — Por que aquilo era tão difícil? Por que meu cérebro não estava funcionando? Por que não conseguia pensar com clareza? — Mas eu estava… feliz.

— Estava feliz morrendo de inanição?

— Não era bem assim — rebati, balançando a cabeça. — Era apenas como se… Não sei… como se estivesse flutuando para longe.

— Mas você não queria morrer?

— Acho que não. Não estava tentando me matar. Só queria dormir.

— Mas teria morrido se eu não a tivesse encontrado.

— Você me encontrou?

— Tentei ligar para você, mas seu telefone estava desligado. Enviei uma mensagem de texto, e algumas horas depois, veio uma resposta realmente estranha, dizendo que você estava pensando em partir e queria ficar sozinha. Por fim, acabei indo até sua casa. A porta dos fundos estava destrancada. Sua gata estava enlouquecendo.

— Gata?

— Não se preocupe. Tenho passado na sua casa todo dia e dado comida para ela, que é uma graça, aliás. Como se chama ela?

A gata. Tentei encontrar outra palavra na minha cabeça, procurei por ela, quase desisti e então, de repente, lá estava.

— Lucy. O nome dela é Lucy.

— Bem, é melhor do que Puss, o nome que Irene inventou.

As cores estavam fortes demais, o verde da relva e as folhas nas árvores, vermelhas, douradas e marrons, além de todas as cores imagináveis neste espectro. E o céu, tão azul, um azul brilhante que machucava meus olhos.

— Minha mãe morreu — falei. — Parece que foi anos atrás.

— Faz apenas duas semanas. Sinto muito. Sei como dói. Passei por isso também. Você precisa de tempo e de todo o apoio possível.

— Eu devia estar resolvendo várias coisas, não é?

— Posso ajudar. Está tudo bem. Falei com o pessoal que cuida da família dos pacientes hospitalizados, e eles estão guardando o corpo da sua mãe, para quando você estiver pronta. Não há com o que se preocupar.

O sol se escondeu atrás de uma nuvem e a brisa pareceu repentinamente fria. Estremeci e cruzei os braços no peito.

— Você quer entrar?

Olhei para trás por cima do ombro, na direção da saída de emergência, por onde era o caminho de volta para a enfermaria.

— Não. Posso ficar aqui mais um pouquinho?

Ele então sorriu, um grande sorriso feliz, e percebi que também estava sorrindo para ele.

— Você vai ficar bem — disse ele.

— Vou. Claro. Não há nada com o que me preocupar.

Ele estendeu a mão e afagou meu braço e depois me deu uns tapinhas no joelho.