Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 5 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

FUI COM KATE À REUNIÃO TÁTICA na quarta-feira, ainda que fosse a vez dela. Geralmente, ela consegue encontrar um jeito de escapar, mas nessa ocasião se mostrou surpreendentemente entusiasmada. Estava abrindo a apresentação no computador, de costas para mim, a posição dos ombros e o sorriso parcial nos lábios me dizendo de modo implícito que ela achava que eu estava a ponto de me fazer passar por uma grande idiota, e ela iria se divertir com o espetáculo.

O inspetor Andrew Frost, a dois anos de se aposentar, uma das pessoas que eu mais gostava no trabalho, foi o último a entrar pela porta.

— Bom dia, Annabel. Bom dia, Kate. Hoje temos duas analistas pelo preço de uma, não é mesmo?

— Bom dia, senhor — respondi.

Senti um enorme alívio ao ver que seria Frost a comandar a reunião hoje. Alguns outros inspetores tendiam a fazer perguntas, um bocado delas, mesmo as que não faziam sentido algum. A impressão era de que eles queriam nos pregar uma peça, o tempo todo, tentando parecer espertos à nossa custa.

Todos sentaram-se à mesa, uniformizados de um lado, civis do outro. O inspetor na cabeceira; os policiais Ellen Traynor, Amanda Spitz e Brian Jones, também conhecido como “Salsicha”. Certa vez, perguntei a Trigger como ele ganhara aquele apelido, já que não tinha uma barbicha nem um cachorro chamado Scooby-Doo, e acabei descobrindo que, na verdade, era porque ele costumava entender as coisas errado e tinha, certa vez, respondido a uma acusação com a frase: “Não fui eu.” O apelido ficara por dez anos. Eu não esperava grande contribuição de sua parte. Do nosso lado da mesa estava Jo, do Setor de Inteligência, que cuidaria da ata, uma mulher do Serviço Social cujo nome eu sempre esquecia, desta vez acompanhada de um homem mais velho vestindo um suéter, Carol e nós duas.

Kate fez sua parte primeiro, e depois teve início uma discussão sem fim em volta da mesa sobre todas as missões em curso e como elas estavam sendo conduzidas, o orçamento disponível que tinha sido destinado para elas, e se os riscos estavam sendo bem administrados.

Tentei não ficar inquieta e comecei a me preocupar sobre o que iria dizer.

— Certo, então alguma proposta? Não? Muito bem, então. Mais algum ponto a ser discutido, antes de concluirmos?

Eu me manifestei logo, antes que alguém começasse a pedir horas extras mais bem pagas.

— Sim, mais uma coisa.

— Annabel?

— Andei fazendo algumas pesquisas sobre mortes sem explicação em que o morto ficou um tempo sem ser descoberto. Ao que parece o número desses casos está anormalmente elevado até agora este ano. Fiz um gráfico…

Obediente, Kate passou da apresentação tática para o gráfico que eu terminara mais cedo, elaborado para mostrar o enorme aumento do número de casos.

— Devo ressaltar que esse pico representa este ano até a data de hoje, ao passo que os outros anos estão completos. Se as coisas continuarem seguindo essa média no restante do ano, podemos esperar que o número de casos ultrapasse trinta. Como podem ver, jamais tivemos mais de onze nos anos anteriores.

Olhei ansiosa ao redor da mesa. Todos continuavam sentados num silêncio de mármore, observando meu gráfico.

Por fim, Mandy Spitz falou:

— Desculpe, Annabel, mas não está claro para mim. Esses números representam homicídios?

— Não — falei. — São pessoas que morreram em suas casas e só foram achadas muito tempo depois.

Pensei ter ouvido um ruído, como alguém bufando, provavelmente Carol. Outra pessoa sussurrava algo. Senti minhas bochechas começarem a queimar.

Frost limpou a garganta.

— Você tem alguma teoria que possa explicar por que foram tantos assim? Alguma coisa relacionando os casos?

— Bem — respondi, olhando de relance para Kate e fazendo-lhe um gesto com a cabeça —, o próximo slide mostra alguns pontos interessantes…

Havia somente alguns asteriscos para chamar a atenção.

— Pois bem, há uma ampla faixa etária neste ano. A mais jovem tinha apenas vinte e um anos, trata-se de Rachelle Hudson, tenho certeza de que todos se lembram dela, e a mais velha estava com noventa e poucos anos. Mas há também pessoas em torno de vinte, trinta, quarenta, cinquenta e sessenta anos. Em todos os anos anteriores, só encontramos dois corpos de pessoas com menos de sessenta anos. Um dos casos foi provavelmente provocado por uma overdose, outro acreditamos tratar-se de um suicídio. Mas neste ano todas essas pessoas, exceto uma, não tinham nenhuma causa aparente de morte.

— Você quer dizer que os corpos estavam em estado avançado de decomposição e não foi possível descobrir a causa da morte? — disse o homem de suéter. Sua voz era profunda, sonora, como se viesse de uma caverna imensa dentro dele.

— Mais ou menos — respondi, me preparando para abordar a questão principal. — Além disso, a maioria dessas pessoas foi encontrada em lugares comuns em suas casas: deitada na cama ou sentada na poltrona. Nos outros anos, encontramos corpos em decomposição com um nó improvisado em torno do pescoço, por exemplo, ou na banheira, como se pudessem ter se afogado. Alguns dos registros desses incidentes não especificam o local onde o corpo foi achado, mas, mesmo assim, não parece haver muitos casos que poderíamos explicar de outra maneira, senão que essas pessoas… bem, simplesmente morreram.

— Senhor, eu participei do caso de Rachelle Hudson com a equipe de Hampshire — disse Ellen Traynor a Frost. — Na época, achei muito estranho. Não parecia que ela simplesmente tivesse decidido se isolar da sociedade; parecia que ela tinha decidido morrer.

— Decidido morrer? — exclamou o inspetor Frost. Todos na sala se calaram.

— Isso mesmo. Não havia comida alguma na casa. Nem uma migalha. Ela estava deitada na cama do apartamento, o corpo já bem decomposto. O médico-legista não conseguiu determinar a causa da morte, mas sua teoria é que ela morreu de fome.

— Há meios mais agradáveis do que esse de acabar com tudo de uma vez — disse Mandy.

— Há vários — completou Frost, calando-se em seguida e examinando o slide.

Comecei a me sentir mal novamente.

— Não tenho certeza de que este seja o fórum adequado para isso, na verdade — ele se manifestou, enfim. — Se ao menos houvesse algo que sugerisse um delito…

— Somente as idades incomuns — falei. — E o fato de todos aparentemente terem sido esquecidos por completo. Isso acontece às vezes, com idosos que têm tanto medo de serem despachados para um asilo que evitam contato com o mundo exterior, mas isso não acontece com os mais jovens.

— Esses dados se referem unicamente à nossa jurisdição? — quis saber Ellen. — E quanto ao resto do país?

Eu tinha me esquecido do último slide, que tolice.

— Isso é interessante também. Aparece na próxima tela…

Kate entendeu a deixa e apertou a tecla.

— Trata-se de um gráfico bem simples. Como podem ver, todas as outras áreas mantêm níveis similares aos dos anos anteriores. Não sei o que está causando esse pico no gráfico, mas é só aqui, em Briarstone.

Todos fixaram o olhar na apresentação. A mulher do Serviço Social estava boquiaberta. Frost passou a mão em seu cabelo cinza e curto.

— Vou comentar isso com o Grupo Tático — disse ele, por fim. — Vamos ver se um deles tem alguma ideia. Pode me mandar por e-mail esses slides, Annabel?

— Sim, senhor — respondi.

— Posso fazer agora mesmo, se quiser. Aproveitando que estão abertos — disse Kate, prestativa.

* * *

— Você vem? — Trigger perguntou a Kate, de pé ao lado da porta, enquanto colocava o casaco.

Eram três e meia da tarde. Trigger tinha uma vaga privativa no estacionamento, por conta de um problema nos quadris (que curiosamente não o impedia de fazer trilhas, seu passatempo favorito nos fins de semana e nas férias), e Kate com frequência pegava carona com ele.

— Tenho umas coisas para resolver, Trig — disse ela. — Mas obrigada, assim mesmo. Até amanhã.

Olhei para ela, surpresa. Normalmente, assim que as reuniões táticas quinzenais acabavam, ela se sentia tão esgotada que ia mais cedo para casa.

— Frost já mandou o e-mail para você? — perguntou ela depois que Trigger se foi. O distrito ficara calmo, mesmo o alto-falante estava mudo havia mais ou menos uma hora.

— Mandou — respondi.

Ele tinha me enviado cerca de uma hora antes, mas eu estava transtornada e frustrada demais para dizer alguma coisa.

— E aí?

— Ele falou que não quiseram nem olhar. Aparentemente, disseram que já estão sobrecarregados com os crimes de verdade que estão investigando.

— Eu avisei.

Sua resposta não ajudou muito, mas pelo menos ela mostrava algum interesse, ainda que isso só servisse para ratificar sua presunção.

— Esse distrito aqui está muito obcecado em atingir as metas do Ministério do Interior — falei. — Tudo o que importa são os índices de reabilitação e de criminalidade. Se não conseguem esclarecer alguma coisa, eles acham um jeito de fingir que nada aconteceu ou que, afinal de contas, não foi um crime. Eles simplesmente ignoram o fato de que estão lidando com gente de verdade, pessoas reais. Tudo acaba sendo destilado em números de criminalidade, a saída mais fácil. Isso me deixa louca.

Meia hora mais tarde, estávamos subindo juntas a ladeira indo na direção do ponto de ônibus. Ela jamais fora comigo a qualquer lugar antes, mesmo quando íamos para a mesma direção na mesma hora. Às quatro, desliguei meu computador e fui lavar minha caneca. Quando voltei, Kate havia vestido seu casaco e acabamos saindo juntas do distrito, como se isso fosse normal.

— Sabe — falei, bufando um pouco enquanto subíamos —, não é como se tivéssemos tido uma onda de calor, ou um inverno particularmente frio, nada disso.

— Ou inundações — acrescentou Kate. Suas pernas longas davam um passo que equivalia a dois das minhas, e sem fazer esforço.

— E, como eu disse na apresentação, os cadáveres não são todos de pessoas idosas. A desta manhã tinha só quarenta e três anos. E teve aquela mulher de Hampshire, lembra? A que encontraram em Baysbury? Tinha apenas vinte e um, e uma outra que acabei de ver, com somente trinta e nove.

— Quanto anos você tem mesmo? — perguntou Kate.

— Trinta e oito.

Ela soltou um risinho, um risinho de alguém que ainda tem só vinte e poucos e para quem quarenta anos parece algo infinitamente distante.

— Não consigo pensar em nada mais horrível do que morrer na própria casa e ser deixada lá, apodrecendo — falei, calmamente, entrando pela porta automática da farmácia e aproveitando o breve sopro de ar quente.

— Mas você não ficaria sabendo, já que estaria morta — disse Kate.

Mordi o lábio. Mas imagine se não for o fim, eu quis dizer. Imagine assistir ao seu corpo se decompondo e saber que não há ninguém por perto que se preocupe o bastante para se perguntar por que não a vê há tanto tempo.

— Você não acha — insisti, inspirando profundamente o odor vindo da confeitaria da esquina — que alguém perceberia? Principalmente quando é alguém jovem. Eles têm famílias, colegas de trabalho, amigos. Mesmo que não estivessem trabalhando, estariam procurando um emprego ou coisa assim. Deve ser bem difícil desaparecer, simplesmente.

— Imagino que sim. Acho que se eu não aparecesse no Facebook por alguns dias as pessoas iam começar a investigar.

Nós nos sentamos no muro, esperando pelo ônibus que nos levaria para o estacionamento onde estavam nossos carros. Quer dizer, Kate sentou-se e fumou um cigarro; eu me apoiei no muro, na direção contrária ao vento.

— Embora talvez ninguém desconfiasse de verdade, caso você fosse sumindo aos poucos — disse ela, alguns minutos depois.

— Sumindo de onde?

— Do Facebook. Quer dizer, se você tivesse a intenção de se afastar da sociedade, então, aos poucos, pararia de postar coisas no Facebook, não é? E, algum tempo depois, ninguém notaria sua ausência. Ou talvez notassem, e então poderiam enviar uma mensagem, um e-mail, mas se não recebessem resposta… bem, a maior parte dos nossos contatos não é realmente nosso amigo, não é? Amigos próximos, quero dizer. E aqueles que são, bem, e se você lhes dissesse que estava indo morar no exterior? Ou que seu computador quebrou, ou algo parecido? Quantos meses levaria até alguém se preocupar de verdade com por onde você anda?

— Eu não estou no Facebook — respondi.

Ela não estava me escutando.

— Mas ainda acho que não faz sentido levar isso adiante. Vinte e quatro corpos ou cinquenta e quatro, ainda estamos falando de pessoas que simplesmente… morreram. As pessoas morrem todos os dias, centenas delas. Nenhum desses cadáveres decompostos foi assassinado, de acordo com os registros, não é mesmo?

Balancei a cabeça.

— Eu vi um caso que o legista não conseguiu determinar a causa da morte, mas a maior parte parece ter morrido de causas naturais.

— Há algo de óbvio ligando todos eles?

— Além do fato de todos terem sido deixados se decompondo e de todos morarem em Briarstone… não vi nada até agora.

— Pois então. Infelizmente, somos analistas criminais. Não estamos aqui para lidar com questões sociais, é isso que vão dizer para você. E o que é pior — disse ela, pulando do muro e jogando o cigarro na lata de lixo — é que se eles acharem que você está ocupada pesquisando algo assim, vão acabar achando outro trabalho para você fazer.

— Ótimo — falei.

Só para variar, o meu ônibus apareceu na esquina bem na hora. Kate, que deixava seu carro em outro estacionamento, para os lados de Baysbury, teria que esperar mais um pouco.

Quando cheguei, não havia vaga para estacionar perto da minha casa. Tive que deixar o carro na rua principal, onde todos os vagabundos e viciados viviam e depois voltei para verificar as portas umas duas, três vezes, não deixando nada de interessante à vista no interior. Meu carro era um Peugeot com dez anos de uso, nada novo e digno de ser roubado, mas, infelizmente, suas especificações básicas faziam dele uma presa fácil. Não seria o fim do mundo, caso o roubassem, apenas um tremendo inconveniente.

Lucy veio me encontrar no fim da rua, saltando de um muro baixo do jardim vizinho e tentando me fazer tropeçar até chegarmos à porta, agindo como se não fosse alimentada havia três semanas. Tentei achar o buraco da fechadura no escuro — precisava trocar aquela lâmpada — e quando enfim abri a porta, o telefone começou a tocar.

— Alô? — Era minha mãe. — É, acabei de chegar em casa, mãe. Posso ligar de volta daqui a pouco?

— Está bem, eu esperei o dia todo, achando que você estaria ocupada demais no trabalho para falar comigo, mas se não pode falar agora…

— Desculpe, mãe. Só estou cansada.

— De qualquer maneira, não vai levar mais de um minuto. Você tem uma caneta?

Sentei-me no sofá ainda vestindo o casaco, equilibrei um bloco de anotações nas pernas e comecei a fazer uma lista de compras do que ela precisaria para o dia seguinte enquanto a gata se esfregava em volta dos meus tornozelos, arranhando minha saia e minha meia-calça, e eu a afastei de mim seguidas vezes, até desistir, encaixar o telefone entre o ouvido e o ombro e ir para a cozinha, procurar a ração da gata.

Fiz um omelete para acompanhar meu chá, assisti a um documentário sobre a África na televisão e depois fui tomar um banho. Fiquei sentada ali na água quente e espumosa, escutando o silêncio da minha casa, o silêncio ecoando.

Tentei imaginar o que poderia ter acontecido todo o tempo em que fiquei sem ver Shelley Burton. Talvez ela estivesse tão infeliz depois que o seu companheiro foi embora, que desistira de cuidar do jardim, desistira da vida. Talvez ele tivesse tido um caso com outra pessoa, e isso simplesmente a deixara devastada.

Todas essas coisas podiam ter acontecido na casa ao lado e eu não percebera. Fazia muito tempo que não a via. Talvez por isso, concluí que ela tivesse se mudado, que a casa estava sendo vendida ou alugada, e acabou que ela ainda estava morando ali, todo esse tempo.

Eu não me sentia triste, mas as lágrimas começaram a brotar, me pegando desprevenida. Lágrimas por causa do silêncio, por causa da solidão. Lágrimas pelas pessoas que morreram em suas casas e lá ficaram, os corpos apodrecendo, transformados em apenas fluidos, ossos e mucosas, não sobrando nada no final, a não ser uma mancha escura sobre o colchão ou a cadeira. Enterradas sem ninguém por perto, exceto uma mulher do conselho municipal que tentara sem sucesso encontrar alguém que as houvesse amado.

E se eu morresse aqui, agora, dariam pela minha ausência? Será que notariam minha falta no trabalho? Será que minha mãe telefonaria para a polícia, caso não conseguisse falar comigo? Talvez alguém viesse até aqui. E se eu não atendesse a porta? Quanto tempo levaria até que alguém a arrombasse? Dias? Semanas? Em que estado estaria meu corpo quando fosse encontrado?

Do outro lado da porta do banheiro ouvi um som de arranhões. A gata, meu arrimo, minha rocha.