Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 44 de 52

Páginas do PDF

Restos Humanos

Colin

 

QUANDO ESCUTEI BATEREM À PORTA, EU estava parcialmente decidido a não abri-la. Num domingo? Era provável que fosse algum evangélico ou, pior, alguém tentando me convencer a trocar de fornecedor de energia. Fixei no meu rosto um sorriso educado, porém firme, pronto para me livrar logo de quem quer que fosse.

E, obviamente, meu sorriso se desfez quando abri a porta.

— Colin Friedland? Sou o inspetor Keith Topping; este é meu colega, inspetor Simon Lewis. Podemos entrar, por favor?

— Não seria conveniente — respondi, olhando-os de cima a baixo. O mais jovem (Lewis?) era mais alto do que eu e tinha o dobro da minha largura, como um típico jogador de rúgbi, se é que já vi um alguma vez. Quis lhe perguntar se ele jogava no ataque ou na defesa. Mas achei melhor não.

— Ah, é? E por que não? — perguntou Lewis.

— Eu estava preparando o jantar — justifiquei.

— Lamento, mas é urgente — disse Topping.

Mas que nome! Keith Topping? Aposto que sofreu bullying dos colegas na escola; que apelido devem ter dado para ele? Topetinho? Estopinha?

Após uma breve discussão dentro de casa, eles me prenderam e me levaram até a viatura da polícia, estacionada fora do meu campo de visão no final da rua. Engraçado que a primeira coisa que pensei, quando eles se apresentaram, não foi que algo tivesse acontecido à minha mãe, no asilo — soube de imediato por que estavam ali. E tive a impressão de que aquele era o início de um capítulo novo e emocionante. Estava embarcando num novo jogo, com novas regras. Dentro do carro, com os punhos desconfortavelmente algemados nas costas, eu sorria saboreando de antemão o que estava por vir.

* * *

Os dois pareciam Débi e Loide, eu diria. São os mesmos que me prenderam. O magricelo estava sentado numa cadeira confortável num canto e o gigante, numa de plástico, pequena demais para sua bunda gorda. Os dois à minha frente, atrás da mesa, enquanto eu, sentado, aguardava para ver do que seriam capazes.

— Colin Friedland, você está ciente de que está sendo preso por causa dos assassinatos de Rachelle Hudson, Robin Downley, Shelley Burton, Edward Langton, Dana Viliscevina e Eileen Forbes. Você tem o direito de permanecer em silêncio, mas isso poderá prejudicar sua defesa se não responder quando interrogado o que mais tarde confiará ao tribunal. O que você disser poderá servir como prova.

Não digo nada.

— Você tem o direito de ter um advogado, como já disse. Sei que nos explicou que não precisa de um, mas só quero deixar claro que você pode mudar de ideia quanto a isso a qualquer momento. Está entendendo?

— Sim — respondo. — Não preciso de um advogado.

— Esse interrogatório está sendo gravado em DVD, Colin. Você entendeu tudo o que eu disse até o momento?

— Entendi, é claro.

— Certo, então. Vamos começar, ok? Pode me dizer quando foi que conheceu Rachelle Hudson?

Tenho mesmo que pensar para responder. Eles acham que vou dificultar as coisas, dá para perceber. Estão equipados para aguentarem um longo período de tempo, determinados como pescadores seguindo para o Atlântico Norte.

— Acho que foi logo no início de fevereiro. Não me lembro da data exatamente.

Pensei que fossem trocar olhares; era quase possível sentir a surpresa como uma corrente elétrica entre eles. Não imaginavam que eu facilitaria tanto as coisas, não é mesmo? E olha que nem fazem ideia do que vem em seguida, não mesmo.

— E como isso aconteceu?

— Foi no parque de Baysbury. Ela estava correndo. Não, na verdade, estava sentada num banco. Mas tinha corrido antes. Acabamos conversando.

— Sobre o quê?

— Pude perceber que ela estava infeliz. Tentei fazer com que ela se sentisse melhor em relação a si mesma.

— Você chegou a visitar alguma vez a casa de Rachelle Hudson?

— Claro — respondo. — Ela me convidou.

— Só dessa vez, ou foi até lá novamente?

— Visitei-a quando já estava morta.

Houve um breve silêncio, interrompido apenas pelo zumbido do DVD. Ambos me encaravam.

— Colin, você matou Rachelle Hudson?

Sorrio para eles.

— Não, claro que não. Ela fez tudo sozinha. Eu estava lá apenas para lhe confortar, garantir que se sentisse feliz com a decisão que havia tomado.

Fizeram mais uma pausa enquanto digeriam a informação e, claramente, vasculhavam dentro de suas cabecinhas limitadas uma nova estratégia para o interrogatório, pois estava evidente que a direção que aquela começava a seguir não estava em seus planos.

— Você a ajudou a tirar a própria vida?

— Não — respondo.

— Você tocou nela de alguma maneira?

Penso por um instante, tentando me lembrar.

— Não, acho que não. Posso ter encostado em seu braço, ou algo assim. Mas nunca fui violento ou coisa parecida.

— Ela falou para você que estava pensando em tirar a própria vida?

— Falou, claro.

— O que ela disse?

— Acho que disse que às vezes sentia que seria mais feliz se deixasse de existir.

— Você sugeriu que ela devia buscar ajuda? Conversar com alguém sobre como se sentia?

— Ela conversou comigo sobre como se sentia.

— Mas você não achou que deveria tentar impedi-la de acabar com a própria vida?

— Não. Foi essa a decisão que ela tomou. Já era adulta.

— E você não informou sua morte a ninguém.

— Não.

— Por que não?

— Certamente porque esse tipo de coisa deveria partir de um de seus parentes, não é mesmo?

Abri um sorriso satisfeito para Lewis, que não o retribuiu.

— Você disse alguma coisa para tentar dissuadir Rachelle de acabar com a própria vida?

— De forma alguma. Assim que escolheu morrer, ela ficou bem mais feliz. Isso foi uma coisa boa, não acham?

Lewis não responde à minha pergunta. Em vez disso, olha para Topping pela primeira vez desde o início do interrogatório. Ele já está desorientado, e não faz nem cinco minutos que estamos conversando. Quase sinto pena dele.

Depois de hesitar um pouco, ele volta a arriscar outra abordagem.

— Você deu um celular para Rachelle?

— Dei, sim.

— E por que fez isso?

— Para poder manter contato com ela.

— Alguma vez ela ligou para você desse aparelho?

— Não. Eu liguei para ela algumas vezes.

— E você levou o telefone de Rachelle?

— Levei, sim. Ela queria romper todo o contato com a família. Não precisava mais do telefone.

— Você o levou sem sua permissão?

— Não, ela me autorizou a levar o telefone.

— O que você fez com o celular dela?

— Joguei fora.

— E como você fez isso?

— Não me lembro exatamente. Devo ter jogado numa lata de lixo em algum lugar.

Lewis solta um longo suspiro e consulta suas anotações. Depois, diz:

— Voltando ao assunto do celular que você deixou na casa de Rachelle, você disse que ligou para esse aparelho algumas vezes. O que dizia para ela quando lhe telefonava?

— Não me lembro exatamente. Eu ligava para saber se ela estava bem, se precisava de alguma coisa.

— Você sabia que ela estava morrendo de fome?

— Sabia.

Eles trocaram olhares outra vez e eu sorri. Aquilo estava sendo tão divertido. Devia ter confessado tudo meses atrás.

— E nessa época, você não pensou que ela precisava se alimentar?

— Não. Foi dessa maneira que ela resolveu morrer. Se eu tivesse lhe dado comida estaria agindo contra sua vontade. Ela já havia escolhido seu caminho. Era um direito dela.

Lewis eleva a voz ligeiramente, pela primeira vez.

— Ela escolheu seu caminho?

— Isso mesmo — respondo, alegre. — Todos nós escolhemos nossos caminhos, inspetor Simon Lewis. Você escolheu seu caminho também, não foi? E você, inspetor Keith Topping. É só quando escolhemos nosso próprio caminho e damos os primeiros passos nessa direção é que se torna possível perceber o que significa sentir-se verdadeiramente feliz. Não concordam?