Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 23 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

EU ESTAVA DEITADA NA MINHA CAMA, olhando as tramas de luz dançarem no teto. Tinha a impressão de ter dormido e acordado, mas não me lembrava de ter despertado. O sol brilhava lá fora e refletia em algo que cintilava no meu quarto. Devia ser a luz do dia. Talvez já estivesse de tarde.

Olhei para o relógio ao lado da cama e notei que marcava 12:05. Devo ter me sentido cansada e resolvi dar um cochilo, mas tinha somente vagas lembranças de ter voltado para casa. De manhã, estive… em algum lugar… de carro. Estacionei o automóvel e vi um arco-íris. Disso eu me lembro, com certeza. Frost tinha me ligado. Falei com ele quando estava no estacionamento observando o arco-íris. E depois… para onde fui?

Estava conversando com alguém. Eu me lembro de ter conversado com uma mulher em algum lugar, durante um bom tempo — mas isso foi ontem à noite ou hoje de manhã? Estava escuro lá fora — então deve ter sido ontem à noite.

Mas de qualquer maneira isso não importava, não é mesmo?

Eu me sentei na cama, lentamente, sentindo tontura e uma onda de náusea. Meu estômago fazia barulho e pensei em descer e preparar algo para comer, mas ao mesmo tempo não estava precisando muito. Nada disso era necessário.

— Seis horas — disse ele.

Por algum motivo, não parei de pensar nisso. Seis horas. O que aconteceria então? Algo de que eu precisava me lembrar… algo que eu tinha de fazer. Às seis horas. Ele disse que eu não precisava me preocupar e eu não estava preocupada, mas pensei que deveria me lembrar de alguma coisa que não parecia mais estar ali. Tinha ido embora, o que quer que fosse, esquivo e escorregadio, como um peixe escapando em meio a algas marinhas.

Pude ouvir um ruído familiar vindo lá de baixo, algo sendo arranhado de maneira irritante e persistente. Uma batida, remota, como se alguém tentasse entrar na casa. Arranhões.

Isso teria que esperar, independentemente do que fosse. Poderia esperar até as seis horas e então alguma coisa aconteceria. Diminuí o volume dos arranhões na minha cabeça, apaguei-o. Então me concentrei no arco-íris e no anjo, meu anjo.

Fiquei olhando para o relógio até quase seis horas. Depois, saí da cama, desperta e pronta para qualquer coisa que tivesse que fazer. Já estava vestida, mas sentia frio. Encontrei meu casaco pendurado no corrimão, no alto da escada e o vesti.

Desci até a cozinha e, na porta dos fundos, pude perceber a forma da gata atrás da portinhola. Ao me ver, ela se ergueu sobre as patas traseiras e arranhou a porta, atirando-se na direção dela. Era esse o barulho que eu ouvira. Olhei para a gata e me perguntei por que ela não passava pela portinhola, se queria entrar.

Um telefone estava tocando, fui até a sala, seguindo o som. No sofá havia uma bolsa, minha bolsa, e o som vinha de dentro dela. Olhei para o telefone e estava escrito “RESTRITO”.

Apertei o botão verde.

— Alô?

Ele me disse algumas coisas. Sua voz soava calma, uniforme e reconfortante, muito embora eu não me sentisse transtornada ou aborrecida. Eu estava tão calma. Era como se estivesse flutuando na superfície de uma água morna, deixando as ondas me levarem para algum lugar onde eu ficaria confortável e em segurança.

— Eu preciso fazer alguma coisa — falei.

— Lembre-se de botar o telefone para carregar — respondeu ele. — Eu já lhe falei sobre o carregador. Está dentro da sua bolsa. Quando acabarmos de conversar, você deve conectar o telefone no carregador imediatamente. Está entendendo?

— Estou. Você me falou sobre o telefone.

— Exato. Você pode fazer isso quando acabarmos essa conversa.

— Tem outra coisa — falei. — Eu devia fazer outra coisa…

— Não. Tudo já foi feito, Annabel. Tudo o que você fizer é porque decidiu que fosse assim. Está tudo bem. Você está bem. Está segura dentro de casa.

— Estou — concordei. — Eu me sinto segura.

— Vou visitar você em breve, mas não precisa se preocupar com isso. Agora, pode dormir, volto a ligar amanhã. Às seis horas. Está entendendo?

— Às seis horas — repeti. — Ok.

Então, ele se despediu e o telefone ficou mudo na minha mão. Fiquei um instante olhando para ele. Aquele telefone não era meu. Era pequeno e preto e tinha uma tela pequenininha. Procurei meu telefone na bolsa — grande, volumoso, um modelo antigo —, mas não estava lá. Em vez disso, achei o carregador, levei-o até a cozinha e o conectei na tomada ao lado da chaleira. Enfiei a outra extremidade na parte debaixo do telefone. A tela se acendeu e uma luzinha começou a piscar com a palavra “CARREGANDO”. Deixei o telefone ali.

Fiquei imóvel na cozinha. Um barulho vinha da porta dos fundos, mas era um ruído normal e parei de prestar atenção. Depois, subi a escada e fui me deitar na cama. Ainda estava vestindo o casaco. Sentia-me aquecida, segura, em casa. Tudo estava bem. Não precisava fazer nada. Só ficar deitada e esperar dar seis horas.