Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 28 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

ASSUMO MINHAS RESPONSABILIDADES COM MUITA SERIEDADE, embora deva admitir que ando distraído, desde que li a matéria no jornal na sexta-feira.

Passei quase todo o sábado em casa, só me aventurando a sair quando anoiteceu, e ainda assim, apenas para fazer uma visita. Depois de ter passado na sexta-feira pela casa na Newmarket Street, resolvi deixá-la em paz até que a transformação ocorresse propriamente. Não é nada legal ser interrompido pelos vivos. Em vez disso, fui ver Maggie. Com frequência, penso que ela será a última a ser encontrada, o que é de certo modo irônico, pois ela é a pessoa mais rica com quem já fiquei por algum tempo. Era de se esperar que seus amigos e familiares mostrassem mais respeito por ela, pois claramente Maggie tinha muito a lhes oferecer. Mas, até o momento, e já faz meses, ela continua sua transformação sem ser interrompida. Sua casa é linda, e o cenário rural significa que o cheiro provavelmente não incomodará os vizinhos, como costuma acontecer em áreas urbanas.

Em geral, vou visitá-la nos fins de semana e, algumas vezes, durante o dia, porque jamais vi uma alma sequer nessa estrada e não me preocupo muito em ser visto. Você acha que eu devia me preocupar em ser visto, não é mesmo? Mas, na verdade, sou uma pessoa bem discreta. Se você me encontrasse na rua, ouso dizer que não ligaria muito para minha presença, e é assim que deve ser. Todavia, prefiro não ser notado.

Quer saber o que faço nessas visitas? Imaginei que quisesse.

Passo um tempo observando as mudanças que ocorreram desde a última vez que fui lá. Faço anotações, porém na maioria das vezes deixo para fazer isso em casa, mais tarde. Tiro fotos com minha câmera digital, as quais examino bem depois, catalogo e guardo em casa. Após um tempo, quando já anotei tudo o que precisava, fico um pouco sentado com elas, observando-as. Sempre tomo cuidado para não perturbar algo no ambiente, nunca deixar nada meu para trás.

Devo dizer que, com muitas delas, a emoção não é mais como antes. A excitação que outrora era altamente erótica foi sendo aos poucos substituída por uma espécie de afeto. Eu diria até, embora nunca tenha entendido por completo o sentido dessa palavra, por amor. Afinal de contas, às vezes passo meses com elas. Acabo conhecendo-as com o mesmo afeto de um amante. Eu vi seus momentos mais íntimos e conheço mais seus corpos do que os próprios maridos, parceiros, mães. Vejo coisas que eles nunca viram em si mesmos: o momento em que o corpo se revela, uma parte de cada vez, quando se abre como uma flor para exibir sua beleza interior.

Algumas vezes, converso com elas, embora, é claro, não possam me ouvir. É um meio de lembrar a mim mesmo que elas são — ou eram — seres humanos, ainda que, é óbvio, de um ponto de vista puramente científico, estejam se tornando depressa uma matéria em deterioração. Acho que elas me excitam mais quando chegam a esse ponto — definam como quiserem — em que deixam de ser uma pessoa. Eu me pergunto o que há em mim que considera o intercurso sexual com outro ser humano algo tão desafiador e, ainda assim, consegue imaginá-lo prontamente, quando este ponto é alcançado.

E quanto ao cheiro? Posso ouvir vocês perguntando: o cheiro não é ruim? Sei que vocês querem saber, não é? Esta seria a primeira pergunta que eu faria se estivesse no seu lugar.

Todos eles têm um odor diferente, é claro, o que faz parte do charme. Embora o cheiro seja penetrante e fique por muito tempo nas narinas, após deixá-las, nunca os considerei intolerável. Quando se passa um longo período perto delas, dá para notar como o cheiro muda e se desenvolve à medida em que a decomposição progride. Às vezes, cheira a queijo rançoso, vômito, carne estragada, outras, chega a ser até adocicado, como uma sobremesa exótica que você precisa ser corajoso para experimentar. Eu me oponho ao cheiro de alimentos em decomposição, é claro. É semelhante, só que menos atraente.

Eu visto sempre as mesmas roupas quando faço minhas visitas, e as lavo com frequência. O odor fica entranhado nos tecidos, como imagino que deva ocorrer com o perfume de um amante, e por mais que eu aprecie o cheiro que fica nas minhas roupas, não posso me arriscar a deixar os outros perceberem.

Na verdade, não falei toda a verdade aqui. Eu disse que nunca acho o cheiro intolerável, mas houve um caso assim. Robin, acho que era esse o nome dele. Um alcoólatra, embora me lembre de que ele era um homem inteligente que seria um conversador arguto e interessante, não fosse sua vida trágica. Eu não tinha percebido a profundeza de seu alcoolismo até ele começar a se decompor, e o odor de seu fígado fermentado era bem diferente de qualquer outra coisa que eu já sentira. Até mesmo eu achei difícil de suportar. Passei a visitá-lo com menos frequência, mas a cada vez ficava pior e, após mais algumas vistas, parei de ir lá.

Passei um longo período ontem à noite com Maggie, como não fazia há muito tempo. Assim que começo a falar, acho difícil parar. Ela é uma excelente ouvinte.

* * *

No fim, já era bem tarde quando voltei para casa e, em consequência disso, dormi demais hoje de manhã.

Depois do almoço, resolvi num rompante ir visitar minha mãe em Larches. Achei que isso seria uma benéfica distração para minhas preocupações com a investigação policial.

Ela estava dormindo numa cadeira de encosto vertical na sala de recreação, a cabeça repousando num ângulo desconfortável. Algumas senhoras estavam assistindo a um jogo de futebol numa tela grande de televisão, o som alto o bastante para impedir qualquer conversa. Peguei um banco alto e me sentei perto da minha mãe, esperando que ela não acordasse antes que eu tivesse conseguido ficar ali por meia hora, o que eu considerava um período de tempo razoável. Assisti ao jogo de futebol, na falta de algo melhor para fazer, mas o jogo estava inacreditavelmente entediante.

Quando voltei a olhar para minha mãe, ela estava acordada e me encarava, muito embora não houvesse sequer movido a cabeça.

— Oi, mãe — falei.

Ela não respondeu, mas continuou me olhando, sem piscar. Havia um resto de comida grudado nas extremidades de sua boca aberta.

Eu me recordei, repentinamente, de um momento da minha infância — embora meu pai já estivesse morto, portanto, eu talvez já fosse adolescente — quando ela me obrigou a comer uma panela cheia de repolho, que eu deixara cozinhando sem água. Por alguma razão, ela acreditava ter me deixado responsável pelo jantar enquanto ia na casa ao lado, conversar com uma amiga, e quando voltou, a cozinha estava tomada por uma fumaça amarelada que tinha um cheiro asqueroso, e a panela estalava no fogão. Eu estava no meu quarto, lendo um livro, ignorando o que acontecia.

Meu jantar foi colocado à minha frente na mesa, um pouco mais tarde, uma panela cheia de repolho agarrado no fundo e um garfo para raspar. Quando me recusei, ela me deixou sentado ali por uma hora, olhando triste para a panela. Depois de uma hora, ela raspou bastante repolho com suas unhas afiadas e o enfiou na minha boca, enquanto eu me debatia e gritava, lutando para respirar.

— Você me odeia — sussurrei para o fantasma da minha mãe, sentado na cadeira ao meu lado —, não é mesmo?

Seus olhos cintilaram na minha direção.

Pouco depois, fui embora, passando pelo escritório da enfermeira-chefe para me certificar de que ela estava bem ciente da minha presença e, assim, não voltaria a me telefonar nas próximas semanas.

Mais de uma vez, me ocorreu que a coitada da minha mãe está precisando de uma piedosa liberação. Posso imaginar que ela, aprisionada num corpo que agora está além de seu controle, possivelmente preferiria estar morta, considerando que, segundo dizem, sua mente ainda está bem lúcida. Não tenho a menor dúvida, a julgar pelo olhar vil em seus olhos hoje, que esteja inteiramente consciente. E, embora esteja em meus poderes ajudá-la a dar um fim àquela existência miserável — no caso de ser esta sua escolha, é claro —, descubro que estou saboreando a ideia de privá-la até mesmo disso. Agora, o equilíbrio de forças está a meu favor, e eu prefiro deixá-la como está — humilhada, amargurada, encurralada.

Isso me proporciona imensa satisfação pessoal.

Amanhã, volto ao trabalho. Imagino como estará Vaughn. Acho que vou precisar de uma boa cerveja e uma conversa fútil durante o almoço.

Briarstone Chronicle Outubro

 

Mais uma morte solitária — A comunidade está em estado de choque

Mais uma vez, esta semana, a polícia de Briarstone fez uma descoberta sombria, ao ser chamada até uma casa em Blackthorn Row, em Swepham, após denúncias de um cheiro pútrido na área. O corpo de um homem, que se acredita ser Edward Langton, 28, foi encontrado no quarto de sua residência. O Sr. Langton ficou vários meses sem ser visto e uma fonte informou que o corpo foi achado em estado avançado de decomposição.

Até o fechamento desta edição, nenhum parente do falecido havia aparecido. A triste morte do Sr. Langton é a mais recente na espantosa série de corpos decompostos que foram encontrados em residências de Briarstone nos últimos meses.

Ainda não se sabe se a polícia fez alguma ligação entre a morte do Sr. Langton e as de Dana Viliscevina e Eileen Forbes, ambas encontradas em suas casas na semana passada. As investigações continuam.

Campanha “Ame seu vizinho” — Próximos eventos no seu bairro, páginas 34-35.

 

Eloise

Soube que estava no corpo errado, quando era muito nova, provavelmente, antes que soubesse de qualquer outra coisa, este era um fato concreto. Eu brincava com as meninas o tempo todo, minhas duas irmãs e todas as suas amigas, e até os oito ou nove anos, não me considerava nem um pouco diferente delas, não fazia nenhuma distinção. Se não fosse pelo meu pai, tudo poderia ter continuado como era e minha vida teria sido muito diferente. Mas meu pai era um machão, ex-minerador, que queria que eu jogasse rúgbi e, se não fosse capaz disso, ele me faria jogar futebol; ele queria que eu estivesse sempre ao seu lado enquanto crescia. Queria alguém com quem pudesse ir ao pub domingo de manhã enquanto minha mãe nos preparava um bom cozido para o almoço e minhas irmãs gorjeavam e arrulhavam em volta de seus bebês.

Eu amava e odiava meu pai, igualmente; ele nunca foi violento comigo enquanto eu crescia, mas seu desgosto bastava. Então aprendi a lidar com seu jogo, aprendi a modular minha voz de forma a se encaixar na conversa, a me sentar quieto, em cima das mãos e com a cabeça baixa.

Quando entrei na faculdade, me ofereceram uma vaga na escola de artes de Londres. Meu pai queria que eu estudasse engenharia, já que eu ia “perder meu tempo”, em vez de ir atrás de um emprego decente. Discutimos sobre isso e pensei que não teria autorização para ir. Minha mãe acabou o convencendo no final, e ele cedeu porque a amava e ela era o rochedo sobre o qual sua vida se sustentava.

Por fim, fui embora para a cidade grande. Foi como conquistar a liberdade, após passar a maior parte da vida na prisão. Estudei moda e design, e toda vez que desenhava uma figura feminina e a vestia com lindos tecidos e acessórios, sabia que era assim que eu era por dentro, não aquele cara magricela que todo mundo obviamente achava que era gay. Naquela época, eu também tinha amigos de quem gostava e nos quais confiava. E um homem mais velho que me ensinou o que era ser amado da forma adequada pelo que eu era. Eu não tinha dinheiro, mas comecei a pensar seriamente em uma cirurgia de mudança de sexo. Cheguei até a conversar sobre isso com meu médico e lhe perguntar se havia algum jeito de ser custeado pelo sistema público de saúde.

Minha mãe estava a par disso, mas nós duas sabíamos que não era a hora certa para contar ao meu pai. Era uma coisa que levaria muito tempo para ele entender; não seria algo que ele aceitaria da noite para o dia. Ela queria lhe contar que eu era gay, mas isso não era o certo a fazer. Eu não era gay, era uma mulher que gostava de homens da mesma maneira que minhas irmãs gostavam. Minha genitália estava errada; meus hormônios eram um equívoco. Para mim, era simples como ter uma doença, uma deficiência física, o que significava que algo em mim tinha um problema de má-formação e mau funcionamento. Na verdade, não era nada diferente de diabetes, hipertireoidismo ou qualquer enfermidade relacionada às enzimas ou hormônios errados.

Por fim, ela acabou não contando para ele. Deixou que eu o fizesse no momento certo.

É claro que o momento certo nunca chegou, até ser tarde demais. Eu começara a frequentar uma clínica de identidade sexual e, depois disso, passei a viver como mulher em bases permanentes. Isso era relativamente fácil em Londres, sobretudo no mundo da moda e da arte em que eu vivia. Tudo pareceu certo, pela primeira vez — exceto meu relacionamento com Derek, que titubeava. Embora eu não fosse um homem gay, ele era e, por mais que me amasse, não estava procurando uma fêmea como parceira para a vida.

Então saí de seu apartamento em Londres e voltei a morar com alguns amigos da faculdade.

No meu vigésimo primeiro aniversário, ainda bêbado por causa de uma festa que durara o fim de semana todo, me surpreendi voltando para a casa dos meus pais de trem. Nossa casa ficava perto da estação e eu acabara dormindo no trem e, para ser sincero, não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Estávamos no meio da manhã e, num dia normal, meu pai estaria no trabalho. Só que ele conseguira uma licença de um mês para se recuperar de uma depressão, algo que minha mãe não me contara. Então, girei a chave na fechadura e entrei na sala de estar, esperando que mamãe preparasse uma xícara de chá para mim e me oferecesse um pedaço de bolo que ela mesma tinha feito, apesar de não estar esperando minha visita, mas não a encontrei lá. Só ele. Estava assistindo ao canal de notícias e ergueu a cabeça para me ver no meio da sala, sua terceira filha, sem que se desse conta. Só que eu ainda era Edward naquela época, com uma saia curta e uma sandália plataforma da mesma cor. Ele me olhou de cima a baixo, boquiaberto. E o choque ao vê-lo caiu sobre mim como se eu tomasse uma ducha de água fria, e só fui capaz de dizer: “Oi, pai.”

Ele soltou um berro raivoso e desesperado, levantando-se do sofá e se lançando na minha direção. Saí de casa tão rápido quanto cheguei. Corri pela rua de volta para a estação, achando que ele estava me seguindo e que, a qualquer instante, acertaria minha cabeça com um golpe violento. E, quando alcancei o final da rua e olhei para trás, não o vi em lugar algum.

Quando cheguei a Londres, telefonei para minha mãe. Ela já havia voltado do trabalho e o encontrado. Ele estava bem, ela me garantiu. Mas é claro que não era verdade. Ela tentou me proteger de tudo aquilo, mas ele se enforcou uma semana depois. Não fora só por minha causa, é claro, ou pelo menos foi o que ela insistiu em dizer. Talvez estivesse apenas sendo gentil.

Ela me pediu para vestir “algo decente” no enterro. Aquilo me machucou bastante. Senti profundamente a perda de meu pai, que eu tanto amava. A falsidade da aprovação da minha mãe foi mais uma punhalada. Minhas irmãs, então, se viraram contra mim, embora ambas já soubessem da minha transformação e tivessem até me visitado em Londres, vendo como eu era realmente. Usei um terno sob medida no funeral e arrumei meu cabelo especialmente para a ocasião. Não era minha aparência habitual, e sim uma concessão, mas apesar disso eles não foram capazes de reconhecer como tal.

Nunca mais voltaram a falar comigo, e quase não falei mais com a minha mãe depois disso também. Com minha parte da herança, dei entrada numa casa não muito longe daquela em que eu crescera. Queria me sentir próxima do que restava do meu pai, que teria sido um homem diferente se nascesse uma geração depois, e perto da minha mãe, que agora sofria por não ter mais de quem cuidar. Eu queria ajudá-la, mas não podíamos mais ficar tão próximas, não depois de tudo o que aconteceu.

Pensei que eu estava começando a superar isso, pensei que tinha conseguido colocar a cabeça para fora d’água, mas recebi hoje uma carta do sistema público de saúde dizendo que não financiariam mais minha cirurgia, pois tinham conhecimento de que eu dispunha de meios próprios para me submeter a ela. Mas não tinha, é claro; gastara tudo comprando a casa. Tentei vendê-la, mas, na época, os preços despencaram e tampouco havia compradores interessados. Pedi ajuda a minha irmã mais velha, mas ela desligou o telefone na minha cara e, quando fui até sua casa, ela não quis abrir a porta, embora seu carro estivesse na garagem e eu pudesse ouvir seus filhos brincando no quintal.

Não tinha me dado conta de como a solução era fácil, não mesmo. Não até alguém me mostrar. Tudo o que você precisa fazer é ir para casa e fechar a porta. Para certas pessoas é mais difícil — elas precisam planejar e fazer tudo aos poucos. Eu fizera a parte mais difícil sozinha, bastou uma cutucada, um sussurro para que eu percebesse que a coisa mais fácil a fazer era deixar de existir.

Então, fui para casa, fechei a porta e aguardei que a nuvem negra viesse e levasse o sol embora.