Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 38 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

TENHO REVISADO MEUS CADERNOS DE BIOLOGIA à noite, comparando anotações que fiz com as imagens.

Só ocasionalmente, quando estou no estado de espírito adequado, seleciono um álbum de fotos para examiná-las e preparar uma apresentação de slides ao fundo enquanto estou ocupado com alguma outra atividade ou afazer. É apaziguador. Sem som.

Shelley foi a que se deteriorou mais rápido, talvez porque sua casa fosse mais aquecida. Eu me pergunto também se os remédios que ela estava tomando causaram algum efeito na composição química de seus fluidos corporais. De qualquer maneira, o destaque foi a perda do antebraço, os tendões que normalmente sustentam o resto do esqueleto continuam no lugar, bem após a desintegração da carne, abandonando-a, do modo como seu corpo a abandonara na vida.

Olhei minhas anotações sobre tafonomia: o estudo do processo a que um corpo, humano ou animal, é submetido após a morte. Os processos tafonômicos não se limitam à decomposição, para a qual existem quatro ou cinco estágios reconhecidos, dependendo do livro que você consultar (Decomposição Inicial, Putrefação, Decadência — ocasionalmente dividida em Deterioração “Úmida” ou Ativa e Deterioração Avançada — e Esqueletização), mas que podem incluir processos envolvendo atividade externa. Como consequência, a necrofagia, vermes que se alimentam da carcaça, queimaduras e canibalismo são também descritos como processos tafonômicos.

Sempre fui fascinado pelo papel da natureza em tudo isso. Será que a atividade humana devia ser separada dos processos tafonômicos, por se tratar de uma intervenção? Quero dizer, posso tranquilamente considerar a necrofagia animal e incluí-la como parte do processo, pois os animais têm o instinto natural de comer carne em putrefação, mas e quanto ao canibalismo? Seria muito melhor só observar o processo sem nenhuma intervenção humana, para ver a natureza em ação sem obstáculos. Mas, hoje em dia, tudo é submetido à intervenção humana simplesmente por causa do estado em que está o mundo. Até mesmo um cadáver, deixado sossegado num local remoto, estaria sujeito à intervenção humana — efeito estufa, buraco na camada de ozônio, chuva ácida — agindo para facilitar o processo de decomposição junto aos demais fatores que a natureza convida para a festa. E é absolutamente impossível, portanto, separar o “real” do artificial.

Gostaria de ter alguém com quem discutir sobre isso. Meu pai, se tivesse sobrevivido, teria se interessado. Ele era imensamente fascinado pela natureza, e acho que herdei dele meu interesse pelo assunto. Nos longos passeios que minha mãe insistia que fizéssemos todo domingo enquanto ela “descansava”, ele me distraía e me instruía sobre a sincronicidade, os belos, poéticos e criativos sistemas e estruturas da vida e da morte. Tudo tem um propósito; todas as coisas têm seu lugar, o direito de existir, uma função. Nascimento, vida, morte, um ciclo infinito e ressonante, uma dança na qual todos os passos são naturais e inatos. Nenhuma confusão, nenhum desperdício, nada fora do lugar. As mudanças ocorrem na hora certa e pelas razões certas.

* * *

Hoje mais cedo, Vaughn ligou para o meu trabalho para adiar nossa cerveja na hora do almoço. Estava ligando de casa, não tendo sido capaz de ir trabalhar. Pelo que parece, Audrey tornou a separação algo permanente, e Vaughn está aborrecido demais para contemplar outra coisa que não seja o fato de tê-la perdido.

— Simplesmente não entendo — geme ele ao telefone. — Estávamos nos dando tão bem.

Senti vontade de sugerir que era provável que o início do fim tenha sido no momento em que ele considerou Weston-super-Mare como um destino romântico no fim de semana, mas segurei minha língua.

Não tenho escrúpulos específicos em relação a “roubar” Audrey de Vaughn, embora talvez a ideia de seu corpo e por onde ele andou possa ser capaz de desviar um pouco minha atenção se pensar muito nisso. Mas o fato de ela estar solteira agora, e presumivelmente carente de algum consolo, consome todos os meus pensamentos.

Já passei por isso antes, lembram? Houve um tempo, antes de Justine, em que eu queria uma namorada. Mas será que é isso o que quero agora? Entediado com a dança da morte, será que quero mesmo retornar para a imprevisibilidade e o desespero da vida? Uma parte de mim quer trepar com ela, sim. Uma parte quer isso. Mas existe algo mais.

Em todas as minhas relações com os deprimidos, defeituosos e atordoados, aprendi logo que não fazia sentido tentar qualquer uma de minhas técnicas com aqueles que ainda não tinham considerado o caminho e dado alguns passos nessa direção. Simplesmente não funcionava, e nenhum dos ajustes que fiz aos meus procedimentos resolveu a situação. Foi então que aprendi como escolher as pessoas certas. Mas agora me dou conta de que a razão pela qual tudo ficou tão estagnado não é que após ter visto um ser humano em decomposição você já tenha visto todos, mas sim o fato de eu ter uma escolha tão limitada nesse assunto. Se eu pudesse escolher aleatoriamente as pessoas, tudo seria tão mais divertido.

Por isso, talvez não seja mais uma questão de ajudar pessoas que sabem o caminho que escolheram. Quem sabe não se trata de dar um empurrãozinho nessa direção em particular.

Após terminar meus afazeres, entrei no Facebook depois de vários meses. Já abri contas com diferentes identidades, por vários motivos, mas hoje, vou direto para o meu próprio perfil. Não me dei o trabalho de procurar ou adicionar amigos, além de Vaughn, que insistiu. Ele continua sendo meu único amigo. Em sua página, ele anuncia orgulhosamente estar num “relacionamento sério com Audrey Madison”. Entro no perfil de Audrey, que ostenta com o mesmo orgulho a situação de que está em um “relacionamento enrolado”.

Para minha surpresa e prazer, o perfil de Audrey aparece instantaneamente acessível: em “informações”, descubro seu e-mail, toda uma lista de filmes que aprecia (horror e suspense, em geral), que seu gosto musical pode ser mais bem descrito como eclético (Simon and Garfunkel, Metallica, Beatles) e que ela estudou numa escola em Northampton e depois foi para a Universidade de Leicester. Seus interesses relacionados são culinária e malhação. Infelizmente, ela decidira não completar a parte do perfil relacionada ao emprego. Passo para seus amigos (um total de trezentos e dezessete) e examino os nomes ali listados.

Dez de seus amigos marcaram como local de trabalho a Arnold and Partners, em Briarstone. Procuro a página na internet da Arnold. Trata-se de uma firma de contabilidade localizada no centro da cidade. Volto à lista dos amigos de Audrey e decoro os nomes daqueles que dizem trabalhar naquela empresa, depois vou para o “Mural” de Audrey e lá está, uma mensagem de sexta-feira passada.

Cheryl Dann: Espero que tenha um bom fim de semana, querida. Vejo você

segunda no trabalho. Bjs

Pesquisando Arnold and Partners na internet chego ao site deles, que felizmente apresenta um mapa na seção “Atendimento”, assim como os horários de expediente.

Volto para a página de Audrey e leio as diversas atualizações, curtidas e comentários. Ontem, Audrey publicou:

Audrey Madison: Mal posso esperar pela festa de aniversário da Adele na sexta.

Já faz tempo que estou precisando de uma noitada.

Na sequência, alguns comentários dos amigos:

Lara Smith: Quero mto ver vc por lá. A que horas vamos chegar ao Luciano’s?

Claire McLeod: Reservamos a mesa p/ as 8h, Lara.

Lara Smith: Valeu, a gente se vê por lá!

Cheryl Dann: Uhul!

Adele Gostosinha Strachan: Mto animada. Venham com tudo.

Faço outra pesquisa na internet e descubro que há um Luciano’s em Briarstone — um restaurante italiano bem no centro da cidade. Fica na Market Square, onde também estão três outros bares e uma das maiores boates.

Depois disso, me permito finalmente ver as fotos de Audrey. São doze álbuns, dos quais, felizmente três têm títulos, indicando que são fotos de suas férias de verão dos últimos anos.

Começo com a mais antiga: “Kos Agosto 2009”. Antes de seguir em frente, eu me levanto e tiro minha calça, coloco-a dobrada num cabide e guardo-a no armário. Em seguida, passo o resto da noite me masturbando diante das deliciosas imagens de Audrey de biquíni. E ela não é mais de Vaughn. Para ela, o relacionamento está “enrolado”, mas para mim está tudo maravilhosamente simples.

Ela é minha.

Briarstone Chronicle Outubro

 

Encontrado corpo de antigo presidente do Conselho Municipal

A polícia foi chamada até uma casa em Newton Lane, na noite de sábado, onde descobriu os restos em decomposição de mais uma pessoa, um homem idoso, que acreditam tratar-se de um antigo membro do Conselho de Briarstone, George Armstrong, 92. Um porta-voz da polícia informou que vizinhos tinham se queixado que um forte odor vinha da residência.

O Sr. Armstrong atuou como Conselheiro em Castle Ward de 1975 a 1988, quando se aposentou. Foi presidente do Conselho em 1980 e 1985, e foi considerado fundamental para garantir a preservação dos empregos de centenas de operários da fábrica de papel Langridge, que estiveram sob ameaça de demissão em 1980.

Um vizinho, que preferiu não ser identificado, revelou que o Sr. Armstrong já não era visto havia algum tempo. “Ele saía muito para caminhar; sempre nos cumprimentava. Fazia alguns meses que não o via. Pensei que tivesse sido hospitalizado, ou levado para um asilo.”

Marjorie Baker, moradora de Newton Lane, disse ter pensado que o Sr. Armstrong tivesse ido morar com a família na Austrália. “Acho horrível que nos dias de hoje ninguém seja capaz de perceber que você sumiu”, afirmou a Sra. Baker. “As pessoas deveriam cuidar mais umas das outras.”

 

George

As coisas nunca mais foram as mesmas para mim depois da morte de Vilette. Eu a chamava de Vi. Ela foi meu raio de sol, minha luz e minha alegria durante cinquenta e nove anos. Vi era a razão para eu estar aqui, assim como eu era a razão para ela continuar no mundo.

Quando nos encontramos, eu estava com vinte e dois anos, e foi por puro acidente. Eu estava de licença em terra, só por dois dias, depois voltaria para o mar. Era fevereiro e o lago estava congelado. Peguei um atalho no parque, voltando para casa, depois de ter ido comprar cigarros, acho. Ou alguma outra coisa para minha mãe. Notei a presença de um grupo de meninas ao lado do lago, que riam, brincavam, sabe, estavam à toa. Vi alguma coisa voando no ar e planando no vento até alcançar a superfície do lago, algo azul e brilhante, como a asa de um pássaro exótico. Depois de flutuar no ar, a brisa o levou para longe.

Então, as meninas saíram correndo, rindo, deixando uma delas para trás, à beira do lago.

A coisa azul — uma echarpe de seda que tinha sido dada à sua mãe francesa quando ela vivia em Paris, antes da guerra, uma echarpe que a jovem Vi era proibida de olhar, quanto mais levar para fora de casa, e muito menos usá-la — estava estendida, abandonada em uma pequena poça azul a dez metros da margem.

Antes que eu pudesse chegar lá para ajudá-la, ela enfiara um pé no gelo, depois o outro e avançava com um passo determinado e cauteloso na direção do centro do lago e da echarpe. Era uma moça magrinha, com apenas dezoito anos, leve como uma pena e pequenina, mas mesmo assim a camada de gelo estava mais fina do que no fim de semana anterior, quando ela havia patinado ali; os fracos raios de sol de fevereiro a haviam deixado mais frágil.

Quando eu ainda estava a cem metros de distância, o gelo se rompeu sob seus pés. Eu já chegara perto o suficiente para ver o espanto no seu rosto, ouvir seus gritos, antes de o gelo estalar novamente e ceder. Ela afundou só até o peito — felizmente era raso ali —, mas ainda assim tentou se agarrar na beirada e não conseguiu se apoiar para sair dali.

— Estou indo — gritei. — Não tenha medo! — Como se isso fizesse alguma diferença em meio ao terror e sofrimento de estar preso num lago congelado.

Tirei meu casaco e meu suéter de lã, que minha mãe tricotara para mim no Natal anterior, e a camisa também. Depois amarrei as mangas de um ao outro. Não ficara comprido o bastante, então acabei tirando também a camiseta e amarrando-a na extremidade. Enquanto isso, podia vê-la ficando azul. Por fim, ficou no comprimento ideal para que ela conseguisse alcançar e eu lhe disse para enrolar a ponta do tecido nas mãos, para ficar bem firme, e a puxei para fora.

Estávamos ambos tremendo de frio, ela mais do que eu, é claro. A essa altura, um grupo de pessoas se reunira ali em volta, inclusive meu irmão, Tom, que viera ver onde eu me metera. Ele me entregou seu casaco e outra pessoa retirou o que vestia e cobriu a menina.

Ela foi levada para o hospital e se recuperou logo depois. Conseguiu até guardar a echarpe no armário da mãe, antes que ela desse pela sua falta.

No dia seguinte, passei para vê-la, antes de voltar para o navio e ela me disse que eu tinha salvado a vida dela. Aquilo me pareceu um tanto exagerado, afinal o que eu poderia ter feito, deixado-a ali? Mas, nesse ponto, eu já vira seus olhos cinza enormes e lindos e as covinhas que apareciam em seu rosto quando sorria.

Nós nos casamos em 1943, quando meu navio voltou ao porto — apenas uma rápida cerimônia, eu de uniforme, ela com um casaco que pegara emprestado de uma amiga e a linda echarpe azul, que sua mãe emprestou.

Vi morreu um ano antes de celebrarmos nossas bodas de diamante. Estávamos planejando um festão, com nossa filha Susan e toda sua família australiana, mas, já na primavera, ambos sabíamos que ela não resistiria por mais tanto tempo assim. Ela lutou bravamente, mas no final tudo acabou como já esperávamos. Ela morreu segurando minha mão, num dia chuvoso de março.

Eu lhe dei um beijo de despedida e fui para casa.

Você quer conhecer minha história, não é? Pois bem, minha história terminou naquele dia em que deixei Vi para trás, no hospital. Algumas coisas aconteceram depois disso, só que nada mais tinha importância alguma.

Susan veio da Austrália para o enterro. Ficou duas semanas e depois voltou para casa. Sabia que ela não voltaria outra vez para a Inglaterra até o meu enterro, e era possível que nem assim — mas, no final das contas, eu não ficaria sabendo mesmo, não é?