Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 17 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

NO CAMINHO DE VOLTA, PASSEI NA casa da minha mãe. A força do hábito quase me fez desviar para o supermercado, mas nada disso era mais necessário, não é mesmo? Fiquei sentada no carro por algum tempo. A casa já parecia vazia. Eu me perguntei quem teria apagado todas as luzes, depois que a ambulância saiu levando minha mãe.

Mas não estava chegando a lugar algum com isso e tinha muita coisa para fazer. O jardim da frente parecia negligenciado — desde quando? —, ervas daninhas crescendo pelas rachaduras do pavimento, a grama do pequeno canteiro se transformara em ramagens disformes. Seria preciso trazer o cortador e dar um jeito naquilo, antes do inverno, especialmente se eu tivesse mesmo que vender a casa.

Mentalmente, acrescentei mais um item à lista de coisas a fazer.

Encontrei a casa aquecida, diferente do que estava esperando. Mas é claro que o aquecedor ainda estava programado para ser acionado no horário usual. Eu deveria desligá-lo. Mas, se fizesse isso, talvez a água congelasse no interior dos canos, quando esfriasse demais. Isso me fez lembrar do freezer — eu deveria esvaziar, desligar e, por fim, descongelá-lo. A geladeira também. Devia desligar todos os eletrodomésticos, na verdade, porque agora estavam apenas desperdiçando dinheiro. Talvez devesse cortar a eletricidade geral. E o gás — mas aí o aquecedor não funcionaria e, quem sabe, a água nos canos acabaria congelando.

Minha mente começou a girar em círculos extenuantes, então me forcei a deixar essas ideias de lado. Acendi a luz, coloquei a bolsa no corredor e pendurei meu casaco no cabideiro, como fazia sempre que ia ali.

Ela se mudara para lá quinze anos atrás, quando sua irmã, minha tia, foi morar na Escócia. Elas haviam dividido uma casa, depois que fui para a faculdade, mas, quando tia Bet se mudou, minha mãe quis viver perto de mim. Na época, ela era ativa, ainda ia jogar bingo com as amigas, ia ao supermercado sozinha três vezes por semana e, em alguns fins de semana, fazia uma excursão de ônibus com o grupo da Organização Social. Não acho que eu tenha realmente percebido que ela estava envelhecendo, mas, olhando para trás, os sinais estavam presentes. Ela acabou brigando com alguém do grupo e parou de frequentá-lo. Tia Bet morreu cinco anos atrás, e a morte de sua única irmã lançou minha mãe numa espiral descendente. Ela começou a se inquietar com o dinheiro, embora contasse com uma boa aposentadoria e nunca tivesse se preocupado com isso antes. Pouco depois, ela também parou de ir jogar bingo. E então, só restara eu. Eu era a única pessoa que lhe sobrara, fora os vizinhos, que passavam de vez em quando para saber se ela estava bem, e mesmo nessa época, ela reclamava deles para mim, quando eu ia visitá-la.

“Estão sempre me aborrecendo”, sussurrava ela, como se pudessem estar escutando com copos encostados nos ouvidos do outro lado da parede. “Eles têm vindo aqui com frequência. Isso não é muito conveniente.”

“Por quê?”, eu perguntava. “O que você pode estar fazendo?” Eu me recusava a baixar minha voz nessas circunstâncias. Nós nunca os ouvíamos falando; por que eles conseguiriam nos escutar?

No fim das contas, Len, seu vizinho de porta, quase salvara sua vida, e certamente me dera a oportunidade de me despedir de certa maneira dela, ainda que não pudesse me escutar. Eu deveria ter ido vê-la na noite seguinte, mas àquela altura ela já estaria morta. Se minha mãe tivesse sido um pouco mais acolhedora em relação a ele, talvez a tivesse descoberto um pouco antes e quem sabe assim pudesse ter sobrevivido.

Fui até a sala de estar, acendi a luz e estava quase esperando vê-la sentada na poltrona. O impacto da poltrona vazia me atingiu como uma força física, e dei um passo para trás. Sempre que a visitava — três ou quatro vezes por semana — ela estava sentada ali. Ocasionalmente, se levantava enquanto eu estava presente para ir ao banheiro ou fazer alguma coisa na cozinha, ou usava a bengala ou minha mão prestativa para se erguer da cadeira, mas, quase sempre, ficava sentada esperando que eu buscasse as coisas para ela.

E a poltrona, vazia. A almofada deformada e as mantas desbotadas e sujas por causa dos anos de uso. Os braços da poltrona tinham ficado cinza devido ao toque constante de suas mãos. Ela não estava mais ali.

Comecei a respirar rápido e senti um pânico estranho crescer. Eu me perguntei o que tinha provocado aquilo em mim de repente. A casa estava muito silenciosa, quieta. Será que já tinha estado ali sem que a televisão estivesse ligada? Até mesmo o ar parecia diferente sem sua presença ali.

Respirei fundo e reassumi o controle de mim mesma. Aquilo não era nada bom, eu tinha coisas para fazer.

Virei as costas para a poltrona e fui até a cozinha. Estava realmente escuro ali, a janela dando para o quintal vazio e para as janelas apagadas da casa vizinha. Acendi a luz.

Tudo estava surpreendentemente limpo. Mamãe não gostava de lavar a louça, e quando eu vinha lhe trazer o jantar, era comum que eu começasse lavando a louça das refeições anteriores. Mas a pia estava vazia, o pano de prato cinza dobrado e deixado na torneira, gotejando com certa regularidade dentro da pia. Abri a geladeira. O interior parecia quase vazio — dois vidros de geleia, um pote com molho de salada, uma caixa de ovos, a manteigueira, um pacote de queijo ainda fechado, uma garrafa de vinho branco que também não havia sido aberta. Tinha sido eu quem comprara aquelas coisas? Não conseguia me lembrar. Onde estavam os legumes que eu colocara ali… quando mesmo? No domingo? Ela não teria conseguido comer tudo antes de sofrer a queda. E quanto ao leite? Eu tinha comprado uma garrafa de um litro na véspera.

— Annabel, é você que está aí?

O som, vindo por trás de mim, me fez dar um pulo. Len estava bem próximo. Não fazia ideia de como ele conseguira entrar sem que eu o ouvisse, considerando o silêncio dentro da casa.

— Oi, Len — respondi. — Você me deu um susto.

— Lamento, querida. Como você está?

— Minha mãe morreu hoje de manhã — respondi. Eu precisava achar uma maneira melhor de dar a notícia para as pessoas.

— É, eu sei. Sinto muito. Coitada de você.

— Como ficou sabendo?

— Hoje pela manhã, liguei para o “ospidal” para saber como ela estava.

Fui obrigada a reprimir uma risada totalmente inadequada. Mas ele dissera mesmo “ospidal”.

— Como você está lidando com isso? — perguntou ele. — Minha esposa e eu ficamos preocupados com você quando soubemos.

— Estou bem. Só tenho muitas coisas para fazer.

— Eu sei, é uma situação difícil. Você sabe que se houver algo que possamos fazer para ajudar…

— Obrigada.

Fiquei ali, pouco à vontade, uma das mãos na geladeira, imaginando o que mais ele queria. E me perguntando por que ele continuava indo lá, agora que estava claro que minha mãe não voltaria.

— Você esvaziou a geladeira?

Acho que perguntei de maneira um pouco brusca, pois ele corou e trocou embaraçosamente de posição.

— Esvaziei, bem, não queria que a comida estragasse. Pensei que você demoraria algum tempo para voltar aqui. Você sabe, o luto… e tudo o mais.

— Sei, foi bem gentil da sua parte. Mas, de verdade… posso me virar.

— São momentos difíceis. Muito difíceis. Minha esposa e eu, você sabe, fizemos o melhor possível para ficar de olho nela, mas sua mãe estava ficando muito frágil. É bem difícil superar isso, mas no fim das contas, tudo é uma questão de tempo, não é mesmo? Acontece com todos nós, certo? No fim?

— Pois é… — falei.

— Claro que é diferente, quando a família está próxima, como aconteceu com a sua mãe. Nossos dois filhos estão crescidos e se mudaram, já faz muito tempo. Como eles têm suas próprias famílias, sabe, fica mais difícil porque estão sempre ocupados e sabem que nós estamos bem, temos um ao outro, podemos nos virar sozinhos, então acabamos não os vendo muito. No Natal, sim, e eles vieram para o aniversário de setenta anos da mãe, ano passado, mas só isso. O que nos faz pensar, não é mesmo, em todas essas histórias nos jornais sobre pessoas encontradas mortas sem que ninguém percebesse, isso só nos faz pensar sobre o que poderá acontecer no futuro.

— Eu sei.

— Enfim, não posso ficar aqui batendo papo o dia todo, ela vai se perguntar o que aconteceu comigo. Vou indo. Quer que eu traga as coisas de volta?

Essa última frase foi jogada no ar casualmente, já de costas, uma derradeira pergunta tão inócua, mas mesmo assim, ele se virou e me encarou com os olhos arregalados. Ah, então ele ainda não as havia jogado fora? Na verdade, ele fora até lá roubar todos os alimentos frescos de minha mãe que estavam na geladeira. Fiquei surpresa que tivesse deixado para trás os ovos e a manteiga.

— Não, claro que não — respondi.

— Está bem então. Vou embora. Você sabe onde nos encontrar caso precise de alguma coisa. É só ligar, ok? Posso cuidar das correspondências e coisas assim, se quiser. Está certo então. Até mais ver.

Ouvi-o batendo a porta da frente. Ele não a batera da mesma forma quando entrara. Devia ter fechado a porta delicadamente, rastejado os pés pelo corredor, pisando com cuidado no soalho de madeira. Não queria que ele cuidasse das correspondências. Não queria que tivesse uma chave. Eu passaria por lá ao sair e a pediria de volta.

Olhei de novo para a cozinha silenciosa, tudo em seu lugar. Tudo aguardando para ser usado novamente, retribuindo meu olhar com expectativa. De repente, tive uma ideia e abri o armário onde ela guardava os mantimentos — saquinhos de chá, cereais… bem em cima, havia uma lata de chá: a embalagem comemorativa do casamento de Sua Alteza Real Príncipe Charles com Lady Diana Spencer, em 1981. Lá dentro, ela deixava o dinheiro para as despesas de casa, o que sobrava de sua aposentadoria e com o que comprava comida e gastava com outras coisas incidentais. Eu solicitara ao banco o débito automático de sua conta-corrente para os demais gastos mensais, e verificava isso uma vez por mês a fim de me certificar de que tudo estava pago e havia fundos na conta. Quando fazia compras para ela, eu pegava dinheiro na latinha de chá e deixava o recibo. Costumava arredondar para cima ou para baixo, sem nunca me preocupar com as moedas, pois no fim tudo se equilibrava. Quando estivera ali, domingo passado, havia oitenta libras em quatro notas de vinte. Eu pegara vinte libras e deixara depois uma nota de dez, da minha carteira, pois as compras tinham dado um total de doze libras e noventa e oito centavos. Mas, quando passei ontem, estava tão cansada por ter trabalhado até tarde que me esquecera de fazer isso; o recibo ainda estava no fundo da minha bolsa.

Dentro da lata havia exatamente vinte libras. Uma única nota de vinte libras. Cinquenta libras tinham desaparecido desde a última vez que verificara, poucos dias antes. Por alguns instantes, fiquei ali, olhando para aquela única cédula, me perguntando se não tinha me enganado. E imaginando com o que ela poderia ter gastado o dinheiro.

Depois disso, fui até a escrivaninha na sala de jantar, cuja gaveta inferior continha todas as coisas importantes: passaporte, talões de cheques, certidão de nascimento. Dei uma rápida vasculhada ao redor, mas um olhar teria bastado para saber que estava tudo no lugar. Isso foi um alívio; sendo assim, será que talvez tinha sido tudo imaginação minha? Pode ser que houvesse menos dinheiro quando olhei, ou então estava confundindo com outra ocasião. Ou talvez ela tivesse chamado alguém para limpar os vidros das janelas, ou dado algum dinheiro para caridade.

Mas cinquenta libras?

Dei uma olhada no restante da casa, sem saber ao certo o que estava procurando. Do seu quarto emanava aquele silêncio que sugeria que ninguém dormia lá havia algum tempo. As roupas penduradas no armário eram velhas, já fora de uso regular: uma blusa cintilante, com contas de pratas pesadas. Uma saia preta longa. Ela havia usado aquele conjunto no almoço de meu vigésimo primeiro aniversário. Por que o tinha guardado? De jeito nenhum o usaria mais uma vez. E havia outras roupas com as quais eu me recordava de tê-la visto vestindo — um blazer que costumava usar para trabalhar, antes de se aposentar. Os sapatos na parte de baixo do armário para a mulher que nunca ia além da porta da frente.

O quarto de hóspedes estava repleto de caixotes que ela nunca se dera o trabalho de abrir quando se mudou para lá, tanto tempo atrás. “Um dia…”, dizia ela, como se estivesse esperando que todos os compromissos e frivolidades sociais desaparecessem, antes de poder se acomodar adequadamente. Tudo parecia imperturbável lá dentro.

Enfim, não havia como adiar isso, por mais que eu odiasse qualquer tipo de confronto, este eu não poderia evitar.

Ele pareceu surpreso ao me ver, quando abriu a porta.

— Está tudo bem? — Ele mastigava alguma coisa e eu me perguntei se não seria um sanduíche feito com o pão que era da minha mãe.

— Oi de novo. Acabei de me lembrar que preciso pegar a chave de volta com vocês. Afinal, não faz sentido se incomodarem com a casa, agora que mamãe se foi, não é?

— Você não quer que eu cuide das correspondências? Para que você não precise vir até aqui o tempo todo?

— Não, está tudo bem, de verdade. Não moro muito longe.

— E se houver uma emergência?

— Se houver uma emergência — repeti com firmeza, sem saber que tipo de emergência poderia haver, já que mamãe estava morta —, vocês podem me telefonar, não é?

De repente, sua expressão ficou abatida.

— Ah. Entendo. Está certo então. Espere um minuto.

Ele deixou a porta entreaberta e sumiu pelo corredor, me deixando no degrau da entrada. Um cheiro de comida, não muito agradável, chegou a mim com uma rajada de ar quente. O corredor havia sido redecorado recentemente, o papel de parede com relevos felpudos… Como se chamava? Um nome esquisito. Ana-alguma coisa…

— Aqui está — disse ele, vindo pelo corredor. De um molho cheio de chaves, ele tentava soltar uma. Eu me perguntei se aquele era o chaveiro que usava sempre, ou se aquela era uma coleção com as chaves das casas de outras pessoas.

Estendi o braço e ele colocou a chave na palma da minha mão, com força suficiente para que doesse.

— Mais uma coisa, Len — falei, odiando a situação, mas sabendo que precisava perguntar. — Você sabe se o rapaz que limpa as janelas passou por aqui esta semana? Ou qualquer outra pessoa a quem minha mãe possa ter dado dinheiro?

— Não. Ted passa aqui na primeira semana do mês, normalmente. Por quê?

Bem, já que ele perguntou, pensei.

— Minha mãe guardava algum dinheiro dentro de uma latinha, e não sobrou quase nada. Estava lá, quando olhei da última vez. Tem alguma ideia?

Eu disse isso casualmente. Por mais que ele tentasse ostentar aquela aparência de “gentil senhor da casa ao lado”, seu olhar em mim brilhava, desconfiado.

— Nós fizemos algumas compras para ela na segunda-feira — disse ele. — Dissemos que íamos até o centro da cidade e ela pediu para trazermos umas coisinhas. Ela me deu o dinheiro e eu lhe entreguei o recibo. Você não o achou?

— Que coisinhas?

— Hum… Deixe-me ver. Ela pediu um bife do açougue. E bateria para o telefone sem fio… Ah, três carnês de selos postais. E também outra coisa… Mas não consigo me lembrar de jeito nenhum.

Olhei para a chave na minha mão, pensando se aquela discussão era de fato necessária. Foram apenas cinquenta libras, afinal de contas.

— Obrigada, Len — agradeci, por fim. — Sei que ela apreciava muito tudo o que vocês faziam por ela.

— Tudo bem. Você sabe, sempre ficamos felizes em poder ajudar. Quando precisar, avise, querida. Tem certeza de que não quer que nós fiquemos de olho na casa?

— Não, obrigada. Vou transferir o endereço na agência dos correios, de qualquer maneira.

Eu não tinha certeza de que algo assim era possível, quando a pessoa já faleceu, mas não queria que ele arrumasse um pretexto para entrar de novo na casa da minha mãe.

— Tem certeza de que é isso o que quer fazer? Quero dizer, nós podemos…

— Não, Len. Sinceramente, vocês já fizeram o bastante. Obrigada.

Eu me virei e segui em direção ao carro. Estava escuro e frio, e eu queria voltar para casa naquele momento, fechar a porta e ficar sozinha, onde ninguém pudesse me ver.