Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 41 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

KEITH TOPPING APARECEU CERCA DE MEIA hora depois de o inspetor chefe ter ido embora. Ele parecia bastante simpático quando finalmente chegou — mas tive a leve impressão de que, apesar de estar de plantão, ele não achava que fazer uma solicitação de contas telefônicas fosse uma justificativa plausível para retornar ao trabalho numa sexta à noite, por mais urgente que aquilo fosse. Por fim, ele me mostrou como fazer a solicitação — o que, tecnicamente, não era o certo, mas a longo prazo economizaria bastante tempo para todos, disse ele.

— Eles não vão precisar de algum tipo de autorização? Pensei que tivesse que digitar senhas, essas coisas — indaguei.

— Normalmente, é necessário. Mas não para algo desse tipo. Desde que você use o nome da operação… aqui, está vendo? — explicou ele, curvando-se na minha direção e me presenteando com o cheiro da sua axila. — Você coloca o número da equipe do inspetor chefe aqui. Entendeu? Acha que consegue fazer isso?

Eu não queria me comprometer. Não planejava fazer o trabalho em seu lugar. Já estava atribulada.

— Então… — disse ele enquanto eu começava a fazer uma lista de questões para ele completar. — Como você está?

— Bem.

— Todos nós ficamos muito preocupados com você — disse ele.

Ergui o olhar para ele, surpresa.

— Você nem sequer me conhece — falei, antes de conseguir me impedir.

Ele pareceu um pouco constrangido.

— É que… você sabe. Você faz parte da equipe. Nós cuidamos uns dos outros.

É mesmo?, pensei.

— Recuperamos as imagens do circuito interno. Foi aí que as coisas ficaram um pouco doidas. Acho que nenhum de nós acreditava realmente que havia alguém por trás disso, até então.

— Imagens do circuito interno?

— É, de você. No centro comercial.

— Não sabia que havia essas imagens.

Provavelmente, se tivesse pensado um pouco mais sobre isso, não teria me mostrado, sequer mencionado, para início de conversa. Mas ele me mostrou onde tinham salvado os arquivos no computador da Sala de Operações e, antes que me desse conta, abri o Media Player e aguardei o arquivo carregar.

A gravação feita no centro comercial não era muito boa. A câmera estava de frente para a luz forte do sol, portanto, um clarão ofuscava grande parte da imagem, deixando o restante escuro e borrado. Apesar disso, vi uma pessoa em pé, ao lado da vitrine de uma loja e, depois de pensar por um momento, percebi que eu tinha um casaco igual aquele e, arrepiada, me dei conta de que aquela pessoa era eu. Ver a si mesmo num filme é sempre um pouco estranho, mas aquilo era pior — não tinha me reconhecido, não só por causa da sombra, mas porque o jeito como eu estava posicionada era simplesmente tão esquisito. Parecia me curvar sob meu casaco, a inclinação de meus ombros e minha cabeça baixa me faziam parecer totalmente derrotada. Perdida.

À medida que eu assistia, percebi que havia outro vulto ao meu lado, ligeiramente à direita, e me vi assentir com a cabeça, uma, duas vezes — embora não me lembrasse de coisa alguma. Ele estava conversando comigo. Suas costas estavam viradas para a câmera e a parte superior de seu corpo estava ofuscada pelo brilho do sol, de modo que tudo o que dava para ver de fato era aquele homem, vestindo uma jaqueta curta e escura, calça preta e sapatos finos, e não tênis brancos.

E então, o homem se virou lentamente para o lado e, alguns segundos mais tarde, sem levantar a cabeça, a figura que era eu mesma se moveu e o seguiu, não exatamente relutante, e sim apenas com uma atitude de total abatimento.

— Não consigo acreditar que seja eu — falei, por fim.

— Entendo. É estranho, não é?

— Havia alguma outra câmera de circuito interno? Eles olharam o ANPR? — Era o sistema usado que identificava as placas de veículos para rastreamento.

— Não — respondeu ele. — Nós verificamos. Não há ANPR instalado no estacionamento do centro comercial; o mais próximo fica no rodoanel. Mas não tínhamos nada com que comparar os dados, pois não sabemos quando nem onde ele encontrou as outras vítimas. E é impossível identificá-lo através destas imagens. Por isso é que estávamos esperançosos de que você conseguisse se lembrar dele.

— Não me lembro de nada — confessei, confusa. — É como se eu estivesse vendo outra pessoa. Não me lembro de ter estado lá e muito menos de ter falado com alguém.

Ele me deu um tapinha no ombro, o que me causou um breve frêmito.

— Pois é — continuou ele. — Nós vamos pegar esse cara, Annabel. Você sabe que estamos investindo tudo o que temos nisso, não é?

Até que um novo caso apareça, pensei, mas não disse em voz alta. Voltei à minha lista de solicitações de contas telefônicas, achando que provavelmente seria mais fácil e mais rápido ceder e fazer tudo sozinha.