Restos Humanos
Annabel
NÃO HAVIA NADA PIOR DO QUE começar a manhã de segunda-feira no escuro, com frio e os pés molhados.
Quando enfim cheguei ao trabalho, a barra da minha saia e minhas botas de camurça estavam encharcadas. Em dias assim, não era nada legal ter que pegar o carro e o ônibus para ir trabalhar. Chegar bem cedo no estacionamento, antes mesmo de o dia raiar, esperar dentro do carro aquecido a chegada do ônibus, depois, ainda meio sonolenta, ir sacolejando no assento no caminho até a cidade. Ainda não tinha descoberto qual ponto de ônibus me deixava mais perto do distrito policial. Hoje, optei pela parada no monumento aos mortos na guerra, mas tinha esquecido que o caminho estava interditado pela Unity Street. Não havia como passar, a menos que se atravessasse a rua, é claro, mas isso não era fácil. Então, esperei por um intervalo entre os carros e me arrisquei, cruzando aquele trecho da pista ao lado de uma imensa poça, antes que uma outra van passasse por cima me dando um banho.
Eu nunca fui muito rápida. Não fui feita para correr, não mesmo.
Entrei pelo portão dos fundos, deixando-o se fechar ruidosamente atrás de mim. A chuva começava a diminuir agora — bem típico. Meu cartão de acesso fez soar cinco diferentes pontos de controle — eu parei para contar: o do portão dos fundos, o do portão do estacionamento, o da porta de trás, a entrada para o Setor de Inteligência e, por fim, a porta da seção de segurança pública. Pendurei o casaco e a echarpe comprida e toquei o aquecedor — estava frio, é claro; afinal de contas era segunda-feira — então enchi a chaleira com a água de uma garrafa de dois litros, que vivíamos levando e trazendo da cozinha, que ficava a cem metros dali.
A geladeira, nem é preciso dizer, havia sido saqueada. Na sexta-feira, sobrara pelo menos meio litro de leite, mas a garrafa de plástico tinha sido esvaziada e cuidadosamente colocada de volta na prateleira, como se isso tornasse o gesto aceitável. No entanto, a metade do meu sanduíche de atum ainda estava lá. O cheiro me fez lembrar bruscamente da casa onde eu entrara na sexta à noite e de tudo o que acontecera depois.
Prendendo a respiração, peguei o sanduíche e levei-o pelo corredor, passando pela sala dos policiais, e o joguei numa das latas de lixo dali. Devia ter sido um deles que acabou com o leite. Agora também podia ficar com o sanduíche.
Fiz um chá preto para mim e liguei o computador. Estava muito lento. Dava para ouvir o alto-falante no corredor; em poucas horas, eu seria capaz de ignorar aquele ruído e me concentrar em outras coisas, mas por ora ele soava insistentemente.
Policial Hollis, se estiver no distrito, favor entrar em contato com a Detenção. Policial Hollis, entre em contato com a Detenção, por favor…
Penny Butler, Penny Butler, favor ligar para 9151. Penny Butler, 9151. Obrigado…
Motorista do Golf azul parado no estacionamento dos fundos, favor remover o carro do local imediatamente.
Cerca de um mês após começar a trabalhar em Briarstone, eu desisti de ir de carro. Só havia três vagas para o Setor de Inteligência e, para ser sincera, eu não precisava tanto do carro durante o dia quanto alguns dos outros funcionários. Pegar carro e ônibus me custava semanalmente doze libras, mas pelo menos eu não precisava ficar como uma imbecil, mudando o carro de lugar a cada cinco minutos por estar impedindo alguém de entrar.
Eu sempre chegava pelo menos uma hora antes dos outros. Com isso, podia me instalar, fazer logo as coisas que precisavam ser feitas. E tinha tempo de me preparar para encarar mais uma semana de trabalho.
Não havia como saber em que ordem eles chegariam — dependia do trânsito, do fim de semana que tiveram, do tempo e, no caso dos uniformizados, se haviam sido convocados por algum motivo. Mas uma coisa era certa: Kate era sempre a última, adiava o máximo que podia, e quando chegava, cumprimentava todo mundo, menos eu.
— Bom dia, Trigger. A chaleira está ligada? E aí, Carol, o fim de semana foi bom? Bom dia, Jo, Sarah. Aonde você foi na sexta-feira? Depois do pub, não a vi mais! Você foi para o Jaxx? E como estava lá?
Finalmente — uns bons vinte minutos depois de tirar o casaco e pendurá-lo atrás da porta — ela ligava o computador e reclamava da maldita lentidão do sistema. E talvez uns vinte minutos depois disso, Jo, Amy, Sarah ou alguém da sala ao lado a chamava e elas subiam para tomar o café da manhã na cantina do último andar.
Hoje foi a Carol.
— Você vem? — perguntou ela.
Kate já estava de pé, com a bolsa na mão.
— Com certeza, estou morrendo de fome.
— Bom dia, Annabel — disse Carol, gentilmente. — Quer que eu traga alguma coisa para você?
Algumas vezes elas me faziam essa pergunta. Nunca perguntaram se eu gostaria de ir com elas, é claro, pois tinham medo de que eu aceitasse e aí teriam que conversar comigo.
— Não, obrigada.
Logo elas sumiram pela porta e o escritório ficou abençoadamente calmo outra vez. Se alguma delas tivesse perguntado sobre meu fim de semana, eu teria contado. Se tivessem se dado o trabalho, teriam me ouvido contar como encontrei o cadáver na casa ao lado. Podia imaginar seus rostos, extasiadas, boquiabertas diante de seus sanduíches de bacon e queijo feitos na chapa. Pelo menos dessa vez, elas me escutariam sem interromper. Pelo menos dessa vez, minhas novidades superariam qualquer coisa que pudessem oferecer.
Mas não me perguntaram e então guardei tudo para mim.
Eu esquecera de pedir a Kate para trazer meio litro de leite da cantina, e de modo algum ela se lembraria sozinha, então, depois de aproveitar o sossego no escritório por dez minutos, eu me levantei, peguei minha bolsa e entrei no elevador para chegar ao último andar.
Estavam todas reunidas em volta de uma mesa perto do caixa, as cabeças próximas. Dava para ouvir fragmentos da conversa enquanto eu pegava meio litro de leite semidesnatado na geladeira e verificava a data de validade.
— Está vendo? Bem que eu disse, não foi?
— Ele apenas se mudou, Kate, nem levou todas as coisas dele ainda…
Então, Carol havia colocado o coitado do Rick para fora do apartamento. Fiquei esperando atrás de dois policiais completamente equipados: colete tático, rádios piscando. Atrás do balcão, Lynn acrescentava uma generosa porção de vinagre de uma garrafa de tamanho industrial dentro de uma panela para os ovos pochés, que já estava cheia de uma espuma pardacenta de vinagre e clara de ovo flutuando na superfície. Desviei o olhar.
— Você já começou a falar com as paredes? — perguntou Sarah a Carol.
— Não tem graça nenhuma. Tudo está horrivelmente quieto agora, sem aquela droga de canal esportivo ligado o dia inteiro.
— O próximo passo é adotar um gato…
— Ei, não critique — disse Kate. — Se não fosse o gato, Annabel já teria ficado completamente maluca, sabia?
— Não seja malvada — retrucou Amy. — Ela não é maluca…
— Mas está quase lá, se quer saber o que eu acho.
Olhei para elas, me perguntando se realmente não tinham notado que eu estava bem ali, ou se estavam sendo deliberadamente grosseiras.
— Quer mais alguma coisa, Annabel? — perguntou Lynn.
Ela havia jogado alguns ovos na panela e os regava com aquela água marrom para apressar o cozimento. Eu me virei para o caixa, abrindo minha bolsa.
— Não — respondi. Minhas bochechas queimavam.
— Ai, merda. — Escutei alguém dizer na mesa atrás de mim.
Depois, todas se calaram. Entreguei uma moeda de uma libra, peguei o leite e saí apressada, sem olhar para a mesa, sem olhar para Lynn, apesar de ter escutado ela dizer: “Espere, o troco!”
* * *
O Resumo das Ocorrências chegou por e-mail às nove e meia, na mesma hora que Kate voltou para o escritório. Durante os vinte minutos, aproximadamente, que se passaram desde a cena lá em cima, na cantina, eu tinha vertido algumas lágrimas secretas, lavado o rosto no banheiro e decidido esquecer o episódio. Eu sabia que elas falavam de mim, afinal de contas. Elas falavam sobre qualquer pessoa que não estivesse presente, portanto, não havia razões para me considerar especial.
Kate ligou a chaleira atrás de mim e limpou a garganta.
— Quer um chá?
— Quero, sim. Seria ótimo.
Obviamente, ela esperava que eu fosse recusar, mas senti um prazer perverso aceitando sua oferta. Quando ela colocou a caneca com força na mesa, vi que parecia muito leitoso. Eu estava com bastante sede a ponto de não me importar com isso. Afinal, ela estava se esforçando.
— Obrigada, Kate. Parece ótimo. Do jeito que eu gosto.
O resumo normalmente tinha uns cinco ou seis itens importantes: crimes e incidentes que tinham ocorrido no dia anterior. Tudo que pudesse ser classificado como incidente crítico estava incluído — assaltos à mão armada, mortes repentinas e suspeitas, suicídios. Eu tinha um interesse particular por estupros e homicídios, para o caso de um dos criminosos que eu devia monitorar ter saído da linha. Embora eu pudesse pesquisar os detalhes dos crimes da véspera no sistema, o resumo era um atalho conveniente, pois os mais sérios estavam sempre incluídos.
E lá estava.
Morte suspeita
Aproximadamente às 20h32 de sexta-feira, uma unidade de patrulha foi deslocada
para um endereço na New Market Street, Briarstone. A vizinha sentiu um cheiro
forte vindo do endereço em questão e entrou na casa, descobrindo os restos em
decomposição de uma mulher na sala de estar. A falecida teve a idade estimada
em 43 anos e morava naquele endereço. Parentes mais próximos foram
informados. A Delegacia de Homicídios esteve presente no local e, embora as
investigações ainda estejam em curso, acredita-se que não havia circunstâncias
suspeitas.
Isso era tudo. Não sei o que eu estava esperando — algo um pouco mais eloquente, talvez —, mas se tratava de uma descrição insossa, deliberadamente feita para informar quem precisava saber e deixar as coisas obscuras para aqueles que não precisassem.
* * *
A casa vizinha atraiu um bocado de gente na maior parte do sábado. A perícia estacionou em frente à minha casa e, embora eu já tivesse falado com o primeiro policial que apareceu, fiquei por ali o dia todo esperando para ser interrogada de modo adequado.
Meu estado emocional estava bem frágil, oscilando entre a náusea e o choque por tudo o que vi e fiz, o aborrecimento com toda aquela demora, e a culpa por não ter chamado a polícia imediatamente, em vez de arrombar casa, como se fosse alguma investigadora de série policial, uma Jessica Fletcher da vida real.
Depois de encontrar o corpo, voltei para casa e tranquei a porta. Em seguida, abri-a novamente, deixei a gata do lado de fora e fechei a porta. Ao colocar a mão sobre sua barriga, em vez do pelo macio, senti que estava toda suja e viscosa, úmida e fria.
Aquele cheiro nas minhas mãos, na meia-calça, na saia. Algo preto, verde e marrom, a coloração que conseguimos ao misturar todas as cores da palheta de tintas, e acrescente a isso um odor de putrefação. Tirei minha roupa ali mesmo na cozinha e a coloquei na máquina de lavar. Aumentei a temperatura para sessenta graus e estava a ponto de ligar o aquecedor quando, subitamente, me dei conta de que não deveria. Podia acabar sendo uma prova.
Prova de quê?
Lavei as mãos com um sabão antibacteriano que tinha um perfume forte, mas mesmo depois de enxaguá-las, continuavam cheirando mal. Peguei um pedaço de toalha de papel, molhei bem e depois aspergi um sabão azul em cima para esfregar minhas pernas, no caso de a substância ter passado pelas meias e alcançado a pele.
E durante todo o tempo, eu lutava contra a ânsia de vômito. De vez em quando, voltava a sentir o cheiro no fundo da garganta e começava a tossir e a engasgar.
Quando finalmente me senti limpa, liguei para a polícia.
— Distrito de Kent, posso ajudar?
— Acabei de encontrar um corpo na casa ao lado. Está horrível, em decomposição.
— Certo — disse uma voz feminina do outro lado da linha. Podia ouvi-la digitando no teclado, colocando o código 240B para “corpo suspeito”. — Pode me dizer o seu nome?
— Annabel Hayer.
Respondi a todas as perguntas — endereço, número de telefone, todos os detalhes que eu tinha percebido (como a luz acesa), escutado (nada), sentido (o cheiro putrescente) e visto (o corpo na poltrona) — até me convencer dentro da minha cabeça de que eu tinha imaginado tudo.
— Estamos muito ocupados esta noite — disse ela —, mas vamos mandar uma unidade até aí, assim que alguma estiver liberada.
Subi a escada, tomei uma ducha, lavei o cabelo e vesti roupas limpas, mas ainda assim podia sentir o cheiro, mais suave porém ainda presente. Olhei para fora, nenhum sinal da polícia até então.
A gata miou, pedindo para entrar. Fechei a porta da cozinha e dei-lhe um banho improvisado na pia. Eu já tentara dar banho em gatos antes e, como das outras vezes, a experiência foi um pouco traumática. Ela arranhou meus braços, rasgando a pele, enquanto eu esfregava suas costas e flancos inferiores com meu melhor xampu sem aditivos e de pH neutro sob a água morna. Consegui limpá-la quase toda. Ela também andara se lambendo, os pelos estavam espetados para cima. Só em pensar no cheiro dela, mesmo depois de lavada, enxaguada e enxuta com um pano de prato, foi o bastante para me dar ânsias de vômito. Assim que se livrou do pano, a gata começou a correr para todos os lados da cozinha, em pânico, derrubando várias coisas. Temendo pelas louças, abri a porta dos fundos e ela fugiu.
A polícia tinha finalmente chegado e, tendo ido até a casa vizinha e verificado que havia de fato um cadáver, o fato foi notificado pelo rádio e eles concordaram em me deixar ir dormir.
Sob a luz fria da manhã de sábado, tudo parecia bem diferente. A gata estava sentada no degrau da porta dos fundos, parecendo excepcionalmente irritada. Quando abri a porta ela entrou e logo me deu as costas, sentando-se no canto da cozinha e só saindo de lá quando enchi sua tigela com biscoitos. O pelo de seu dorso e de seu ventre ainda estavam espetados, mas pelo menos o odor tinha se dissipado.
Eu nunca vira o policial da área de Homicídios que finalmente veio me interrogar e, embora tivesse me mostrado sua identificação quando o deixei entrar, de imediato esqueci seu nome. Ele me disse que havia trabalhado no distrito policial de Briarstone no ano passado e, quando ele disse isso, eu me lembrei de já tê-lo visto na cantina.
— Como você está? — ele me perguntou, entrando na sala de estar. — Deve ter sido um tremendo choque.
A tarde já chegava ao fim e eu não tinha comido nada o dia todo. Toda vez que pensava nisso eu me lembrava da aparência horrível daquele corpo inchado, da cor da pele e da poça sob a cadeira.
— Acho que sim — respondi. — De certo modo, eu já estava esperando por isso, considerando o cheiro.
— É verdade, o cheiro está forte lá dentro.
— Você aceita um chá, um café?
— Um café seria ótimo, obrigado. Dois cubos de açúcar. Tudo bem se eu usar seu banheiro?
Indiquei a direção para ele, depois fui até a cozinha, enchi a chaleira e fiquei esperando a água ferver. No parapeito da janela havia a estatueta de um anjo que eu comprara numa loja New Age, em Bath. Ela estava iluminada pelo sol e brilhava como se envolvida por uma auréola gloriosa.
Levei o café até a sala. Ele já estava sentado ali, com o bloco de notas no colo, escrevendo alguma coisa com a cabeça inclinada sobre o papel.
— Obrigado — disse ele. — Você trabalha no Setor de Inteligência, não é?
— Trabalho — respondi. — Sou analista de segurança pública. E lido também com as divisões policiais.
— Você tem dois empregos?
— Praticamente, sim. Antes, éramos quatro e eu só trabalhava na segurança pública, então no ano passado dois da equipe foram transferidos e agora somos só eu e outro analista. Dividimos as tarefas das divisões policiais.
Ele não estava nem um pouco interessado nas atribuições do meu emprego, mas eu sempre tinha a esperança de que alguém percebesse a injustiça de ter que fazer o dobro do trabalho sem ganhar mais por isso. Quase acrescentei que Kate fazia somente a análise da Divisão Norte e eu fazia isso e a segurança pública também. Mas, como de costume, mordi o lábio e fiquei calada.
— Então — prosseguiu ele. — Você entrou pela porta dos fundos, certo?
— Certo — respondi. — Havia uma luz acesa. Achei aquilo um pouco estranho, porque eu pensava que não tinha mais ninguém morando lá.
— Havia uma luz acesa? Onde exatamente?
— Na sala de jantar. Um abajur em cima da mesa.
Ele estava escrevendo. Tensa, esperei que terminasse.
— Vamos voltar um pouco. Pelo telefone, você disse que quebrou uma janela?
— Não, pelo menos não fiz isso de propósito. Empurrei a porta, o vidro estava solto e caiu dentro da cozinha, se espatifando no chão. Um dos vidros na parte de baixo da porta já estava quebrado.
— Mas a porta estava aberta?
— Não. A chave estava do lado de dentro. Eu a destranquei.
Mais anotações.
— E você disse que havia luz lá dentro…
— Havia. Na sala de jantar.
— E quando você saiu ela ainda estava acesa?
— Estava.
— Você não a apagou?
Eu olhei para ele, perplexa. Claro que não a apaguei. Por que faria isso? Para sair tropeçando no escuro? Mas eu não estava raciocinando direito no momento. Talvez eu a tivesse apagado, no final das contas.
— Acho que não a apaguei — falei, hesitante.
Ele fez um som com a boca parecido com “humm”.
— Vocês vão me prender por ter arrombado uma residência? — perguntei, acompanhando a pergunta com uma risada que até para mim soou forçada.
— Não, agora não — respondeu ele com um sorriso. — Já tenho muito o que fazer.
Meu depoimento pareceu levar uma eternidade, embora tenha durado menos de uma hora. Ele pediu que eu lesse o que escrevera à mão e assinasse seu caderno, concordando com o que estava anotado. Depois, disse que iria digitar tudo e me dar a versão oficial para assinar em algum momento na segunda-feira, durante o expediente. Em seguida, ele voltou para a casa vizinha, me deixando em paz.
Não muito tempo depois, alguém bateu na porta da frente. Um homem que não reconheci: vestido com calça jeans e casaco mal-ajambrados, e com uma vasta cabeleira cinza puxada para cima, no que parecia ter sido um topete.
— Oi. Lamento incomodar — disse ele e, é claro, o que eu deveria ter feito era fechar a porta imediatamente. Mas, tola, e também bem-educada, não o fiz. — Eu sou repórter do Briarstone Chronicle. Estou aqui por causa de sua vizinha. Gostaria de saber se foi você que chamou a polícia.
Mordi o lábio.
— Não sei quem chamou a polícia — respondi. — Sinto muito.
— Disseram que foi um vizinho. Como não há uma casa do outro lado, achei que só podia ter sido você.
— Não sei de nada. Estou realmente ocupada agora, me desculpe.
— Tudo bem. Obrigado pela atenção.
Não lhe dei a chance de dizer mais nada. Fechei a porta com firmeza. Algumas horas mais tarde houve outra batida na porta. Olhei pelo olho mágico dessa vez, e vi outro homem que não conhecia, mas que com certeza não estava uniformizado. Jovem, vestido informalmente, de óculos e precisando cortar o cabelo preto. Havia uma mulher em pé, um pouco atrás dele, com uma câmera enorme pendurada na mão. Não abri a porta.
Apesar das três duchas e de ter lavado todas as minhas roupas, continuei fungando, e o cheiro perdurava em minhas narinas. Talvez fosse imaginação minha. A gata se aninhara no sofá, transformando-se numa bola emburrada, virando as costas para mim e para a sala. Levaria algum tempo até que se sentisse pronta para me olhar nos olhos novamente.
* * *
Já eram quase dez horas e eu não fizera praticamente nada de útil. Mas ainda não sentia vontade de encarar a Avaliação Tática, então abri o sistema de expedição de mensagens e fiz uma busca por meu nome e endereço. Estritamente falando, isso ia contra os regulamentos, mas, se alguém perguntasse, provavelmente eu poderia argumentar que havia um interesse profissional legítimo.
POR TELEFONE, INFORMANTE AFIRMA HAVER UM CADÁVER NA CASA AO LADO
*
NÃO HÁ NINGUÉM MORANDO NO LOCAL
*
INFORMANTE AFIRMA QUE GATA DO VIZINHO APARECEU CHEIRANDO MAL E
COM UMA SUBSTÂNCIA NO PELO
*
CORREÇÃO: TRATA-SE DA GATA DO INFORMANTE, NÃO DO VIZINHO
*
UNIDADES POLICIAIS: AT55 OCUPADA AZ31 OCUPADA AL22 EM MISSÃO DE
CAPTURA
*
INFORMANTE AVISADO DE QUE UMA UNIDADE SERÁ ENVIADA ASSIM QUE
HOUVER DISPONIBILIDADE
*
INFORMANTE CONFIRMA QUE AGUARDARÁ CHEGADA DA UNIDADE POLICIAL
*
SEGUNDO A LISTA DE ELEITORES: RESIDENTE IDENTIFICADA COMO SHELLEY
LOUISE BURTON
*
FAVOR CHAMAR EM CASO DE OUTROS ACONTECIMENTOS
*
20H32: AL22 NO LOCAL
*
NINGUÉM ATENDE A PORTA
*
SOLICITADA PRESENÇA DA DELEGACIA DE SEGURANÇA PÚBLICA — DETETIVE
INSPETOR PRESTON EM SERVIÇO
*
INFO SOBRE PROPRIETÁRIO, NENHUM REGISTRO DE PROPRIETÁRIO NO LOCAL
*
CONSULTAR SETOR DE INTELIGÊNCIA PARA ADICIONAR À LISTA
E assim seguia, por várias páginas. Diversas equipes foram convocadas, de acordo com o protocolo. As tentativas de encontrar parentes próximos de Shelley Burton foram cuidadosamente registradas; por fim, acharam uma tia idosa em Norfolk. Não havia menção alguma a seu companheiro, Graham, se é que o nome era esse mesmo.
— Você viu o Resumo das Ocorrências? — perguntei. — Houve mais um.
— Mais um o quê? — indagou Kate, espiando por sobre a tela de seu computador.
— Mais um corpo em decomposição. Tinha apenas quarenta e três anos.
Kate me olhou com desprezo. Ela sempre deixava passar essas ocorrências, considerando que, tecnicamente, não houve crime algum. Corpos encontrados no conforto de seus lares sem circunstâncias suspeitas aparentes não eram problema nosso. Se não fosse pelo fato de eu mesma ter descoberto o último, eu tampouco teria dado muita atenção àquilo. Mas havia mais uma coisa que estava me incomodando — aquele cara da polícia indagara sobre eu ter dito que a luz estava acesa. Com certeza, quando eles entraram na casa, a luz estava apagada. Não era isso o que me preocupava — afinal de contas, talvez eu a tivesse apagado sem pensar quando saí, ou talvez o primeiro policial que aparecera a apagara, ou talvez a lâmpada tivesse finalmente queimado. Mas me lembrei de que eu tinha pensado que havia alguém dentro da casa. Eu sentira alguma coisa — uma presença — e, na hora, descartara aquela impressão, ao encontrar o corpo na poltrona; e os ruídos que ouvi, considerei que eram da gata. Mas e se houvesse de fato mais alguém ali o tempo todo?
— Só acho que é uma pena — falei. — Estar morta por tanto tempo e ninguém sabe que você se foi.
— Hum — disse Kate, mas ela não estava realmente me ouvindo.
— Eu me pergunto quantos casos assim ocorreram esse ano.
Nenhuma resposta dessa vez. Não que eu estivesse esperando uma. Kate fingia estar ocupadíssima redigindo o relatório bissemanal que precisaríamos apresentar à coordenação na quarta-feira, quando na verdade estava atualizando seu status no Facebook pelo celular.
Que se dane. Eu não estava ocupada. Comecei então a pesquisar todas as ligações e incidentes em que um corpo havia sido encontrado desde o início do ano. Inseri os seguintes termos genéricos de busca: “decomposto” ou “decomposição”. Com certeza, não devia haver tantos assim, pensei.
Mas estava enganada.
— Vinte e quatro — exclamei.
— Vinte e quatro o quê?
— Corpos. Vinte e quatro desde janeiro. Só em Briarstone.
Kate suspirou e deixou o celular sobre a mesa. Ela virou o pescoço e me olhou fixamente por cima da tela do computador.
— Que corpos? Do que você está falando?
— O total de corpos encontrados dentro de uma residência e em estado de decomposição.
— E por que você está procurando isso? Temos trabalho para terminar até a hora do almoço.
— E — falei, fazendo uma pausa de retumbante silêncio — adivinha quantos casos desses houve no ano passado?
Ela encolheu os ombros.
— Vinte? Dez?
— Quatro.
Ela me encarou por um instante, finalmente curiosa, e veio até minha mesa para olhar por sobre meu ombro. Os números estavam todos ali — os mesmos critérios de busca para os dois períodos, mostrando uma quantidade alta demais nesse ano, até agora, e um número estranhamente baixo no ano anterior.
— E nos outros anos? — perguntou ela.
— Acho que essa é a próxima coisa que vou procurar.
— Não vejo sentido nisso — disse ela. — Ninguém vai se interessar. Já é tão difícil fazer com que tomem alguma providência quando um crime é cometido, que dirá quando não houve crime algum.
— Ah! — exclamei, tocando a ponta do nariz com um dedo. — Trata-se do conjunto do programa. Segurança Comunitária. Medo da Criminalidade. Coesão Social. Política de Vizinhanças e tudo o mais.
Infelizmente, Kate tinha razão. Trabalhar como civil na força policial era com frequência um conflito cultural; precisávamos convencer os oficiais superiores de que tínhamos uma contribuição valiosa a dar para uma investigação, planejamento de recursos e iniciativas estratégicas, tanto quanto os policiais com experiência real, que saem às ruas e prendem pessoas. O mais perto que eu chegara de um criminoso tinha sido morar no meu feliz anonimato a duas ruas de distância do maníaco sexual do bairro, ou ao passar por alguém na recepção da delegacia que aguardava para ser detido. Eu nunca teria de acalmar alguém que portava uma faca, nem contar para alguém que a pessoa que amava estava morta. Nunca teria de tentar persuadir uma mulher a largar seu companheiro violento ou contar aos pais que seu filho estava sofrendo abuso sexual. Em vez disso, eu observava os números, todos os dados brutos que chegavam dia após dia, formulando padrões comparativos, procurando alguma brecha. E mesmo assim, depois de achar algo potencialmente interessante, tentar convencer o oficial superior de que minhas recomendações eram dignas de ser seguidas costumava ser uma batalha. Como eu acabara de dizer para Kate, com cautela, era sempre uma boa ideia sugerir que havia benefícios maiores em termos de alcançar as metas do Ministério do Interior.
Dei uma olhada na minha lista de incidentes. Vinte e quatro pessoas, todas encontradas mortas, sozinhas, algum tempo depois do falecimento. Infelizmente, como os defuntos não eram classificados como vítimas de um crime, não havia como procurar outros parâmetros, tais como idade e sexo, mas examinando alguns dos relatórios de incidentes ficou claro que nem todas eram pessoas idosas.
Acessei o mesmo relatório até o início de 2005 e transferi todos os dados para uma planilha. Logo percebi que os últimos resultados eram bem interessantes — somente três corpos em decomposição em todo o ano de 2005. Nos sete anos, entre 2004 e 2011, vinte e dois corpos — a maior quantidade registrada foi em 2010, com onze, mas o inverno tinha sido demasiadamente rigoroso. E em 2012, vinte e quatro corpos nos primeiros nove meses do ano.
Na hora do almoço, saí, subi a colina até o centro da cidade, arfando um pouco. Do outro lado da rua, Kate e Carol também seguiam na mesma direção, conversando animadamente. Elas não tinham me visto, ou preferiram fingir que eu não estava ali. De qualquer maneira, caminhavam duas vezes mais rápido do que eu e em menos de dois minutos alcançariam o topo da ladeira e chegariam à esquina, sumindo de vista.
Ao voltar para o distrito policial, olhei para a fileira de casas geminadas ao longo da Great Barr Street, sucessões de degraus de aparência imunda e cortinas escuras. Pilhas de correspondências encostadas na porta de vidro fosco; algumas moscas mortas, com as patinhas viradas para o alto, sobre o peitoril da janela de outra casa. Quantas outras pessoas estariam lá, esperando para serem encontradas?
* * *
Peguei o carro no estacionamento, ao lado do ponto de ônibus, e dirigi até o supermercado, debaixo de chuva, com o rádio ligado. Mentalmente, eu passava a lista de todas as coisas que faria para cuidar de mim mesma, após o trauma do fim de semana. Talvez pedisse comida pelo telefone. Tomaria um banho demorado de banheira. Leria um livro ou veria um filme.
Fazia anos que eu morava sozinha e gostava disso. Além do mais, tinha minha gata. Os anjos me protegeriam.
A saúde da minha mãe estava ficando frágil. Desde que ela levara um tombo, no ano anterior, muito embora só tivesse sofrido arranhões, ficou nervosa demais para sair de casa — então ela me dava as listas de compras, instruções para ir pegar suas receitas, colocar suas cartas no correio, e no caminho de volta do trabalho, eu parava na sua casa, duas ou três vezes por semana, para preparar seu jantar e lavar a louça. Tecnicamente, ela poderia cozinhar para si mesma e lavar a própria louça, mas desde que adoecera por causa de uma infecção pulmonar em dezembro, eu estava cozinhando para ela e, embora ela agora já tivesse se recuperado, eu não conseguira me livrar desse hábito quando passava por lá.
Sua casa era de um antigo estilo vitoriano, na periferia do centro da cidade. Seu velho Nissan Micra continuava estacionado na rua, todo enferrujado e, mesmo assim, ela insistia em pagar os impostos e o seguro, no caso de ela repentinamente sentir necessidade de sair de casa. Estacionei atrás dele e continuei sentada por um momento, saboreando a sensação de estar só, de estar sossegada.
Abri a porta da frente com a minha chave, que mantinha num chaveiro diferente, como se fosse algum recado para mim mesma dizendo que aquilo não era um arranjo permanente.
— Sou eu, mamãe! — exclamei. Dava para ouvir o som alto da televisão vindo do quarto dos fundos; uma de suas novelas, a que sempre assistia aquela hora da noite.
— Oi, querida — respondeu ela, sem erguer o olhar. — Você pode aumentar um pouquinho o termostato? Está ficando um pouco frio.
Estiquei o braço sobre sua cabeça e girei o botão até ouvir o ruído do aquecedor a gás na cozinha acendendo outra vez.
— Trouxe uma daquelas sopas instantâneas — falei. — Brócolis com queijo.
Ela fez uma careta, mas disse:
— Tudo bem, querida. Se é só isso que tem.
Era minha sopa favorita; eu abri o pacote e a coloquei no micro-ondas, embora minha mãe sempre criasse caso quando eu não usava uma panela. A panela menor estava dentro da pia, toda incrustada com o que pareciam ter sido ovos mexidos, que ela preparara no café da manhã. Enquanto eu esperava a sopa esquentar, abri a torneira sobre a panela e joguei um pouco de detergente ali dentro. Interrompi a ação do micro-ondas antes de ele soar e despejei a sopa numa tigela, colocando-a sobre uma bandeja junto com um pão integral com manteiga, depois levei tudo até ela.
— Não tem pão branco? — queixou-se ela.
— Não tinha mais no Co-op — menti. — De qualquer maneira, o pão integral é melhor para você. Você precisa comer mais fibra, mãe, especialmente se fizer ovos mexidos todos os dias.
Sua atenção havia se voltado para a televisão.
Lavei a louça, esfreguei a panela até deixá-la limpa, pensando que pelo menos minha mãe poderia tê-la deixado de molho, depois limpei superficialmente a cozinha. Em seguida, voltei para a sala de estar. Ela tomara toda a sopa, apesar de dizer que não gostava.
— Aproveitando que você está aqui — disse ela —, pode procurar meu extrato bancário?
Havia sempre a hora do “aproveitando que você está aqui”, invariavelmente quando eu já havia vestido meu casaco e estava pronta para sair.
— Qual deles?
— O da poupança.
Fui até o outro quarto e abri a gaveta de cima da cômoda, onde ela guardava o passaporte expirado, a carteira de motorista, certificados de garantia e manuais de instrução para todos os aparelhos eletrônicos que comprara nos últimos trinta anos — todos os documentos da vida dos quais nunca mais precisaria e, enterrados sob eles, aqueles de que ainda precisaria: caderneta do crédito imobiliário, identificação de invalidez, fotografias da família.
— Mãe, está bem aqui.
Olhei para a gaveta aberta, o documento logo ali, onde nunca ficava — e percebi como tudo estava limpo e organizado, como se alguém tivesse feito uma boa arrumação. Ela mesma devia ter feito, colocado aquele caos em ordem uma vez e, depois, se esquecido.
Ela estava ficando velha e esquecida, eu me peguei pensando, ao levar-lhe o extrato. Até agora ela havia se mostrado esperta e lúcida, apesar de sua fragilidade física. Até quando conseguiria se virar sozinha na própria casa, ainda que eu viesse visitá-la com frequência?
Briarstone Chronicle Abril
Corpo de jovem desaparecida é encontrado em Baysbury
A polícia foi chamada até um apartamento em Baysbury, na noite de terça-feira, e ficou chocada ao descobrir os restos mortais em decomposição de Rachelle Hudson, 21, que fora declarada desaparecida de sua casa em Hampshire desde dezembro último.
Vizinhos disseram ter visto a moça se mudando para o apartamento logo no Ano-Novo, mas imaginaram que tivesse se mudado novamente, pois não a viram mais desde então. “Fomos até lá para cumprimentá-la, mas ela não nos convidou a entrar”, disse Paula Newman, 33. “Ela parecia ocupada. Não voltamos a procurá-la e, como não a víamos fazia algum tempo, achamos que tinha ido embora. Não consigo acreditar que ela estava ali esse tempo todo.”
A família de Rachelle Hudson informou que a filha havia saído de casa, em Fareham, após uma discussão. Já fazia algum tempo que ela vinha sofrendo de depressão. Não se sabe o motivo que a levou a se mudar para Baysbury, nem a causa de sua morte. Só descobriram seu corpo quando a polícia foi avisada pelos proprietários do imóvel na Balham Drive, queixando-se de que o aluguel não estava sendo pago.
Um porta-voz da polícia declarou que “a unidade policial foi chamada até Baysbury, onde descobriu o corpo de uma moça em avançado estado de decomposição. A morte parece ter sido provocada por causas naturais”.
Rachelle
Nos jornais, todos disseram não saber por que fui embora ou para onde tinha ido. Disseram que era algo típico de mim. Disseram que eu tinha amigos e um lar adorável. Disseram que eu devia ter sido levada por alguém, porque, por conta própria, eu nunca teria ido embora. Minha mãe disse que eu estava indo bem nos estudos e tinha uma boa carreira me esperando. Tinha toda minha vida para viver. Disse que eu era uma menina linda, amada por toda a família.
Tudo mentira.
Ela apareceu na televisão, eu a vi, com lágrimas nos olhos, me pedindo para entrar em contato. E depois, suplicando a quem quer que tivesse me sequestrado — “Alguém, em algum lugar, deve saber onde está minha Rachelle, onde está minha filhinha…” —, pedindo para que entrassem em contato com a polícia, “para ajudar a reconfortar o coração de uma mãe, que estava ficando louca de angústia sem conseguir imaginar pelo que a filha estava passando”.
Minha filhinha. Eu realmente escutei-a dizendo essas palavras. Eu estava sentada no sofá, no meu novo apartamento, em estado de choque total, vendo minha própria mãe na televisão, implorando para que eu entrasse em contato com ela. Eu estava enrolada em três casacos de lã, com frio, mas me preocupava demais com dinheiro para ligar o aquecedor. Eu sempre sentia frio, mesmo no verão.
Depois disso, eu não pude sair durante algum tempo. Já vira os vizinhos uma vez e esperava que não fossem me reconhecer. Tingi o cabelo de preto, cortei-o o mais curto que pude — difícil ver como tinha ficado atrás, mas era melhor do que nada; pelo menos, como meu cabelo era muito grosso, não dava para ver as partes irregulares. Com um pouco de maquiagem nos olhos eu parecia mesmo uma emo. Duvido que minha própria mãe tivesse me reconhecido, sério, mas também, mesmo antes da transformação, era difícil ela olhar para mim.
Depois de dois meses, meus remédios acabaram, mas eu não podia procurar um médico. Então, me virei sem eles, e ficou tudo bem. Eu já estava mesmo cansada daquele entorpecimento medicamentoso. Pelo menos, envolta numa nuvem negra, dava para saber meu paradeiro. Ela estava sempre lá, de qualquer maneira, exatamente como os comprimidos, ficava escondida, fora de vista. Eu gostava de saber que estava ali. Ainda que fosse ruim, pelo menos era real.
Depois de ver minha mãe no telejornal, fiquei sem poder sair por alguns dias. Se não saía, não podia comprar comida. Teria que me virar desse jeito. E quando realmente precisasse sair e fazer compras, já teria perdido… quanto? Dois quilos? Talvez três? Já fazia tempo que eu não perdia tanto peso assim. Emagrecia um quilo aqui, às vezes meio quilo ali, e, de vez em quando, se tivesse um dia bem difícil, eu engordava um pouco, mas em geral dava um jeito de emagrecer novamente, bem rápido. Dizia a mim mesma que quando chegasse a hora de eu voltar (se um dia pensasse em voltar, é claro) estaria magra e linda e talvez então começassem a me escutar e a me tratar melhor.
Gosto desse apartamento. É claro que é pequeno, mas é mobiliado e me alugaram por seis meses. Usei o dinheiro que minha avó me deu. Eles não sabiam disso. Ela me deu sete mil libras antes de morrer, disse para eu colocar no banco e não contar para ninguém. Ela me deixou mais algum dinheiro no testamento, mas já sabia que iam ficar com ele.
A vovó foi a única pessoa capaz de me amar apesar de qualquer coisa, a única que entendeu meu esforço para alcançar a perfeição. Nunca me disse que eu estava perdendo tempo, ou magra demais, ou precisando engordar uns quilinhos. Nunca me disse que eu ficava feia daquele jeito, tampouco jamais me disse que eu era linda. Para ela, eu era apenas Rachelle. Era a mesma menina que brincara no seu quintal quando pequena, que gostava de usar seus vestidos elegantes e seus sapatos de salto alto.
Sempre que eu pensava na vovó, em ir para a casa dela, isso me fazia sorrir. Era a única coisa que me fazia sorrir.
Eu queria começar a correr. Pensei em sair de manhã bem cedo, antes de as pessoas acordarem. Quando estava na escola, eu adorava correr, adorava aquela sensação, e eu me dava melhor com a professora de educação física do que com qualquer um dos outros professores estúpidos que estavam sempre enchendo o saco com seus deveres, prazos e qualificação profissional. A srta. Jackson não dava a mínima para nada disso. Ela gostava de mim porque eu nunca desistia das competições e sempre a ajudava a arrumar os equipamentos de ginástica. No passado, a escola oferecia um financiamento específico aos atletas, levando os alunos para torneios contra outras escolas, mas depois pararam. Fui a única que me importei com isso, de qualquer forma. No final, fiquei tão mal que tive que sair da escola, muito embora ainda precisasse correr e, quem sabe, poderia ter me aperfeiçoado, se fosse capaz de me exercitar corretamente, levantar pesos, frequentar aulas de spinning e outras coisas que se fazem em algumas escolas.
Mas a corrida foi um erro. Eu me empenhei, mas minhas pernas não funcionavam mais como antes. Era como se meu corpo já tivesse morrido e apenas esperasse minha mente alcançá-lo. E talvez a nuvem negra seja isso, afinal de contas. Talvez a nuvem negra seja a morte e eu simplesmente não a tenha reconhecido como tal. E tantos de nós ainda estamos perambulando pelo mundo, mas estamos simplesmente mortos por causa da nuvem dentro, fora de nós, ao nosso redor.
Eu estava sob essa nuvem e não havia como sair, não havia escapatória. Era como estar num labirinto em que cada passagem que você escolhesse fosse errada, todas as passagens levando a um beco sem saída. Exceto uma. Havia uma passagem que era a saída. Só precisava encontrá-la.