Restos Humanos
Colin
A CASA ESTÁ GELADA, OS LEGUMES na panela exalam um odor ligeiramente putrefato. Escorro a água da panela e jogo o conteúdo no lixo. O cheiro dentro da geladeira é ainda pior, e para minha total decepção, também tenho que jogar fora o salmão. E depois, é claro, preciso levar os sacos de lixo para fora da forma adequada.
Eles estiveram aqui, embora nada pareça estar fora do lugar. Toda a casa ainda está com o cheiro deles e de suas botas que pisaram nos meus tapetes e incomodaram os fantasmas. Com certeza, vou tentar obter algum tipo de compensação, quando tudo tiver acabado. Eles não me interrogaram — foram logo me humilhando e me desrespeitando. Mereço mais consideração do que isso. Mereço o agradecimento deles.
Passei vários minutos andando de um cômodo ao outro, inspecionando a casa, como se tivesse ficado fora durante semanas e não apenas algumas horas.
Demora um tempo até eu conseguir relaxar aqui dentro, mas, quando finalmente me acalmo, a sensação é ótima. Eles não têm motivos para me acusar, apesar de seus imensos esforços, apesar de sua necessidade crassa de tentar me humilhar, me induzindo a revelar algo que me incrimine. Não conseguiria me incriminar, ainda que o quisesse, porque não fiz nada — NADA — de errado. Eu sei disso e eles também sabem. Essa sensação agradável de castigá-los se expande pelo meu corpo me proporcionando enorme satisfação. Eu me sento na minha poltrona predileta e deixo o pensamento voar, imaginando a beleza das transformações que observei e amando, amando todas elas.