Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 48 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

SAM ESTAVA ME DANDO UMA CARONA até o trabalho quando o celular dele tocou. Eu já estava meia hora atrasada, mas, em vez de me pedir para atender, ele parou o carro num ponto de ônibus e atendeu a ligação.

— Alô? Não tem problema… O que aconteceu? — Houve uma longa pausa durante a qual pude ouvir uma voz abafada esbravejar sobre alguma coisa no ouvido de Sam.

Era uma segunda-feira chuvosa e, contra a minha vontade, eu ainda estava morando na Keats Road. Na noite anterior, passei rapidamente na minha casa com Sam, a gata dentro da cesta. A casa parecera rançosa e hostil, como se estivesse com raiva de mim por ter ido embora. Parei na sala de estar e olhei ao meu redor enquanto Sam tirava a gata da cesta. Ela pulou fora, disparou para a cozinha e sumiu pela porta, que ele abrira para dar uma arejada.

Fomos procurá-la lá fora. Balançamos uma caixa de ração e chamamos seu nome. Então, comecei a ficar um pouco preocupada.

Sam preparou um chá de hortelã para nós, pois não havia mais leite. Nós nos sentamos à mesa da cozinha com a porta dos fundos aberta, na esperança de que a gata voltasse por conta própria, assim que percebesse que estava em casa.

— Gostaria que você reconsiderasse isso, Annabel — disse Sam.

— O quê?

— A ideia de ficar aqui sozinha.

Bebi um gole de chá, embora ainda estivesse escaldante.

— É só que eu acho muito esquisito ir morar com uma família completamente desconhecida. Você não concorda?

Ele me olhou com uma expressão surpresa, depois desviou o olhar.

— Não, não acho esquisito.

— Jura?

— Estamos apenas dando uma força, mais nada.

— Não me entenda mal, estou muito agradecida… mas é só que… Tenho sido tão grosseira com você, não é?

Resolvi parar de falar, pois estava ficando constrangida.

— Você não tem sido grosseira. Não que eu tenha notado.

— Quero dizer, no hospital, quando minha mãe estava doente. Sei que você estava tentando me ajudar. Só achei um pouco estranho você aparecer daquele jeito. Parecia que estava me espionando.

Ele tossiu por cima do chá.

— Já expliquei, fui até lá por causa daquele cadáver.

— Não na segunda vez.

— Não, mas não dá para chamar de espionagem só porque fui lá uma vez para ver como você estava.

— Uma vez, e depois você foi até minha casa porque eu não atendia o telefone.

Ele não respondeu, e lembrei que eu estava tentando me desculpar e acabara acusando-o de ter agido de um jeito estranho e me espionado. Voltei atrás logo depois:

— Mas… você praticamente salvou a minha vida…

— É — disse ele, seu tom de voz revelando que ele começava a se arrepender de ter se dado o trabalho.

— E agradeço, de verdade. Por tudo. E me desculpe por ser tão… chata.

Ele ficou quieto. Não iria negar isso.

— Como era a sua mãe? — perguntei a Sam, fazendo uso do meu truque habitual de mudar de assunto para evitar o constrangimento e tornando tudo instantaneamente cem vezes pior.

— Ela era adorável — contou ele. — Ainda sinto falta dela.

— Foi muito difícil para você quando seu pai começou a se relacionar com Irene?

Ele sorriu, o constrangimento de alguns instantes antes sendo esquecido, aparentemente.

— Não, não foi assim. Acho que de certo modo mamãe e eu arquitetamos tudo, para ser sincero.

— Como assim?

— Ela não gostou de nenhuma das cuidadoras que lhe ajudaram, até conhecer Irene. Não que ela adorasse Irene. Era muito mandona, dizia ela, mas a deixou ficar. Acho que não a escolheu por gostar dela como cuidadora, mas porque podia ver que ela se dava bem com papai. E comigo.

— Eu gosto dela. Tem sido um amor comigo.

Observei Sam beber seu chá, indagando-me por que ele parecia tão triste.

— Eu disse alguma coisa errada? — perguntei.

— Não. Estava apenas me lembrando da minha mãe. Só isso. Sinto saudade dela. Você também deve se sentir assim…

— É — confirmei.

Sentia saudade de ser uma filha, pensei, mais do que tudo. Saudade de ser útil para alguém. Ser importante.

Uma hora mais tarde, ainda sentados, conversando sobre o homem que tinham prendido e como ele devia ser, o telefone de Sam tocou, anunciando a chegada de uma mensagem de texto. Era de Irene, nos dizendo que a gata acabara de voltar para Keats Road. Depois disso, com o enorme fardo da inevitabilidade em cima dos ombros, peguei minha malinha, contendo as roupas que Irene tinha lavado e passado, apesar de eu ter protestado, alegando que poderia fazer isso sozinha, e voltamos para o carro. Visivelmente, eu e minha gata ainda não estávamos preparadas para voltar para casa.

* * *

Sam ainda estava falando, estacionado no ponto de ônibus. Quando, finalmente, conseguiu interromper aquela vozinha que eu mal ouvia no telefone, ele disse:

— Isso é mesmo muito interessante. Você tem o endereço?

Ele pegou uma caneta esferográfica no compartimento da porta, escolheu um recibo entre os vários que se acumulavam no console central e escreveu alguma coisa no verso enquanto a voz abafada continuava falando.

— Certo — disse ele. — Estou dentro. Pode deixar que aviso. Ligo para você mais tarde. Ok. Tchau.

Ele se virou para mim, com os olhos brilhando novamente.

— Adivinha só.

Eu ainda estava um pouco brava com ele por me fazer chegar atrasada ao trabalho, por mais que estivesse relutante em voltar a examinar os casos de atos criminosos e agressões sexuais. Mas agora minha curiosidade tinha sido despertada.

— Não faço ideia. O quê?

— Um dos meus contatos me informou que uma mulher acabou de ligar para dizer que a menina que mora com ela saiu com colegas do trabalho na noite de sexta-feira e não foi mais vista desde então.

Franzi as sobrancelhas.

— E?

— O nome dessa mulher é Audrey Madison.

— E esse nome deveria significar alguma coisa para mim?

— Pelo visto, você não tem entrado muito no Facebook.

— Eu não tenho Facebook.

— Pois então deveria — disse ele, dando meia-volta e seguindo na direção do centro da cidade. — É um site de busca fantástico. Audrey Madison é ex-namorada de um tal de Vaughn Bradstock. Caiu a ficha agora?

Balancei a cabeça. Sua morosa revelação cifrada estava começando a me dar nos nervos.

— Esse cara tem alguns amigos no Facebook, diferente do Sr. Colin Friedland, que tem somente um: Vaughn Bradstock. Em outras palavras, a ex-namorada do único amigo de Colin está desaparecida. — Eu o encarei. — É Colin, não é? — perguntou ele. — O homem que você identificou pelas contas telefônicas?

— E como é que você sabe disso?

Ele sorriu.

— Já disse que você não é minha única fonte de informação, Annabel. Na verdade, você é a pior fonte que eu já tive.

* * *

— Lá vem ele — disse Sam, quando o táxi preto estacionou no endereço de Colin.

A casa era grande, um pouco afastada da estrada e num nível mais elevado do terreno. Era uma casa velha, no estilo eduardiano, pelo que dava para perceber, e provavelmente valia uma fortuna. As equipes de buscas a tinham vasculhado de cima a baixo, e se tivessem encontrado qualquer coisa que fosse, Colin não teria sido solto.

Ficamos esperando no carro, estacionado a cento e cinquenta metros de distância daquele casarão, onde, segundo os cadastros eleitorais, ele morava sozinho.

— Ainda não entendi o que poderemos conseguir com isso — falei.

— Eu também não. Simplesmente, não confio nele. E você?

— Preciso ir trabalhar, Sam.

Eu estava tentando entrar em contato com Frost, tentando ligar para a Sala de Operações, tentando todos os números de que me lembrava e deixando mensagens em todas as caixas postais, mas até então não conseguira falar com ninguém. O fato de Audrey Madison — quem quer que fosse ela — estar desaparecida desde sexta-feira começava a engendrar uma sensação de incômoda urgência dentro do meu peito.

No fim da rua, um vulto desceu de um táxi e se inclinou na janela para pagar. Parecia estar contando algumas moedas.

— É ele? — perguntou Sam.

— É.

O homem que tinha sido meu anjo se afastou do táxi e veio na nossa direção, parecendo olhar diretamente para nós. Depois, se desviou na direção do casarão, abriu o portão e entrou, desaparecendo do nosso campo de visão.

Eles o tinham deixado em liberdade.