Restos Humanos
Colin
HOJE, LIGUEI PARA VAUGHN ÀS ONZE horas, perguntando se ele gostaria de sair para tomar uma cerveja. Parecia ter passado muito tempo, desde a última vez que o vira — na verdade, a última tinha sido aquela em que ele saiu correndo do pub atrás de uma aliança para Audrey, uma semana inteira atrás.
— Colin — atendeu ele, jovialmente. — Que número é esse? Seu rostinho alegre não apareceu na tela.
Tive que pensar rápido por um segundo e logo me dei conta de meu engano.
— Ah, é que estou ligando do celular do trabalho. Tem problema? Sou eu, assim mesmo.
— Posso salvar este número na minha agenda, então? — perguntou. — Não costumo atender quando não identifico a chamada. Já falei isso para você, lembra?
— Não precisa se dar o trabalho. É provável que na semana que vem já seja outro número. Estão trocando os nossos aparelhos por modelos novos aqui.
Isso pareceu deixá-lo satisfeito, de qualquer jeito. Eu me esquecera de que uma vez ligara para ele do telefone errado, e isso o deixara bem irritado.
Caso estivesse esperando que uma cerveja e um sanduíche com Vaughn fosse me animar um pouco, eu teria ficado tristemente decepcionado. Não há nada de estimulante no lugar em si, com seus tapetes marrons, bancos instáveis ao lado do balcão; e não havia nada capaz de levantar o astral na fisionomia ou na conduta de Vaughn. Ele parecia tão infeliz quanto eu.
— Como vai Audrey? — perguntei, depois de pedir meu sanduíche e me sentar à sua frente.
— Ela disse não — respondeu ele, abatido.
— Não? É mesmo? Por quê?
— Disse que não está pronta para uma união estável.
— Pensei que você tivesse dito que ela andava dando umas dicas.
— Bem, isso foi o que achei. Mas acabou que entendi tudo errado.
Tomei um bom gole da minha cerveja amarga. No fundo, o gosto pareceu ligeiramente estragado.
— Como assim? O que ela quer então?
Vaughn soltou um suspiro profundo.
— Não tenho ideia, Colin. Desisti de tentar entender o que as mulheres querem ou esperam de nós.
— Então — falei, tentando escolher cuidadosamente as palavras e ainda assim fracassando —, ela acabou tudo com você?
Ele pareceu espantado.
— Não, nada disso!
— Mas o que houve?
— Ela só não quer um compromisso sério, é isso.
Fiz um ruído que tentava exprimir solidariedade por Vaughn, desgosto por Audrey e alívio, por ainda estarem em um relacionamento ou algo parecido. Saiu algo como: “Humm. Pfft.”
— Essa cerveja está ruim — comentei depois e pedi para trocarem o barril.
Os problemas de Vaughn são mínimos, inexpressivos e desinteressantes em comparação aos meus. Ninharias. Perdi uma das minhas pacientes — a moça da mochila de lona. Isso não me acontecia já fazia um tempo, desde que fiquei mais exigente na minhas escolhas.
Liguei para ela às seis, ontem à noite, conforme combinado, mas ninguém atendeu o telefone. Cheguei a considerar a hipótese de ela já ter expirado e começado a se transformar — mas teria sido rápido demais, mesmo sem água. Quando passei de carro pela sua casa, ao voltar do trabalho, havia uma ambulância e um carro de polícia estacionados na frente.
Por mais que eu tente me enganar, dizendo que não estou aborrecido com isso, estou sim furioso com minha própria negligência. Falhei com ela, e mais importante ainda, falhei comigo mesmo; além de que perder uma delas, quando a polícia já está demonstrando interesse em minhas atividades, é um risco enorme.
Já perdi outras, principalmente no começo. Aquelas que hesitavam, ou que talvez estivessem menos abandonadas do que pareciam no início. Achei que cedo ou tarde alguém — um parente, quem sabe — faria uma queixa contra mim, ou alertaria as autoridades, mas nunca entraram em contato comigo por causa disso. À medida em que fui aprimorando a minha técnica, passei a tomar precauções para não ser descoberto. Levar seus celulares comigo, deixando um substituto no lugar, para poder manter contato foi uma ideia particularmente genial. Mais de uma vez, enviei respostas tranquilizadoras para aquelas que me mandavam mensagens de texto, parecendo um pouco preocupadas e, uma ou duas vezes, desisti dessas pessoas e não voltei mais a vê-las, no caso de terem sido encontradas.
Cada perda é uma lástima. Algumas delas eram muito interessantes, também: aquelas cujas transformações eu estava ansiosíssimo para acompanhar.
Hoje, passei o dia todo me tranquilizando, dizendo que eles não têm como fazer uma ligação entre nós dois. E, se fizerem, o que acontece? Conversei com ela. Fui convidado à sua casa. Ela me pediu ajuda e eu dei. Nada fiz de errado.
Sentado ao lado de um Vaughn melancólico, não posso deixar de sentir um arrepio de excitação ao pensar que Audrey o rejeitou. Pois foi uma rejeição, não importa como ele tente disfarçar. Ela não está pronta para assumir um compromisso com ele, o que significa que pode considerar se envolver com outra pessoa. Ela pode pensar em mim…
— Você quer que eu fale com ela? — pergunto.
Vaughn ergue a cabeça de seu prato. Sempre sei quando ele está se sentindo infeliz porque ele pede sanduíche de baguete com linguiça e ovo em vez de uma salada de presunto. Isso resulta numa mistura insalubre de molho marrom, ketchup e gema de ovo que, invariavelmente, escorre pelo seu queixo (de onde será removida) ou sobre sua triste gravata marrom (onde permanecerá).
— Jura? — exclama ele, ou pelo menos é isso que parece, vindo de uma boca cheia de carne e massa parcialmente mastigadas.
Faço para ele uma expressão de desgosto que espero que entenda.
— Se isso puder ajudar. Nunca se sabe.
Ele franze as sobrancelhas. Isso me parece um sinal de confusão, mas nunca consigo decifrar com clareza. Desconfiança. Talvez seja desconfiança.
— …ou não. Foi só uma ideia — concluo.
Ele engole o último pedaço e toma um pouco de cerveja. Depois, limpa a garganta.
— É muito legal da sua parte, Colin. Obrigado, mas…
— Mas?
— É que… Bem, é que Audrey… ela não se sente muito à vontade com você.
— À vontade? — Ainda que me irrite ficar repetindo tudo o que Vaughn diz para mim, não consigo pensar numa resposta melhor.
— Depois do jantar, lá em casa. Ela disse que você era um pouco esquisito. Enfim, sinto muito. Acho que você não vai poder ajudar. Não desta vez.
— Esquisito? Mas o que… — Olho para Vaughn e, depois, para o resto do meu sanduíche, subitamente sem graça e rançoso. Mas esquisito pode significar algo bom, não é? Talvez ela tenha usado a palavra esquisito no sentido de inabitual, enigmático, misterioso.
— Mas acho que foi só naquela noite — Vaughn se apressa em dizer, aparentemente tentando evitar que eu me sinta ofendido. — Ela estava com um humor diferente, antes mesmo de você chegar. Deve ser culpa dos hormônios.
Aquiesço e murmuro alguma coisa que indique concordância, mas por dentro sinto meu sangue zumbindo nos ouvidos. Quando saio do pub e volto para o escritório, não consigo me concentrar em nada. Sinto um peso enorme em mim, e o desejo repentino de encontrar Audrey e conversar com ela, perguntar o que ela quis dizer com “esquisito”. Nem mesmo Garth e seus repugnantes ruídos ruminantes conseguem me distrair. Preparo um documento para a reunião do conselho de segunda-feira, mas nem por um segundo consigo tirar Audrey da cabeça.