Restos Humanos
Colin
NA COZINHA DO TRABALHO, ALGUÉM DEIXOU um exemplar do dia do Briarstone Chronicle em cima da mesa. Está coberto de migalhas de pão e tem manchas de manteiga na primeira página. Em circunstâncias normais, eu o levantaria entre dois dedos e o jogaria na lata de lixo, antes de limpar a mesa com desinfetante e lavar as mãos.
Mas então a coluna lateral da primeira página chama minha atenção. Apoio-me na mesa. Era sobre a patética campanha “Ame seu vizinho”, que eles lançaram na sexta-feira — e parecia uma exortação para que todos batessem na porta dos vizinhos e verificassem se ainda estavam respirando.
Se não estivesse ao alcance auditivo de duas pessoas sentadas em mesas próximas à porta da cozinha, provavelmente eu teria dado uma gargalhada. De que eles acham que isso vai adiantar? Na melhor das hipóteses, tudo o que conseguirão é encontrar aqueles que ainda não foram achados. Não sei quantos são. Não leio o jornal sempre, e muitos casos sequer chegariam a ser noticiados.
E, de repente, tenho uma ideia brilhante. Uma ideia maravilhosa, resplandecente, deliciosa e perigosa. Eu poderia telefonar para eles, para essas pessoas do jornal, e dizer onde deviam procurar. Com isso, poderia poupá-los dessa campanha. Afinal de contas, a brava gente de Briarstone tem mais o que fazer de seus dias do que se incomodar verificando se seus vizinhos estão bem. Certamente, seria muita gentileza da minha parte contar a eles (sem perturbar a polícia, que, sejamos honestos, já está sob enorme pressão para elucidar arrombamentos, agressões e todos os outros tipos horríveis de crime) onde os outros podem ser encontrados.
De repente, estremeço com uma excitação e, para minha surpresa, ostento uma brusca e enorme ereção.
Sento-me à mesa da cozinha, algo que em geral nunca faço, pois não sei qual daqueles safados sentou-se ali antes, a fim de disfarçar o volume na minha calça. Seria capaz disso? Deveria ir em frente? Afinal de contas, por que não? Poderia fazê-lo de tal maneira que não identificassem meu envolvimento. E tornaria tudo repentinamente mais interessante e muito mais emocionante. Eu me diverti bastante neste último ano, mas os anteriores não foram assim tão legais. Ainda me parece a coisa certa a ser feita, e sinto um arrepio de excitação cada vez que me afasto deles, deixando-os para trás, mas o estímulo que sinto agora não chega nem perto do que experimentei nas primeiras vezes. Preciso — como é que os jornais dizem mesmo? — elevar minha aposta.
E daí, se a imprensa ficar sabendo que isso está sendo feito propositadamente? Os jornalistas não terão a menor ideia de como e por quê. É muito provável que não acreditem que uma coisa desse tipo seja possível. Todos os indivíduos em questão morreram de morte natural, afinal de contas. Não chega a ser um crime.
A ideia é ligar para alguém — ou não, talvez fosse melhor mandar um e-mail, ou uma carta — e ver o resultado! O que publicariam na próxima edição? Seria algo estrondoso. Pode até atrair a atenção nacional.
Minha ereção estava aumentando, e não diminuindo. Já tinha passado da fase de decidir. Não se tratava mais de “se” — agora era uma questão de “quando” e de “como”. Isso me proporcionou um modo inteiramente inédito de abordar o assunto. Uma nova inspiração.
Pego o jornal, sem mais me preocupar com as migalhas e as manchas de manteiga, e o dobro ao meio. Carrego-o casualmente, encostado na frente do corpo, saio da cozinha, passo apressado por algumas mesas no saguão e entro num banheiro para deficientes, escondido num canto ao lado dos elevadores. Tranco a porta e abro minha calça, deixando o jornal aberto no chão imundo, uma página dupla com as fotos de todos, como eu nunca os vira, fotos de rostos sorridentes e de diversas idades, rostos felizes antes de eu os conhecer, antes de libertá-los de seus sofrimentos, antes de lhes mostrar o caminho para escapar de tudo. E olhar para eles me deixou ainda mais excitado, começo a me esfregar com tanta força que até sinto dor, fechando mais meu punho até conseguir me aliviar, em cima do jornal, em cima de seus rostos.