Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 34 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

JUSTINE CHEGOU A MIM ATRAVÉS DO mais prosaico dos locais de encontro: um site de relacionamento. Tudo ficou tão mais simples depois da morte de Eleanor, quando abandonei a ideia de ter uma relação. Por que almejei isso durante tantos anos? Era algo completamente destituído de valor para mim. Não, o que eu queria mesmo era sexo com uma mulher, de preferência uma atraente, que fizesse tudo o que lhe pedisse e que não tivesse nenhuma expectativa além disso. Após meu sucesso limitado com Eleanor, voltei aos livros e trabalhei no aprimoramento da minha técnica, que eu acreditava ter potencial para funcionar. E, caso contrário, o fato de ter estabelecido contato pela internet facilitaria a ruptura sem muito constrangimento.

Não demorei muito para achar alguém. Criei um perfil falso, usando Mark Baxter como meu nome, um consultor de tecnologia da informação, solteiro; passei uma noite frustrante, examinando centenas de perfis de mulheres, em busca daquele que pudesse ser ao menos tolerável, e quase desisti. Na noite seguinte, tentei outra vez e foi então que localizei Justine. Era solteira, sem filhos e morava na zona norte de Londres. Ela dizia não estar a fim de compromisso e listou várias características agradáveis que eu não tinha ou simplesmente não entendia. Afinal, o que queria dizer um bom senso de humor? O que era uma “alma análoga”? Sua foto mostrava uma mulher de seus trinta e poucos anos, cabelo castanho na altura dos ombros, um sorriso revelando dentes brancos e regulares. Ela olhava para algo à sua esquerda, que não tinha sido enquadrado pela foto. Talvez fora a falta de um contato visual o que achei mais sedutor.

Mandei uma mensagem para ela e, em poucos minutos, ela respondeu. Por cerca de meia hora, nós nos correspondemos pelo bate-papo do site, e então ela me pediu meu e-mail para poder me enviar uma foto. Eu não tinha previsto isso. Enviei uma mensagem dizendo que precisava atender o telefone e voltaria logo, e assim aproveitei para criar uma conta no Hotmail em nome de Mark Baxter.

Alguns minutos mais tarde, voltei e ela continuava lá, me esperando. Enviei meu e-mail e disse que mal podia esperar para vê-la.

Espero que goste

Quando sua mensagem chegou, eu estava esperando uma foto de gatinhos ou ilustrações medonhas, mas acabou que era só Justine, usando um biquíni azul-claro, sentada numa rocha, a areia dourada entre os dedos dos pés e uma onda espumante à direita. Observei sua barriga bronzeada, não era firme ou musculosa, mas um pouco lânguida, um pequeno acúmulo de flacidez sobrando na cintura, acima do biquíni. Seu cabelo parecia seco no alto, o vento levantando sua franja, e as pontas ainda molhadas, esparsas como rabos de rato.

O que você acha?

Muito legal.

Isso é o que chamam de condecorada por um elogio frouxo

Você quer dizer condenada.

Algo assim

Tudo bem, é mais do que muito legal.

Hummmmm

Quem tirou essa foto?

Minha irmã

Vocês estavam de férias em algum lugar?

Na Grécia, dois verões atrás

Parecem estar se divertindo.

É verdade. Minha irmã morreu seis meses depois

Sinto muito.

Teve câncer

Eu não soube o que falar. Não queria que a conversa tivesse tomado esse rumo, e não sabia como mudar de assunto e pedir para fazer sexo, o que era, afinal de contas, o propósito daquele desperdício fenomenal de uma noite perfeitamente agradável. Mas, no fim, ela acabou me surpreendendo. Alguns instantes depois, me mandou outra mensagem:

Você pode me deixar mais feliz, Mark. Vamos nos encontrar?

Marquei de encontrá-la num bar em Crouch End. Ela chegou três minutos atrasada. Eu estava vestindo um paletó preto, conforme combinado, e embora houvesse outros homens usando paletós da mesma cor ali, eu era o único sentado sozinho e, consequentemente, deduzi que ela não teria dificuldade para me identificar. Também tinha lhe enviado uma foto recente, que mostrava meu rosto e meus ombros.

Ela havia envelhecido bastante, desde a viagem à Grécia, pensei. Seu cabelo ainda era castanho, mas havia um rastro grisalho nas raízes, e seu rosto estava pálido, não bronzeado, e enrugado em torno dos olhos e da boca. Fora isso, ela era perfeitamente aceitável. Apertei sua mão quando ela se aproximou.

— Então… — disse ela.

— Posso pedir algo para você beber? — perguntei.

— Um vinho branco seco, por favor.

Fui até o bar e entreguei uma nota de dez libras em troca de uma taça pequena de vinho e uma Coca-Cola. Até teria gostado de uma caneca de cerveja e uma dose de uísque, mas não naquela faixa de preço. Além do mais, se Justine me convidasse até sua casa, eu precisaria dirigir de volta depois.

Pedi que falasse sobre si mesma, evitando mencionar sua irmã e seu desventurado falecimento, e descobri que morava sozinha, tinha um emprego de meio período na central de atendimento de uma empresa de seguros, fazia aulas de salsa nas noites de terça-feira e estava solteira havia seis meses. Não tinha animal de estimação e estava na lista de espera para conseguir um terreno numa horta comunitária. Era vegetariana. Gostava de conhecer pessoas novas e, embora não estivesse especialmente em busca de um novo relacionamento, estava aberta para isso, caso a pessoa certa aparecesse.

Era espantosamente simples fazer com que alguém partilhasse tantas informações pessoais, sem oferecer nenhuma em troca. Toda vez que me perguntava algo, eu lhe dava uma resposta genérica e indagava mais coisas sobre ela, me inclinando para a frente, mantendo contato visual, sorrindo e fazendo um esforço resoluto para escutar suas respostas. Em uma hora, ela estava se inclinando na minha direção, brincando com os dedos no cabelo, encostando em meu joelho.

Trinta minutos depois disso, estávamos seguindo a pé para sua casa, a algumas ruas dali. Ela parou bem em frente à uma casa geminada e, subindo no degrau, colocou a mão na minha cintura, por dentro do paletó. Aquele contato repentino teve em mim o efeito de um choque, mas me recuperei rapidamente e me aproximei dela, sentindo o calor do seu corpo. Ela virou rosto na direção do meu e achei que ela queria um beijo, então fui em frente. Sua boca estava seca e tinha o hálito de vinho. Toquei no seu rosto e ela abriu a boca. Era como se beijasse Helen novamente. Recuei um pouco.

— Vamos entrar? — perguntei.

— Não tenho certeza — respondeu ela, olhando para mim com a cabeça inclinada para o lado.

— Não tem certeza do quê?

— Você pode ser um serial killer.

Ri ruidosamente daquilo e ela me apertou com mais força.

Depois, sorriu.

— Você é doce demais para ser um serial killer — completou ela.

Depois de me soltar, abriu a porta, acendendo a luz do corredor e deixando a porta aberta para que eu a seguisse para dentro.

Justine causou em mim um impacto muito maior do que qualquer outra, até mesmo Eleanor. Ao se entregar tão livremente para mim, pude perceber que a diversão estava em tomar, não em aceitar; que aquilo não era uma questão de sexo casual, não era algo a ser entendido como um passatempo, uma distração; aquilo era uma vocação. Um chamado.

Fizemos sexo no seu quarto, no escuro. Seu corpo se situava em algum ponto entre o de um anjo e o de uma prostituta, acho; limpo e flácido. Ela ficou tentando me beijar, o que sempre me fazia pensar em Helen, então eu virava a cabeça. Tinha me lembrado de levar um preservativo e, grata, ela o colocou em mim. Depois disso, tudo foi bem rápido. Fiquei deitado ao seu lado na escuridão, me sentindo saciado e decepcionado ao mesmo tempo. Estava esperando muito mais. Tipo o quê? Uma conexão.

Quando ela pôs o braço na minha barriga e se aproximou de mim, eu me afastei e me sentei na beira da cama, minhas mãos soltas entre as pernas. Podia ver meu pênis, pendurado e mole, esgotado, ridículo.

— Você está bem, Mark? — perguntou Justine, atrás de mim.

— Preciso ir embora — respondi.

— Mas já? Não pode ficar mais um pouquinho?

— Tenho que trabalhar de manhã.

O resto não foi dito. Pensei que fosse perguntar se nos veríamos novamente, mas felizmente não o fez. Ela parecia triste, mas não havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso. Não havia nada de errado com ela, exceto a complacência.

Ela estava irrepressível e resolutamente viva. E isso era, sem dúvida, uma decepção.